Entrevista:O Estado inteligente

sábado, novembro 12, 2005

“Fomos incompetentes”. Só isso?



Augusto de Franco (12/11/05 07:41)

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O futuro presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati, em entrevista publicada na Veja que está saindo hoje, declara que o "despreparo" dos tucanos fez com que denúncias graves contra o governo passassem em branco. Sim, certamente houve isso. Mas não só. O erro mais grave foi de avaliação política.

Vale a pena ler a entrevista do Tasso, reproduzida abaixo. Deixando de lado os pequenos e indecentes acordos de mútua conveniência – como ficou evidente agora com a história do depoimento da Soraya de Londrina, cancelado a pedido de Lula em troca de um "esquecimento" favorável ao PSDB mineiro – ela revela um pouco do que se passou nas cabeças dos tucanos quando resolveram continuar poupando Lula, apesar de tudo o que o Brasil está assistindo.

Tasso credita a leniência oposicionista ao despreparo. Segundo ele, o despreparo tucano deu "ao governo a possibilidade de ele tentar montar, como tentou, essa grande farsa de que tudo se resumiu a um problema de caixa dois e hoje estar em plena campanha, como se nada tivesse acontecido".

Perguntado pela Veja se isso não fazia parte de uma tática eleitoral para deixar "sangrar" o presidente, Tasso respondeu: "Não foi uma estratégia eleitoral. O que ocorre é que não compartilhamos da idéia de quanto pior melhor. Não achamos adequado dividir o país em uma luta em que a nação seria esgarçada ao limite. Não levaríamos a crise a um ponto em que não haveria possibilidade de manutenção do governo".

A repórter da Veja então insistiu: "O senhor se refere ao impeachment do presidente?". Ao que o senador respondeu: "Sim, porque o fato é que existem forças que apóiam o presidente Lula. Essas forças iriam resistir à idéia e nós teríamos uma espécie de Venezuela do Chávez".

Veja foi mais incisiva: "O senhor está dizendo, então, que a tibieza do PSDB na crise se deve unicamente a um senso de responsabilidade que não inclui nenhum cálculo eleitoral?"

Jereissati se esquivou: "Eu vou falar com toda a franqueza para que não se tenha esse entendimento de que houve omissão da nossa parte – ou acordão ou acordinho. Nós vamos levar às últimas conseqüências os erros cometidos por esse governo. As CPIs estão começando a chegar a conclusões. E essas conclusões têm se mostrado muito contundentes. Houve roubo no Banco do Brasil, por exemplo – isso agora se sabe. Outras conclusões tão graves como essa se aproximam. E, a partir daí, os instrumentos jurídicos darão seqüência ao trabalho das CPIs. Mas, do ponto de vista político, é preciso que haja um amadurecimento político para discutir a questão do impeachment, independentemente da questão jurídica".

Veja então pediu que Tasso traduzisse o que estava querendo dizer e ele respondeu: "Traduzindo, significa que é preciso que a população brasileira esteja, em sua grande maioria, querendo o impeachment. Nós não podemos querer o impeachment do presidente sem que a grande maioria da população esteja convencida, como esteve no caso Collor, de que está na hora de o presidente da República, eleito por ela, ser impedido".

Veja perguntou então se isso, na opinião do senador, está longe de acontecer. Tasso respondeu: "Não está claro que exista esse clima no Brasil. E tomar essa iniciativa sem que haja esse clima é uma irresponsabilidade".

Bom, aqui está um resumo do pensamento tucano, expresso pelo seu futuro presidente. Vamos tentar analisá-lo.

Primeira hipótese: "O PSDB foi tíbio (ou tímido) porque não estava preparado".

Essa primeira hipótese de Tasso parece correta, mas não explica o comportamento do PSDB. Tanto é assim que ele declina uma segunda explicação:

Segunda hipótese: "O PSDB foi tíbio (ou tímido) porque avaliava que – se não o fosse (em outras palavras, se não poupasse Lula) – dividiria o país em uma luta em que a nação seria esgarçada ao limite, levando a crise a um ponto em que não haveria possibilidade de manutenção do governo".

Vejam bem os termos utilizados: "possibilidade de manutenção do governo" (sic)! Bom, daqui pula-se – sem mediações – para o impeachment:

Terceira hipótese: "O impeachment não foi pedido ou porque não há um "amadurecimento político" para discutir a questão ou porque não poderia ser pedido sem que a "grande" maioria da população estivesse convencida de que estava na hora de remover o presidente (pois isso seria, nessas condições, uma irresponsabilidade)".

Já é o bastante para desmontar a falha no argumento. O erro do raciocínio de Tasso (como de todos os tucanos responsáveis pela tática adotada pelo partido) é colocar as coisas da seguinte forma, como se só existissem duas alternativas: ou i) poupar o presidente ou, ii) pedir o impeachment.

Essa falsa disjunção significa que, se não podemos pedir o impeachment – porque isso seria uma irresponsabilidade na medida em que a grande maioria da população não está exigindo a medida – então devemos poupar o presidente.

Ora, existem muitas maneiras jurídicas e políticas de interpelar formalmente o presidente, chamá-lo a dar explicações à nação. Eu mesmo listei neste e-Agora várias coisas que o PSDB e os demais partidos de oposição deixaram de fazer nesse sentido e nenhuma delas implicava pedir o impeachment.

Vou transcrever abaixo parte da nota intitulada "Dez perguntas ao tucanato" (publicada aqui em 19 de outubro passado):

1 – Por que o PSDB não entrou em tempo hábil com uma representação no Conselho de Ética contra os envolvidos no escândalo do mensalão evitando (ou pelo menos dificultando) com isso a vergonhosa possibilidade de renúncia (que, na verdade, é apenas uma espécie de desincompatibilização antecipada para participar das eleições de 2006)?

2 – Por que o PSDB não usou o seu tempo eleitoral gratuito para questionar o presidente Lula quando ele disse que foi traído mas se recusou a declinar os nomes e os malfeitos dos supostos "traidores"?

3 – Por que o PSDB não cobrou do presidente Lula explicações convincentes sobre a Empresa do Filho (em janeiro de 2005 a produtora Gamecorp que tem como um dos sócios o filho de Lula, Fábio Luis, recebeu um investimento de R$ 5 milhões da Telemar. O capital da empresa era apenas de R$ 10 mil. O negócio foi intermediado pela DBO Trevisan, de Antoninho Marmo Trevisan, amigo do presidente. Lula considerou a operação normal)?

4 – Por que o PSDB não cobrou do presidente Lula explicações convincentes sobre o Empréstimo de Lula (em julho de 2005, a Folha de S. Paulo revelou que as contas do PT de 2003 registram uma dívida de R$ 29.436,26 de Lula, paga em quatro parcelas. Lula disse ignorar a dívida. Paulo Okamotto, amigo de Lula e presidente atual do Sebrae, disse que pagou a dívida, mas não mostrou provas. A oposição suspeita que ela foi paga com dinheiro de Marcos Valério)?

5 – Por que o PSDB não cobrou do presidente Lula explicações convincentes sobre os Cartões de Crédito (em agosto de 2005, o TCU aprovou uma auditoria sobre o uso de cartões de crédito da Presidência. A Casa Civil nega que os cartões tenham sido usados para pagar despesas pessoais da mulher do presidente, Marisa Letícia. Entre saques e pagamentos, os cartões consumiram quase R$ 20 milhões desde a posse de Lula)?

6 – Por que o PSDB não cobrou de Lula explicações convincentes sobre o episódio envolvendo o Irmão do Presidente (Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão do presidente Lula, é acusado de usar seu parentesco para promover tráfico de influência. Segunda a revista Veja, Vavá abriu um escritório em um prédio comercial de São Bernardo do Campo para intermediar demandas que empresários teriam junto a prefeituras, estatais e órgãos do governo)?

7 – Por que o PSDB não interpelou formalmente o presidente depois que Duda revelou, em uma CPI, que recebeu dinheiro ilegal, em conta no exterior, para fazer a campanha presidencial?

8 – Quais os motivos do PSDB para blindar Lula (e por que tanto medo de fazer um questionamento mais duro, direto e formal ao presidente – que, afinal, é o responsável pelo que faz o seu governo)?

9 – Por que o PSDB não usa todos os recursos de que dispõe para desmascarar a farsa do "Caixa 2" (mostrando que o objetivo da quadrilha montada no governo era falsificar o processo democrático pela via do controle antecipado dos 'meios eleitorais', lançando mão de recursos ilegais e meios criminosos para se perpetuar no poder; ou seja, era, na verdade, um outro tipo de "caixa", um "Caixa 3")?


Tudo isso poderia ter sido feito sem pedir o impeachment do presidente. Algumas dessas coisas – vá la! – o PSDB não fez por despreparo mesmo, como disse Tasso. Mas a razão da timidez, ou da tibieza, parece ser outra. E foi o próprio Tasso que forneceu a explicação.

O PSDB teve medo – por erro grosseiro de avaliação – que pressionar demais o presidente, interpelá-lo, confrontá-lo, poderia levar a uma divisão do país, instaurando uma luta em que a nação seria esgarçada ao limite, levando a crise a um ponto em que não haveria possibilidade de manutenção do governo (sic). Entenderam?

Mais claro impossível. O problema é que, ao tomar uma atitude não-tíbia, o PSDB poderia desencadear uma situação em que não houvesse a possibilidade de manutenção do governo.

Parece óbvio que o PSDB ficou inseguro diante da possibilidade de queda do governo. Mesmo sem pedir o impeachment. Por isso maneirou, aliviou, poupou, enfim, como se diz, contribuiu para blindar Lula.

Então não é porque não havia condições para o impeachment e sim porque o PSDB ficou com medo da situação de ingovernabilidade que poderia advir se parasse, de certo modo, de dar sustentação ao governo ao deixar de poupá-lo, ao deixar de ser tíbio.

Vejam que Tasso não fala da maioria da população e sim da sua grande maioria. Uma grande maioria deveria estar nas ruas pedindo o impeachment de Lula para que o PSDB pudesse encampar a proposta. Ora, isso seria, como se diz, "sopa no mel", não é mesmo? Nem quando o impeachment de Collor foi pedido, havia configurada tal "grande maioria". Assim é muito fácil. O partido não se desgasta e nem tem trabalho: espera a onda vir para nela surfar.

No entanto, repito para que fique claro, não é do impeachment que se trata aqui e sim da decisão de poupar ou não o presidente (e seus auxiliares, pois o PSDB, por exemplo, continua poupando Palocci, a tal ponto que um telejornal de anteontem a noite caracterizou o partido como "oposição de fachada").

O PSDB fez uma avaliação incorreta: a de que não poupar o presidente acarretaria uma venezuelização, uma luta fratricida? Talvez. É evidente que isso era um blefe, uma armadilha. Não poupar Lula não incendiaria o país, no máximo haveria mais gritaria no gueto.

Mas não foi esse, ao meu ver, o erro principal, e sim o erro de avaliação do caráter de Lula e da natureza do PT e do seu governo. O PSDB imaginou (e ainda imagina, em parte) que se tratava de um ator político normal, de um partido como os outros e de que era possível ir levando as coisas assim numa boa, empurrando com a barriga, negociando aqui e ali uma coisinha de conveniência mútua (ao que tudo indica continua fazendo isso) e aguardando o embate eleitoral favorável contra um adversário desgastado.

Bom, agora quase todos estão vendo que não é bem isso. E muitos já estão vendo que Lula e o governo são sustentados pelas oposições. Pois apesar de tudo o que o presidente e o seu partido têm feito, apesar de estarem se comportando como um bando, uma gangue política, o PSDB ainda quer porque quer aliviá-los, protegê-los.

Tasso, na sua entrevista, apenas falou, mas não convenceu, sobre os terríveis riscos que correremos se Lula deixar de ser blindado. Talvez exista alguma coisa que a gente não sabe, algo terrível que sobrevirá, que se abaterá catastroficamente sobre o Brasil se o PSDB parar de proteger o presidente. Mas, como qualquer pessoa inteligente pode perceber, é muito improvável que isso exista de fato.

A maioria dos analistas políticos, colunistas e articulistas, dentre os que não estão comprometidos com o governo, por um lado, ou com a tática tucana, por outro, já viu tudo. Basta ler os artigos que estão sendo publicados todos os dias. Basta ler o Reinaldo, o Noblat e o Paulo Moura, aí ao lado, na coluna de Artigos deste e-Agora.

Não é possível que os líderes tucanos não estejam lendo os jornais, as revistas, os sites, os blogs. Não é possível que, contra toda a inteligência, só eles estejam recebendo a luz da verdade e sejam os únicos portadores da análise correta.

Se os tucanos continuarem agindo dessa maneira, – como salientou anteontem o Boris Casoy – vão receber também um sonoro "Não" nas urnas de 2006. E pode acontecer coisa pior.


"Fomos incompetentes"
Tasso Jereissati, entrevista a Veja (16/11/05)

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