Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, novembro 07, 2005

Palocci, Genoino e apolítica tomando Mogadon

PRIMEIRA LEITURA
Por Reinaldo Azevedo

O PT é uma esfinge sem charadas, sem surpresas, sem segredos. E, mesmo assim, está conseguindo dobrar o cabo das Tormentas, a despeito de ser tão óbvio e aborrecido — sem contar, claro, a enorme, a gigantesca cara-de-pau, sem a qual um petista não pode se orgulhar de fazer parte do grupo. O partido tem um método. E, com ele, enreda as oposições, que, por sua vez, são cativas da proibição auto-imposta de criticar a economia. Tucanos e pefelistas temem parecer irresponsáveis. O senador Tasso Jereissati (CE), futuro presidente do PSDB, sabe defender Antonio Palocci, ministro da Fazenda, com mais competência do que, por exemplo, Aloizio Mercadante (PT-SP).

Se Lula for reeleito, o que é, ao menos, plausível, não há dúvida de que o PT terá grande “mérito” nisso — e o menor não será a já aludida cara-de-pau. Mas, é certo, o PSDB terá de responder ao tribunal da história. Mas não é disso que quero falar agora, não. Retomo aquele assunto do método.

Leio na Folha desta segunda que José Genoino, ex-presidente do PT, confirma ter viajado em companhia de Palocci no avião do empresário Roberto Colnaghi, o tal que é dono da aeronave que teria transportado os dólares originários de Cuba (mas não, necessariamente, cubanos...). O ministro da Fazenda, por sua vez, em nota, nega a viagem. Isso quer dizer que ambos se chamam mutuamente de mentirosos? Não, é claro! Quer dizer que a verdade, quando se trata do PT, assume muitas faces. Genoino diz estar falando a verdade; Palocci diz estar falando a verdade; a verdade de cada um nega a do outro. E fica tudo bem.

Isso só não é inédito porque remete aos métodos antes empregados por Paulo Maluf. Num Roda Viva em que estive com ele, o ex-prefeito negava que mantivesse ou tivesse mantido contas da Suíça. Como era outra a versão das autoridades daquele país, eu ataquei de Clodovil, pedi que ele olhasse para a “câmera da verdade”, desafiando-a a declarar: “As autoridades suíças estão mentindo”. Ele não topou. E me devolveu a bola: “Isso é você que está dizendo”. E eu, que sou lógico como um dia atrás do outro, insistia: “Quer dizer que é mentira que o senhor tem ou teve dinheiro na Suíça, mas quem diz o contrário não é mentiroso?”. Aprendi com Maluf que isso é perfeitamente possível. Assim se dá agora com o petismo, sucedâneo do malufismo na política brasileira — sem querer, é claro, ofender a nenhum dos dois.

Ora, tem sido essa a rotina do PT desde que começaram os escândalos. Rogério Buratti diz que Palocci recebia mensalão em Ribeirão Preto. O ministro diz que é mentira. O normal seria que processasse o acusador ou lhe passasse uma descompostura. Nada! Nem processo nem crítica. Um fala uma coisa, outro, outra, e fica tudo por isso mesmo. Os jornalistas, quando têm de se referir a esses casos, são obrigados, por dever de ofício, a dar todas as versões. E todas são petistas! É um troço formidável. É método, não é loucura.

Quem de vocês já tinha ouvido falar do tal Colnaghi? Para mim, era um ilustre desconhecido. E o mesmo, tenho a certeza, vale para a larga maioria dos jornalistas. O homem veio a público com o caso dos dólares oriundos de Cuba, segundo reportagem da revista Veja. Se bem se lembram, trata-se daquela matéria que alguns colunistas houveram por bem descaracterizar porque acharam que a operação estava mais para Groucho Marx do que para Karl Marx (esse pessoal acha que o segundo Marx é mais sério do que o primeiro, o que está por ser provado...). Quem atacou a matéria da revista o fez sem dar um telefonema ou levantar o traseiro da cadeira. Do pináculo de sua prepotência, bradaram o seu “magiter dixit”. Pois bem, daquela matéria a esta data, algumas coisas aconteceram.

Além de Vladimir Poleto e Rogério Buratti, amigos de Palocci, terem confirmado a viagem, há o testemunho do piloto e de um motorista, que transportou a carga em sua etapa terrestre e hoje está lotado no Ministério da Fazenda. Se não eram dólares o que ia dentro das caixas, operação tão misteriosa faz supor coisa ainda pior. Duvido que se mobilizasse um jatinho só para levar uísque escocês e rum cubano para passear. Alguma safadeza bem brasileira se escondia ali. Todas as circunstâncias laterais concorrem para endossar a apuração de Veja — menos, é claro, para aqueles que asseguram que é tudo fantasia porque, bem..., porque eles não acreditam. E, já que não acreditam, então a coisa não existe. É um jeito de ver o mundo. Eu os entendo: ajudaram a eleger Lula. Agora, sentem-se na obrigação de carregar a alça do caixão até o fim. Se o morto ressuscitar e governar mais quatro anos como um cadáver adiado, tanto melhor para eles.

Isso tudo é, com efeito, muito impressionante. Porque se vai assistindo à banalização da bandalheira. Existe aí uma certa associação de jornalistas investigativos. Não sei para quê. As coisas mal precisam ser investigadas. O jornalismo pode regredir da revolução agrícola — semear para colher — para a da simples coleta. Erga a mão, e os casos vêm em abundância. Mais: parecem cair do céu feito maná.

Passamos cinco meses à espera da comprovação de que o valerioduto era irrigado com dinheiro público. Quando surge a evidência, a sensação é a de que todos já estavam um pouco cansados. O caso Visanet-BB-Valério-PT escancara a privatização do Estado, desmoraliza a versão do empréstimo, desmente uma história endossada pelo próprio presidente da República, com a chancela do ministro da Justiça, mas tudo se deu numa temperatura morna. Parece que o sistema político está a dizer: “Ah, é isso? A gente já sabia...”.

É como se todos estivessem sob o efeito do Mogadon, o nome fantasia de um sossega-leão cuja substância ativa se chama Nitrazepan. Ao lembrar tal remédio, presto, com as tintas da galhofa e alguma melancolia (que ele tanto apreciava), uma homenagem a Paulo Francis, o maior jornalista brasileiro de todos os tempos. Era devidamente odiado pela larga maioria dos seus coleguinhas, uma demonstração evidente de seu caráter.

É isso: o país tomou Mogadon e vive a sua fase maluco-beleza, enquanto o PT vai tentando juntar os cacos para manter o encabrestamento da sociedade, que foi sendo construído de forma lenta e gradual ao longo dos últimos 25 anos. Os homens de Lula primeiro tomaram o movimento sindical. Custou a década de 80. Na de 90, tomaram de assalto os fundos de pensão. Nos anos 2000, finalmente, o poder federal. Não! Ninguém se fechou a quatro chaves para decidir os passos da conspiração. Isso é tolice. Já disse lá em cima: não é loucura, é método. Digo aqui: não é conspiração, é método.

Qualquer um que seja alfabetizado na literatura de esquerda, o que não é o caso do jornalismo político — sempre muito piedoso, mas quase sempre energúmeno (adoraria saber o que essa gente lê além dos próprios textos) —, sabe que há teoria e pensamento políticos sustentando essa trajetória. E, pois, combater o petismo requer, igualmente, algum aporte teórico — muito pobre também na oposição. A maioria dos analistas políticos aposta que basta ser generoso e “isento”. Não é necessário ser inteligente, uma coisa obviamente perniciosa...

Coincidências

E, como uma coisa puxa a outra, a Folha publica nesta segunda que uma empresa do até havia pouco desconhecido Colnaghi — aquele, sabem?, que é amigo de Palocci, dono do avião que transportou a carga misteriosa e no qual o ministro quântico tanto viajou como não viajou, tudo ao mesmo tempo... — conseguiu um convênio com o Banco do Brasil no valor de R$ 9,4 milhões. Sem licitação.

A tal empresa presta serviços ao governo do Tocantins  e cuida da “modernização dos processos de gestão de pessoal do governo do Estado e dos processos de gestão administrativa e financeira das prefeituras”. Não sei o que quer dizer essa estrovenga. Deixo para a Madame Natasha, do Elio Gaspari, a tarefa de decifrá-la.

Ah, sim, o próprio Colnaghi, no caso da conexão cubana, confirma ter emprestado o avião. Ele não sabe para quem. Isso é muito comum, gente, na massa dos milhões de brasileiros que são donos de jatinhos. Alguém liga, pede emprestado e leva. O proprietário não costuma nem perguntar por quê. Afinal, estão entre pessoas de confiança.


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