Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, novembro 07, 2005

França, 2005 – A canalha tem de botar o rabo entre as pernas

PRIMEIRA LEITURA
Por Reinaldo Azevedo

Uma belíssima encrenca está em curso na França, não é? E eu já noto o cheiro nauseabundo do politicamente correto. Ah, o mundo está assanhado! As publicações de esquerda já antecipam do fim do capitalismo a sei lá que outras teorias escatológicas. Há quem veja, finalmente, o grande confronto entre Ocidente e Oriente explodindo na Europa, uma espécie de meio do caminho da onda que vem do Leste e, quem sabe?, um dia há de render o grande Satã: os EUA. Que a França estivesse em chamas ao mesmo tempo em que Chávez e Maradona fizessem a sua pantomima em Mar del Plata é mais do que emblemático.

A esquerda não vê a hora de ser massacrada pelos homens de turbante. Seja como for, a mídia de esquerda e até mesmo a liberal, coalhada de esquerdistas bem comportados que só aguardam momentos como esse para se manifestar, mal conseguem esconder a sua simpatia pelos baderneiros. Os conflitos já têm um vilão: Nocolas Sarkozy, ministro do Interior e, creio, a esta altura, ex-candidato à Presidência da República. Por quê? Ah, porque ele diz que é preciso fazer essa canalha botar o rabo entre as pernas, debaixo de porrete, o que também acho.

Num editorial indecentemente piedoso com os criminosos, o Le Monde ataca o modelo francês e, o que é de rolar de rir, recorre a palavras de François Mitterrand para dar conta do que seria uma revolta socialmente explicável. O líder ficou no Presidência de 1981 a 1995. Parece que os 14 anos não foram suficientes para que os socialistas encaminhassem uma resposta, como dizer?, socialmente justa para os imigrantes e seus filhos. Socialistas são assim mesmo: no poder, são incapazes de encaminhar soluções; na oposição, cobram dos adversários o que não conseguem implementar. Lamento dizer: mas é uma questão de caráter.

Há franceses descendentes de Asterix que também são pobres e teriam muito do que reclamar. Mas não o fazem na forma de um levante. A larga maioria destes que botam fogo em carros e prédios públicos é tão francesa quanto ingleses eram aqueles que explodiram o metrô londrino. O que eles têm em comum? Foram alimentados pela "tolerância" liberticida das democracias, especialmente quando gerenciadas por governos de esquerda ou filoesquerdistas, com o que eu chamaria de "identitarismo étnico". De certo modo, o Le Monde e Mitterrand tinham razão: jornal e político sabiam que havia guetos se formando. E ambos defenderam o direito que aquelas pessoas tinham a criá-los e de fazer reivindicações como seus representantes.

O problema não é só francês, não. É, em larga medida, europeu. Mas é claro que os países mais sujeitos à imigração dos africanos islamizados (outras minorias se juntam, mas têm peso menor) arcam com o maior peso. Um imigrante ou "filho" ou "neto" de imigrante na França matariam de inveja a classe média baixa brasileira. A economia de nenhum país está preparada para receber um fluxo contínuo de estrangeiros e integrá-los ao mercado. Sobretudo quando, no que respeita à cultura, eles insistem em não se integrar. Franceses, ingleses, alemães toleram os "hábitos" diferenciados dos que fazem questão de viver em verdadeiros bantustões dentro dos países em que escolheram morar. Até havia outro dia, lideranças islâmicas faziam proselitismo pró-Al Qaeda em mesquitas de Londres. A prática só foi combatida depois do ataque terrorista.

A imprensa politicamente correta quer a cabeça de Sarkozy. Há uma boa chance de levá-la. Embora ele esteja certo. Primeiro essa gente põe o rabo entre as pernas e depois se vê o que fazer, dentro das regras do Estado de Direito. Uma coisa é certa: numa democracia, não se toma o que se quer incendiando carros, prédios públicos, espalhando o terror. Sim, eles precisam primeiro de polícia. Os que, à falta do que dizer, pregam o "diálogo" deveriam dizer onde estão as lideranças. Com quem se vai conversar? Qual é a pauta de reivindicações além da baderna? Eu não sei. Eles não sabem. O governo francês não sabe.

A Europa começa a pagar caro por sua "tolerância" com minorias que nunca acataram a democracia como um valor. A França, em particular, experimenta um remédio amargo. Não faz tempo, o Estado francês, orgulhando-se de sua condição leiga, proibiu a exibição pública de qualquer símbolo religioso, do véu islâmico à cruz, como se esta última não estivesse entranhada em sua própria cultura e visão de mundo. Trata-se, como se vê, de um formalismo inútil. Os franceses pobres, filhos de imigrantes ou não, precisam de uma resposta do Estado — e isso vale para qualquer lugar do mundo. Mas a França nada conseguirá negando seus próprios valores e acolhendo os do inimigo — que, em suma, quer destruir a identidade do país.

Como? Esta é uma visão da direita? Nomes não me preocupam. A alternativa é chamar os "líderes incendiários" para conversar. Mas quem são eles e o que eles querem? Convém não confundir o outubro/novembro de 2005 com o Maio de 1968. A loucura de agora é outra. Bem mais perigosa. E, tudo indica, a França é apenas o começo. Contra os que querem solapar a democracia, só há um remédio: democracia — incluindo o aparato repressivo legítimo que a sustenta.

Há uma boa chance de que "a revolta" tenha começado. Ou a Europa tem coragem ou conhecerá o inferno.

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