Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, novembro 12, 2005
Cora Rónai Papo, papo, papo
Como quase todo mundo que tem TV a cabo em casa e estava acordado àquela hora, eu também assisti à entrevista do presidente Lula ao "Roda Viva". Afinal, o homem, ao menos em tese, governa o país; há uma crise sem tamanho e sem precedentes comendo solta no seu quintal; há duas mortes de prefeitos do PT muito "naturais" para a Justiça, mas suspeitíssimas para qualquer leitor de romances policiais; há um contrato no mínimo duvidoso na família — para não falar em toda uma galeria de tipos sinistros, fazendo revelações cada vez mais comprometedoras sobre os bastidores do Poder. Por melhor que pudesse estar a programação do Discovery, o presidente está devendo duas ou três respostas à Nação e, se as desse, eu queria estar a postos para assistir ao Momento Histórico.
Lula não inventou, mas elevou à categoria de arte a forma clássica de comunicação dos políticos que fogem da raia, o silêncio estrepitoso. Como ele mesmo observou, às vezes faz até oito discursos por dia — e, inacreditavelmente, nada se aproveita desse caudaloso rio de palavras, exceto algum material para anedotas. Seria interessante ver se, cutucado sobre assuntos dos quais prefere distância, ele chegaria, enfim, a algo mais consistente, e quiçá mais elegante, do que jogar o otimismo na privada e dar a descarga.
Sou brasileira, nunca desisto, mas confesso que, quando o presidente disse que nunca foi "tão irritado, tão nervoso como oposição", desisti de ver qualquer coisa que se aproximasse, sequer remotamente, da realidade. Pois se até as pedras da rua sabem que o notório Duda Mendonça foi contratado justamente para apagar a sua real imagem raivosa e, num ato explícito de propaganda enganosa, substituí-la pelo falso "Lulinha Paz e Amor"!
Ao longo da noite, quem foi ficando raivosa fui eu. Entendo que, entre nós, a política se transformou na prática de mentir deslavadamente e preservar a própria pele a todo custo, mas, ainda assim, conservo certos valores arcaicos. Por causa deles, me sinto insultada sempre que um funcionário do povo tenta fazer de tolo o próprio povo que o sustenta.
Pois Lula não fez outra coisa durante a entrevista, da negação da existência do mensalão à afirmação de que o negócio do filho com a Telemar foi feito de forma "absolutamente transparente" — quando, na verdade, tudo foi feito para encobrir a nebulosa transação. Ora, a tal ponto ele sabe que cinco milhões não caem de mão beijada na conta de ninguém que revelou, provavelmente sem se dar conta do que dizia, que sonha com um Brasil em que seus netos possam viver sem corrupção. Apesar de usar a enervante metáfora das "práticas equivocadas", ele há de saber o que a sua geração está fazendo, e do exemplo que está dando aos filhos.
Eu não sei o que são cinco milhões. Números assim não passam de abstrações para mim, mais ou menos como a distância da Terra à Lua ou as teorias da física quântica. Por isso, resolvi fazer as contas de quanto tempo uma pessoa que ganha R$ 2.326,00 por mês levaria para amealhar os R$ 5 milhões que a Telemar achou por bem investir na até então inexistente empresa de Lula Jr. Escolhi esta quantia não por capricho ou numerologia, mas porque R$ 2.326,00 correspondem, para o governo, a um salário de rico, do qual se pode subtrair uma das mais altas alíquotas de imposto do mundo, 27,5%. Apenas 5% dos brasileiros estão nesta faixa de renda.
Pois bem: se não gastasse um único centavo do seu salário, e se dele não fossem descontados imposto, previdência e eventuais taxas, em menos de 180 anos — mais precisamente, 179 anos e dois meses — o feliz assalariado poderia chegar aos píncaros financeiros atingidos pelo talentoso herdeiro do presidente. Que continua achando que não há nada demais com tal montanha de dinheiro, e que se mostra indignado quando a sociedade, através da imprensa, insiste em se meter na vida do filho, rapaz de tanto sucesso.
Mais irritante do que a entrevista de Lula, só mesmo a reação xiita que encontrei na internet diante da indignação de brasileiros e brasileiras que se sentem traídos e pilhados por este governo sujo.
No blog do Noblat, alguém sugeriu que Lula tem fixação obsessiva com FhC: só fala nele, só se refere a ele, só se pauta pelo que ele fez ou deixou de fazer. Mas, nisso, Lula é apenas o Grão-Petista, refletindo os costumes da sua tribo. É impossível apontar a "conduta equivocada" de algum companheiro ou os "recursos não contabilizados" do PT sem que todos saiam disparando, furiosos, sobre o PSDB e FhC. Ninguém pode dizer um ai sobre Lula sem ser imediatamente taxado de tucano, a pior das ofensas.
Alguns são tão arrogantes e sectários, e estão de tal modo acostumados a pensar de acordo com as diretrizes do partido, que não concebem que haja quem pense pela própria cabeça, deteste igualmente todos os partidos e abomine Luiz Inácio e sua turma pelo incalculável mal que estão fazendo ao país. O fato de Lula estar na Presidência e ser, portanto, o alvo óbvio da indignação do momento não lhes passa pela cachola; para eles, não se pode criticar Lula em pleno ano de 2005 porque, nos idos de 1998, FhC fez pior. Haja paciência!
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