Os que se dedicam à verdade e ao exercício do juízo moral são os que não tergiversam sobre os fatos, seguindo-os atentamente, e, se for o caso, se dispõem a revisar as suas posições. Seu alvo central é o "universal", ou seja, discursos, regras e ações que tenham uma validade universal e não sejam instrumentos de causas particulares, tornadas, pela fé política, absolutas. Por exemplo, se intelectuais defendiam acertadamente a "ética na política" como um princípio devendo reger a vida pública, é porque esse princípio era tomado em sua universalidade, independentemente das pessoas ou dos partidos a que se aplicava. Quando, no entanto, o "mutismo" toma o lugar da "loquacidade" de outrora nos assuntos de moralidade pública, é porque houve aquilo que Benda chamava de "traição": o abandono dos princípios morais em nome de uma causa que se traveste, então, de religiosa.
A função intelectual deveria estar voltada para a crítica de regras, costumes, máximas e proposições que não se adequassem às condições de verdade das proposições e dos princípios morais, não se subordinando a interesses específicos, apesar de estes poderem ser ditos, erroneamente, universais. O problema consiste em que o século 20, nas experiências das esquerdas autoritárias ou totalitárias, nas experiências do "socialismo real", mostrou um tipo de intelectual a serviço de uma "causa temporal", como se esta devesse e pudesse ser justificada independentemente de seus resultados e meios de realização. Ou seja, estar a serviço da causa veio a significar uma completa relativização das distinções morais ao tudo subordinar a um bem maior, o partido, que servia, assim, de justificativa para qualquer tipo de ação ou de barbaridade.
Operando dogmaticamente, os intelectuais terminaram por renunciar à verdade e à moralidade, pondo-se a serviço de um partido ou de um governo determinado. O exemplo do stalinismo e dos partidos comunistas, acompanhados de seus clérigos de apoio, dos "companheiros de caminho", é particularmente ilustrativo. Tal tarefa foi facilitada por terem sido os fins do comunismo identificados com fins universais, tais como uma sociedade sem classes, a extinção da exploração ou, em termos religiosos, a realização da Cidade de Deus na Terra. Havia uma espécie de reconforto, como se não houvesse aqui uma traição, nesta busca temporal de um ideal atemporal ou, como alguns dizem, de realização da utopia.
Todos os eventos de derrocada moral e política do governo Lula e do PT têm sua origem neles mesmos e em sua base aliada. Graças às denúncias de Roberto Jefferson, todo um "novo mundo" emergiu, mostrando personagens relativamente desconhecidos, como Delúbio Soares, Silvinho Pereira e Marcos Valério. Ministros foram substituídos ou caíram, numa tentativa frenética de o governo contornar os efeitos da crise produzida. A cúpula do PT teve de renunciar. A captura partidária do aparelho de Estado ficou ainda mais escancarada com a corrupção que salta cada vez mais aos olhos. Fontes ilegais de financiamento petista e de sua base comparecem semanalmente, se não diariamente, nos noticiários. Nem o Banco do Brasil, por intermédio da Visanet, parece escapar desse assalto aos cofres públicos. O que dizem os "clérigos": "Trata-se de uma invenção da mídia!", "nada foi provado!", "somos ingênuos e bem-intencionados!" Só falta dizer: somos puros e eternos. Talvez no uso da mentira e da tergiversação.
Até um novo vocabulário foi inventado para encobrir o que está acontecendo e os propósitos dos que assim agiram e continuam agindo. O de maior efeito é provavelmente o que procura mascarar a corrupção com a expressão "recursos não contabilizados". Delúbio Soares deveria, inclusive, ganhar o prêmio da Academia Brasileira das Falsas Letras por esta pérola: "Não há contabilidade de recursos não contabilizados." Traduzindo prosaicamente: "Não prestarei contas do dinheiro da corrupção!" Ora, até mafiosos têm contabilidade do que ganham ou extorquem ilegalmente. Onde está essa "contabilidade"? Perdida nos meandros de palavras e discursos que procuram velar uma prática autoritária de poder.
Contudo, os que tiveram o senso crítico de não aceitar um tal uso "imoral" dos discursos, criticando internamente o PT ou o abandonando para ingressar em outras agremiações partidárias mais à esquerda, como o PSOL, só parcialmente fizeram um serviço ao esclarecimento da verdade. O seu movimento consistiu a passagem de "uma causa" a "outra", como se o problema não fosse, precisamente, o de estar a serviço de uma causa cuja aplicação redundou, no mundo, em experiências autoritárias ou totalitárias e, no Brasil, na captura partidária do aparelho de Estado, tendo como conseqüência o desrespeito à democracia representativa, ao Estado de Direito ou, mesmo, à inteligência das pessoas. Talvez deixar de ser "clérigo" seja a mais urgente tarefa de uma certa classe de intelectuais, se é que estão verdadeiramente preocupados com o Brasil e com o resgate da questão social.