Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, novembro 11, 2005

Clóvis Rossi - Honra e constrangimentos

Folha de S. Paulo
11/11/2005

Quando for construído o túmulo do homem público desconhecido, o
epitáfio será a frase pronunciada anteontem por Anderson Adauto,
ex-ministro dos Transportes e hoje prefeito de Uberaba: "Não vou me
constranger por ser ministro".
De fato, não se constrangeu por usar caixa dois, embora seja coisa de
"bandidos", como definiu um ex-colega de Adauto, o ministro da
Justiça, Márcio Thomaz Bastos.
É ou não a frase-símbolo do homem público brasileiro, com as exceções de praxe?
Suspeito que ninguém espere mesmo que ministros, deputados, senadores
e outros homens públicos fiquem constrangidos por utilizarem "coisas
de bandidos". Ao contrário. No imaginário coletivo, acredita-se, com
razão, que o fato de ser ministro (ou ocupar alguma outra posição
pública) torna o cidadão menos e menos preocupado com a natureza e a
honradez de seus atos.
É filho dessa cultura o fato de o presidente da República ter visto o
filme "Dois Filhos de Francisco" em cópia pirata. Não, petistas
hidrófobos, não estou dizendo que Lula foi pessoalmente à locadora
pedir uma cópia pirata. Mas, sim, estou dizendo que a falta de
"constrangimentos" que, supunha-se, seu governo deveria ter imposto
desde o primeiro dia faz com que a ajudância de ordens não se
constranja em pegar uma cópia pirata. Certamente, deve ter pensado:
"Não vou me constranger por ser ajudante-de-ordens".
Semanas atrás, em um café em Salamanca com Sérgio Ramírez,
ex-vice-presidente da Nicarágua, notável escritor que dissentiu do
sandinismo quando viu que o movimento revolucionário tampouco tinha
"constrangimentos", ouvi uma frase que, esta sim, deveria ser
emblemática de homens públicos com maiúscula:
"No primeiro dia de governo, o presidente deveria reunir parentes e
amigos e avisar que, pelos próximos quatro anos, ninguém poderia fazer
negócios. Nem negócios honrados".

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