DORA KRAMER
Criados no poder, PSDB e PFL são coadjuvantes das ações oposicionistas do PT A descoberta da CPI dos Correios que estabeleceu conexão entre contratos de publicidade da Visanet ordenados pelo Banco do Brasil e um aporte de R$ 10 milhões do BMG nas contas de Marcos Valério de Souza que abasteceram os cofres do PT sob a forma de empréstimo não foi só fruto do empenho voluntário da comissão de inquérito. Deu-se sobretudo em função da necessidade de a oposição reagir, com fatos concretos, à recente decisão do PT e do governo de contra-atacar para dar à crise contornos de um embate meramente eleitoral. Resultado: aquilo que já estava mesmo se transformando numa briga de rua, com ameaças de troca de sopapos e denúncias de espionagem, voltou ao terreno da investigação propriamente dita. Não que a CPI tivesse condições de escamotear dados e desviar atenções se o governo fosse mais fidalgo em suas maneiras. Mas, até talvez por causa do treino de anos na condição de inquilinos do poder, os partidos de oposição a Lula não são afeitos ao ofício do ataque. Se as coisas ficassem exclusivamente nas mãos deles, as fases de arrefecimento poderiam ser prolongadas e, por que não dizer, até se transformar em estado permanente. Nesta semana, conversando a respeito, o deputado Eduardo Paes, futuro secretário-geral do PSDB, sob a presidência de Tasso Jereissati, comentava as declarações provocativas do presidente do PT, Ricardo Berzoini: "Ele é um verdadeiro espetáculo, é meu ídolo. Francamente, como oposicionistas somos uma negação. Se dependesse de nós, Lula poderia até sonhar em ficar no poder eternamente", dizia, não sem um quê de propositado exagero. Mas, não obstante a caricatura desenhada pelo tucano, o cenário não deixa de guardar relação com a realidade. O governo, muito provavelmente em virtude do treino de quem foi oposição a vida toda, e oposição aguerrida, não compreende que poderia explorar essa característica da oposição para se fortalecer em momentos difíceis. Claro, os governistas podem argumentar que PFL e PSDB foram duros na crise. Mas, se a gente observar bem, não houve um único episódio relevante desde a posse de Lula em que a iniciativa da denúncia ou da subida de tom tenha sido da oposição. Ela apenas aproveitou as oportunidades criadas pelo adversário. De ação concreta mesmo até hoje só partiu do PSDB a denúncia de que o então vice-presidente da CPI da Compra de Votos, o petista Paulo Pimenta, se encontrou na garagem da Câmara com Marcos Valério para obter dele uma lista suspeitíssima sobre possíveis sacadores da conta do Banco Rural no Shopping Brasília. Ainda assim, a oposição deixou a situação por menos. O deputado renunciou à função na CPI, mas não foi objeto sequer de uma reclamação formal. E assim ocorreu também de outras vezes. O recuo oposicionista mais lamentado como arrependimento atroz foi a decisão tomada numa reunião entre PSDB e PFL logo após o depoimento de Duda Mendonça confessando ter recebido pagamentos por meio de contas no exterior. Duda falou à CPI numa quinta-feira e na segunda tucanos e pefelista proibiram as respectivas bancadas de falar na hipótese de responsabilizar o presidente Lula por crime eleitoral ou qualquer outro. Esse tipo de atitude, se bem administrada, poderia ter rendido ao governo muito mais vantagens do que uma razoável retomada de fôlego pelo período de mais ou menos um mês. Mas o Planalto mais uma vez deu sorte. Foi ajudado pelo imponderável que pôs no caminho da oposição a denúncia de corrupção contra o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. O imperativo de tirá-lo do cargo proporcionou ao governo a oportunidade de retomar a presidência e deixou a crise durante semanas só na Câmara. Recuperado o posto para Aldo Rebelo, o que faz o PT? Age como se a vida estivesse ganha e parte para cima da oposição como se a vitória por 15 suadíssimos votos não tivesse mostrado a fragilidade de sua maioria e o crescimento da minoria já quase para a condição de igualdade numérica. "Ali o governo cresceu o pescoço e, para ser sincero, eu achei ótimo, porque nos deu oportunidade de reaglutinar as forças perdidas com aquele equívoco cometido logo após o depoimento do Duda Mendonça", diz o deputado pefelista ACM Neto, corroborando a constatação de que, em matéria de combate aos ocupantes do poder constituído, o governo vem se saindo muito melhor que a oposição. Piada de salão Delúbio Soares tinha razão quando detectou aspectos anedóticos na crise. Segundo ele disse na festa de seu aniversário, em meados de outubro, daqui a uns quatro ou cinco anos as acusações que envolvem o PT seriam "esclarecidas, esquecidas" e acabariam virando "piada de salão". Delúbio só errou no tempo e no alvo da desmoralização. Muito antes do prazo previsto - não demorou dez dias - de fato desmilingüiu-se uma versão. Por arte do destino, acabou virando anedota justamente a história sustentada por ele, seus companheiros de partido, de governo e por todos os operadores mais próximos do esquema agora caracterizado como de corrupção.
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