Primeira Leitura (08/11/05)
Foi acintosa a entrevista concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao programa Roda Viva, transmitido na noite de segunda-feira. Se a oposição não entendeu o recado que lhe foi dado, eu traduzo: tratou-se de uma declaração de guerra. Lula sintetizou cinco meses de denúncias — e evidências — num juízo peremptório: nada aconteceu. Para ele, tudo não passa de uma armação criada pelas oposições para depor seu virtuoso governo.
É claro que eu não fiquei impressionado ao ouvi-lo negar o mensalão — a despeito das evidências de pagamento irregular a deputados; é claro que eu não fiquei impressionado ao ouvi-lo cantar as glórias de José Dirceu, afirmando que ele vai ser cassado "apenas" por razões políticas; é claro que eu não fiquei impressionado ao ouvi-lo negar o esquema Visanet-BB-Valério. Tudo isso estava, digamos assim, no seu roteiro obrigatório de respostas, tanto quanto estava no roteiro obrigatório de perguntas dos jornalistas. O que me impressionou foi outra coisa.
Lula negou até mesmo a existência de caixa dois! Sim, isto mesmo: ele negou até o que havia admitido — e já era uma falsidade — naquela entrevista-laranja concedida na França, lembram-se? Tratou-se daquela peça de ficção urdida entre Delúbio Soares, Marcos Valério e o próprio Lula, sob a orientação do advogado criminalista Márcio Thomaz Bastos, que vem a ser também ministro da Justiça — isso quando não está ocupado em livrar o chefe de um processo de impeachment. Até os petistas ficaram constrangidos e disseram um "não é bem assim".
Por que Lula o fez? Porque ele acha que pode. Quando admitiu o caixa dois e quando pediu, a seu modo, desculpas ao país, a sua situação era bastante difícil. Mais ainda: quando Duda Mendonça admitiu ter recebido dinheiro no exterior, o presidente chegou bem perto do abismo e acabou protegido pelas oposições. Agora, aquele trem já passou. Lula está mais longe do perigo. O curioso é que se afastou não porque faltem provas de irregularidade. Ao contrário. De lá pra cá, elas só se agravaram.
Hoje, a triangulação BB-Valério-PT é uma obviedade; a existência dos mensaleiros está provada pelos sucessivos saques; evidências de outros comportamentos heterodoxos, como o misterioso vôo carregando supostas caixas de bebida (que a apuração de Veja aponta serem dólares vindos de Cuba) se juntaram à acusação principal. Lula e o seu partido, enfim, ficam cada vez mais presos a uma teia de fatos inexplicados, embora, tudo indica, muito explicáveis.
E o presidente, no entanto, está se sentindo mais seguro do que há dois meses. O que lhe confere força e, convenha-se, uma notável incapacidade de corar, negando até mesmo aquele crime — o caixa dois — que servia de biombo para esconder outros bem piores? Todos conhecem a piada do sujeito surpreendido pela mulher, nu, na cama, em companhia de outra. A primeira coisa que lhe ocorre dizer é: "Querida, não é o que você está pensando". Aos jornalistas que participaram do Roda Viva, diante de todos os fatos, de todas as evidências, Lula nem mesmo puxou o lençol: "Não é o que vocês estão pensando". E se expôs inteiro aos olhos que o observavam.
Mandei investigar
Mais ainda. Como numa peça surrealista, Lula relatava o exato contrário do que indicam os fatos. Os psicanalistas poderiam falar melhor do que eu. Não fosse aquilo tudo resultado de um bom treinamento, tratar-se-ia de uma personalidade acometida de esquizofrenia. Enquanto negava o caixa dois no PT, antes admitido, e as irregularidades, o presidente censurava gravemente o expediente do... caixa dois! Como se a sua própria eleição não fosse tributária de tal expediente; como se seu partido não fosse seu useiro confesso.
Sigamos. Lula disse o que é óbvio e consensual: a responsabilidade última pelo governo é do presidente da República, o que, então, nos faria supor que ele próprio deveria responder pelas lambanças havidas na sua gestão, certo? Mais ou menos. Como ele não admite que tenha havido qualquer irregularidade, pode evocar o princípio sem se sentir atingido por ele. Ora, se nada aconteceu, por que diria algo diferente?
Àquela altura da entrevista, já se vendo senhor da situação, o presidente ainda bateu no peito e lembrou o seu empenho pessoal na apuração das denúncias. "Mandei investigar". Mandou nada! O governo o que fez foi gastar R$ 1 bilhão em emendas do Orçamento para tentar evitar as CPIs. Uma vez instalada a primeira, a dos Correios, a Polícia Federal teve de entrar em ação porque essa era a sua obrigação funcional, não porque o presidente da República quisesse. Ademais, a PF de Márcio Thomaz Bastos, até agora, não produziu uma miserável prova. O que sabemos vem das CPIs e das apurações conduzidas pela imprensa. Ao contrário: há setores na própria PF que dizem que o Ministério da Justiça está obstando as investigações.
Alguém poderá dizer: "Lula negou o mensalão, mas não o caixa dois". Negou, sim. Ele acusou Delúbio de ter "terceirizado" o caixa do partido. Não. Foi justamente o contrário. Delúbio o que fez foi estatizá-lo. A suposta terceirização apontada por Lula é uma etapa superior da farsa dos empréstimos.
Candidatíssimo
Lula, então, nega que tenha havido qualquer irregularidade, afirma a ilegitimidade política da oposição para propor seu impeachment e conclui a sua pantomima afirmando que não sabe se será candidato porque, diz, o segundo mandato é sempre pior do que o primeiro. É claro que estava se referindo, ainda uma vez, a FHC, a sua verdadeira obsessão. De todo modo, o homem faz pensar: vocês já imaginaram um Lula reeleito num mandato que fosse ainda pior do que este? Seria, com efeito, um pesadelo. Lula, em suma, está dizendo a todos: "Não votem em mim. Prometo ser ainda pior". Não passou de um gracejo retórico para pôr em dúvida o que é dado como certo: a sua candidatura ao segundo mandato — a menos que as investigações lhe acertem o queixo, o que, dado o padrão até aqui, é duvidoso. Afinal, a sociedade está mais ou menos narcotizada. Os crimes nada mais fazem do que se acumular, se amontoar. Cada dia é sempre pior do que o anterior no que concerne aos fatos, mas não, necessariamente, no que respeita ao desgaste do governo e do presidente. Todo mundo está com o saco mais ou menos cheio. Aliás, eis aí um bom caminho a ser explorado pelas oposições, uma vez que a oportunidade do impeachment, salvo uma bomba, já passou. Está começando a nascer um certo enfaro com Lula. Muita gente já não agüenta um governo que tem tantas explicações a dar. Lula fala demais. Começa a torrar a paciência. E, agora, já que é candidato, talvez comece a dar mais entrevistas — deve ter considerado que foi bem-sucedido no Roda Viva. Insisto: o que o programa teve de mais importante foi a declaração de guerra de Lula. Ele não vai se defender na campanha de 2006. Vai continuar no ataque. E dará pouca bola à realidade e aos fatos. Negará sempre. Tudo. Vai investir numa clivagem que já está em curso: há os conspiradores, que querem tirar o PT do poder, e há os éticos petistas, vítimas de uma trama. Arrematando: se Lula for reeleito, José Dirceu, entende-se, deve voltar com tudo. Afinal, disse o presidente, "feliz o país que tem um político da magnitude de Dirceu". Por que um homem como esse tamanho todo ficaria fora do futuro governo, não é mesmo? PS: Seguindo a linha esquizofrênica, Lula se orgulha de 50 pessoas terem sido afastadas do governo, embora, sustente, não tenha havido corrupção. Vale dizer: se o presidente estivesse falando a verdade, seria, então, um homem injusto.
É claro que eu não fiquei impressionado ao ouvi-lo negar o mensalão — a despeito das evidências de pagamento irregular a deputados; é claro que eu não fiquei impressionado ao ouvi-lo cantar as glórias de José Dirceu, afirmando que ele vai ser cassado "apenas" por razões políticas; é claro que eu não fiquei impressionado ao ouvi-lo negar o esquema Visanet-BB-Valério. Tudo isso estava, digamos assim, no seu roteiro obrigatório de respostas, tanto quanto estava no roteiro obrigatório de perguntas dos jornalistas. O que me impressionou foi outra coisa.
Lula negou até mesmo a existência de caixa dois! Sim, isto mesmo: ele negou até o que havia admitido — e já era uma falsidade — naquela entrevista-laranja concedida na França, lembram-se? Tratou-se daquela peça de ficção urdida entre Delúbio Soares, Marcos Valério e o próprio Lula, sob a orientação do advogado criminalista Márcio Thomaz Bastos, que vem a ser também ministro da Justiça — isso quando não está ocupado em livrar o chefe de um processo de impeachment. Até os petistas ficaram constrangidos e disseram um "não é bem assim".
Por que Lula o fez? Porque ele acha que pode. Quando admitiu o caixa dois e quando pediu, a seu modo, desculpas ao país, a sua situação era bastante difícil. Mais ainda: quando Duda Mendonça admitiu ter recebido dinheiro no exterior, o presidente chegou bem perto do abismo e acabou protegido pelas oposições. Agora, aquele trem já passou. Lula está mais longe do perigo. O curioso é que se afastou não porque faltem provas de irregularidade. Ao contrário. De lá pra cá, elas só se agravaram.
Hoje, a triangulação BB-Valério-PT é uma obviedade; a existência dos mensaleiros está provada pelos sucessivos saques; evidências de outros comportamentos heterodoxos, como o misterioso vôo carregando supostas caixas de bebida (que a apuração de Veja aponta serem dólares vindos de Cuba) se juntaram à acusação principal. Lula e o seu partido, enfim, ficam cada vez mais presos a uma teia de fatos inexplicados, embora, tudo indica, muito explicáveis.
E o presidente, no entanto, está se sentindo mais seguro do que há dois meses. O que lhe confere força e, convenha-se, uma notável incapacidade de corar, negando até mesmo aquele crime — o caixa dois — que servia de biombo para esconder outros bem piores? Todos conhecem a piada do sujeito surpreendido pela mulher, nu, na cama, em companhia de outra. A primeira coisa que lhe ocorre dizer é: "Querida, não é o que você está pensando". Aos jornalistas que participaram do Roda Viva, diante de todos os fatos, de todas as evidências, Lula nem mesmo puxou o lençol: "Não é o que vocês estão pensando". E se expôs inteiro aos olhos que o observavam.
Mandei investigar
Mais ainda. Como numa peça surrealista, Lula relatava o exato contrário do que indicam os fatos. Os psicanalistas poderiam falar melhor do que eu. Não fosse aquilo tudo resultado de um bom treinamento, tratar-se-ia de uma personalidade acometida de esquizofrenia. Enquanto negava o caixa dois no PT, antes admitido, e as irregularidades, o presidente censurava gravemente o expediente do... caixa dois! Como se a sua própria eleição não fosse tributária de tal expediente; como se seu partido não fosse seu useiro confesso.
Sigamos. Lula disse o que é óbvio e consensual: a responsabilidade última pelo governo é do presidente da República, o que, então, nos faria supor que ele próprio deveria responder pelas lambanças havidas na sua gestão, certo? Mais ou menos. Como ele não admite que tenha havido qualquer irregularidade, pode evocar o princípio sem se sentir atingido por ele. Ora, se nada aconteceu, por que diria algo diferente?
Àquela altura da entrevista, já se vendo senhor da situação, o presidente ainda bateu no peito e lembrou o seu empenho pessoal na apuração das denúncias. "Mandei investigar". Mandou nada! O governo o que fez foi gastar R$ 1 bilhão em emendas do Orçamento para tentar evitar as CPIs. Uma vez instalada a primeira, a dos Correios, a Polícia Federal teve de entrar em ação porque essa era a sua obrigação funcional, não porque o presidente da República quisesse. Ademais, a PF de Márcio Thomaz Bastos, até agora, não produziu uma miserável prova. O que sabemos vem das CPIs e das apurações conduzidas pela imprensa. Ao contrário: há setores na própria PF que dizem que o Ministério da Justiça está obstando as investigações.
Alguém poderá dizer: "Lula negou o mensalão, mas não o caixa dois". Negou, sim. Ele acusou Delúbio de ter "terceirizado" o caixa do partido. Não. Foi justamente o contrário. Delúbio o que fez foi estatizá-lo. A suposta terceirização apontada por Lula é uma etapa superior da farsa dos empréstimos.
Candidatíssimo
Lula, então, nega que tenha havido qualquer irregularidade, afirma a ilegitimidade política da oposição para propor seu impeachment e conclui a sua pantomima afirmando que não sabe se será candidato porque, diz, o segundo mandato é sempre pior do que o primeiro. É claro que estava se referindo, ainda uma vez, a FHC, a sua verdadeira obsessão. De todo modo, o homem faz pensar: vocês já imaginaram um Lula reeleito num mandato que fosse ainda pior do que este? Seria, com efeito, um pesadelo. Lula, em suma, está dizendo a todos: "Não votem em mim. Prometo ser ainda pior". Não passou de um gracejo retórico para pôr em dúvida o que é dado como certo: a sua candidatura ao segundo mandato — a menos que as investigações lhe acertem o queixo, o que, dado o padrão até aqui, é duvidoso. Afinal, a sociedade está mais ou menos narcotizada. Os crimes nada mais fazem do que se acumular, se amontoar. Cada dia é sempre pior do que o anterior no que concerne aos fatos, mas não, necessariamente, no que respeita ao desgaste do governo e do presidente. Todo mundo está com o saco mais ou menos cheio. Aliás, eis aí um bom caminho a ser explorado pelas oposições, uma vez que a oportunidade do impeachment, salvo uma bomba, já passou. Está começando a nascer um certo enfaro com Lula. Muita gente já não agüenta um governo que tem tantas explicações a dar. Lula fala demais. Começa a torrar a paciência. E, agora, já que é candidato, talvez comece a dar mais entrevistas — deve ter considerado que foi bem-sucedido no Roda Viva. Insisto: o que o programa teve de mais importante foi a declaração de guerra de Lula. Ele não vai se defender na campanha de 2006. Vai continuar no ataque. E dará pouca bola à realidade e aos fatos. Negará sempre. Tudo. Vai investir numa clivagem que já está em curso: há os conspiradores, que querem tirar o PT do poder, e há os éticos petistas, vítimas de uma trama. Arrematando: se Lula for reeleito, José Dirceu, entende-se, deve voltar com tudo. Afinal, disse o presidente, "feliz o país que tem um político da magnitude de Dirceu". Por que um homem como esse tamanho todo ficaria fora do futuro governo, não é mesmo? PS: Seguindo a linha esquizofrênica, Lula se orgulha de 50 pessoas terem sido afastadas do governo, embora, sustente, não tenha havido corrupção. Vale dizer: se o presidente estivesse falando a verdade, seria, então, um homem injusto.