Não inovou - a não ser pela desfaçatez travestida de franqueza - ao tratar a prática do caixa 2 com a naturalidade dos justos. Seguiu a trilha de antecessores na abordagem do tema e, como eles, socializou o prejuízo com os colegas de profissão, generalizando a tudo e a todos a autoria do mesmo crime.
Avançou, porém, no tocante a uma prática denunciada lá no início por Roberto Jefferson, mas depois deixada à margem das investigações: o uso do cargo público por indicação política para arrecadar dinheiro com a finalidade de saldar dívidas passadas ou fazer caixa para campanhas futuras.
Anderson Adauto disse o seguinte, a título de justificativa por ter recorrido a Delúbio Soares em busca de recursos: "Eu sabia que poderia resolver as dívidas com os fornecedores do ministério, mas preferi procurar o tesoureiro."
Em meio à profusão de ilícitos revelados a todo instante, a declaração não causou maior escândalo, talvez devido à insensibilização geral dos espíritos frente ao volume de barbaridades em cartaz.
De resto, comportaram-se todos como se não tivesse havido ali, no mínimo, um indicativo de prova testemunhal capaz de esclarecer o que se passa nos escaninhos da administração federal.
Se Anderson Adauto como ministro "sabia" que teria perfeitas condições de usar o posto para desviar parte dos contratos de prestação de serviços em proveito próprio, estava, portanto, informando à CPI que o crime é recorrente, faz parte dos usos e costumes, é praticamente uma prerrogativa de um titular de pasta ministerial.
Confirmou o que se supunha, mas nunca havia sido dito assim, com todos os efes e erres.
Ministrada a lição, mestre Adauto saiu dali ileso, posando de vestal por ter aberto mão de tão líquido direito de desviar dinheiro público e ter procurado o tesoureiro de um outro partido para cobrar dele recursos cuja origem, disse, pouco se lhe dava conferir.
Fosse dinheiro sujo ou limpo, não era problema dele. Da mesma forma, não lhe pareceu nada extraordinário - e pelo jeito à CPI também não - o fato de um partido transferir dinheiro a outro, como se fosse agora naturalíssima a prática do caixa único suprapartidário, a partir do qual uma legenda-mãe sustenta outras que, em troca, se mantêm sob sua esfera de influência política e funcional.
Pode-se até não se dar a isso o nome de mensalão, mas trata-se assumidamente de um compromisso comercial, um contrato de compra e venda cuja condenação pública mediante punição severa teria mais efeito sobre a correção de condutas do que qualquer mudança na legislação.
Mas a suas excelências é mais conveniente atribuir iniqüidades à ausência de reforma política do que imprimir moto próprio um certo grau de pudor às faces.
Duas canoas
O presidente da República não dirime dúvidas nem confere transparência à própria posição mandando sua assessoria divulgar seu "pedido" para que os ministros Antonio Palocci e Dilma Rousseff evitem divergir em público.
Primeiro, porque o ministro da Fazenda não está em conflito aberto com ninguém. Dele não se ouviu palavra a respeito das considerações feitas pela chefe da Casa Civil sobre seus planos de ajuste fiscal de longo prazo.
Segundo, ao se abster de arbitrar a questão com nitidez, Lula firma a convicção de que alimenta o contraditório interno para ficar nem com os defensores da visão expressa pela ministra nem com os adeptos da posição do ministro.
Não haveria diferença da atitude que vem assumindo desde o início do governo - ao aceitar de bom grado que o então ministro José Dirceu e o vice-presidente José Alencar bombardeassem Palocci implícita e explicitamente - se neste momento o ministro da Fazenda não estivesse enfrentando acusações no terreno dos ilícitos.
A suposta neutralidade de Lula, nesse quadro, resulta em enfraquecimento de Palocci. No lugar de reagir de imediato, Lula deixou para fazer um pronunciamento de apoio a ele "nos próximos dias".
Ou seja, preserva-se para o caso de as denúncias de corrupção tornarem insustentável a permanência do ministro. No momento é isso que está em jogo e não quaisquer possibilidades de alterações no rumo da economia.
Não por falta de vontade, mas por ausência de competência para sustentar a ousadia de fazê-lo.
Estréia petista
Nesta semana sai o primeiro relatório parcial da CPI dos Correios de autoria de um parlamentar governista.
O sub-relator para licitações e contratos, José Eduardo Cardozo, do PT, vai mostrar um mapa das infrações ocorrida nos Correios, incluindo contratos superfaturados, licitações irregulares e condomínios entre empresas privadas para obter contratos e dividir entre si a prestação de serviços.
O relatório citará diretores dos Correios não apenas da atual gestão, mas também do governo Fernando Henrique.