Mauro Chaves
É de todo inacreditável que, com a distância no tempo de apenas quatro meses, dois prefeitos de duas importantes cidades, que lutavam contra ladrões do dinheiro público, tivessem sido cruelmente assassinados por bandidos apenas "comuns", sem quaisquer conexões com interesses escusos nesse relacionamento público/privado, tais como os ligados ao lixo, ao transporte coletivo e aos jogos de azar - como o bingo. O mínimo a se esperar do partido que abrigava essas duas dignas lideranças é que tivesse a generosidade da desconfiança, em relação a seus respectivos assassinatos. Mas, até quando usou dinheiro escuso para pagar honorários de advogado num dos casos, não foi para descobrir, mas para encobrir. Não foi para atacar suspeitos, mas para defender-se de suspeitas.
Em ambos os casos há também a coincidência de várias mortes, de pessoas de alguma forma ligadas aos respectivos assassinatos. Em ambos os casos há depoimentos contraditórios, falhas de perícia, desleixos na investigação e tentativas de desqualificação de testemunhas. Uma viúva recebeu prontas promessas de investigação aprofundada, em nível federal, mas por mais de dois anos foi apenas enrolada, tornando-se uma "chata" insistente para seus correligionários ocupantes do Poder maior. A outra viúva foi uma decisiva aliada na abjeta estratégia de desqualificação (até do afeto familiar) dos irmãos do prefeito morto, que com firmeza têm tentado aprofundar as investigações, por também não se conformarem (tal como a primeira viúva) com a estapafúrdia versão do crime comum, segundo a qual os prefeitos executados "só estavam no lugar errado, na hora errada".
O que saltou à vista nos depoimentos que as duas prestaram, no mesmo dia, foi a profunda diferença de qualidade humana, de sinceridade de emoções, assim como das avaliações que faziam do próprio ente querido que perderam. Enquanto uma desenhava o perfil do marido morto com as cores vivas da admiração, do amor, da lealdade, a outra descrevia o perfil do namorado morto com a frieza da militante incumbida de uma tarefa - a de passar ao público a imagem de um homem estranho, esquisito, misantropo, que não recebia nem visitava ninguém e era de todo indiferente em relação à própria família. Ela fez questão de repetir ad nauseam que o namorado prefeito era, mais que desleixado, um verdadeiro irresponsável em relação à própria segurança - o que seria muito oportuno à "tese" do crime comum. Na verdade, ela só falou bem dos maiores suspeitos.
Nessa remexida profunda de valores da sociedade brasileira, quando parecem vir à tona, de uma só vez, todos os podres camuflados em nosso espaço público-político, certamente teremos de optar entre dois caminhos. De um lado, estão os que sentem e, de outro, os que dizem sentir. De um lado, os que fazem e, de outro, os que fingem fazer. E na confusão do dito pelo não dito, quando a lógica normal é substituída pela quase-lógica de impacto, quando o bom senso é violentado pelo efeito programado, é preciso distinguir a sinceridade do cidadão (ou cidadã) que acredita na possibilidade de haver justiça, que se empenha em lutar contra os obstáculos que se anteponham à meta que considera correta, justa, decente, daquele outro (ou outra) que é um puro disfarce, da emoção representada, do comportamento gerido pelo marketing, do cumprimento de tarefas - ofensivas ou defensivas - geradas pela estratégia de sobrevivência das próprias corriolas.
Não há dúvida que no espaço público brasileiro, mesmo enquanto lugar piorado de concentração de nossos caracteres socioculturais, há uma reprodução de traços de nossa alma coletiva. De um lado, há os que se empenham na busca real de benefícios sociais, no esforço de construção, cuja motivação maior, do engajamento na política ou na administração pública, é aquele fervor em servir, imenso prazer de que foram tomados grandes governantes de nossa História. De outro lado estão os seduzidos pela motivação menor do usufruir, do servir-se da coisa pública - quando não do locupletar-se -, anseio dos espíritos medíocres que buscam o poder sem projetos, movidos apenas pelos pequenos deleites que dele possam extrair.
De um lado, está a opção pelo real: no conhecimento, nos sentimentos, no trabalho, na cooperação, na coerência de propósitos, na lisura, no respeito à lei, no decoro. De outro, a opção pelo aparente: nos falsos números, na emoção representada, na lei burlada, na ética escamoteada, na decência abandonada, porque o que interessa não é o que é, mas o "como se fosse", não é o ser, mas o mostrar.
Sim, temos de escolher entre as duas viúvas.
Você decide.