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Presidente só faz questão de ter a iniciativa da decisão e não
aceitará imposições De tanto falar uma coisa e fazer outra, o
presidente Luiz Inácio da Silva acabou nos acostumando a não levar ao
pé da letra o que diz. Às vezes, porém, convém acreditar em sua
excelência.
É o caso da possibilidade de Lula não se candidatar à reeleição,
várias vezes explicitada por ele e de novo repetida na entrevista de
segunda-feira, mas imediata e prontamente acreditada em seu sentido
contrário.
O presidente não apenas leva a hipótese a sério, como pensa nela desde
o início do governo. Com a crise, evidentemente, o assunto ganhou
força ao ponto de Lula já ter discutido isso com mais de um ministro e
em rodas não muito fechadas sob a ótica da opção melhor para sua
biografia.
Auxiliares de primeiro escalão preferem não apostar ainda nem na
manutenção nem na desistência da candidatura e alertam que conviria, a
quem pretende acompanhar de perto o processo eleitoral, não descartar
nenhum dos dois caminhos.
Lula já discutiu inclusive um cenário em que o PT não teria candidato
e ele daria apoio ao ministro Ciro Gomes, do PSB. O problema aí seria
o PT, que dificilmente aceitaria abrir mão de disputar com candidatura
própria, sustentando nomes como Aloizio Mercadante ou Tarso Genro.
Não desagrada ao presidente, no entanto, o fato de uma possível
desistência ser recebida com incredulidade. Isso significa que há
reconhecimento de sua força política e contribui também para manter
acesa a chama da expectativa de sua continuidade no poder.
Lula pode até vir a não disputar uma reeleição, se ela for uma batalha
realmente perdida. Mas daí a dizer que o presidente da República
aceita de bom grado sair do jogo desde já vai uma distância enorme.
Diversos fatores pesarão na decisão de Lula. Dois ele mesmo antecipou
de público: apoio popular consistente e formação de aliança partidária
ampla o bastante para lhe dar condições mínimas de disputar bem e
governar com maioria depois.
Outro dado a ser levado em conta por ele são os movimentos da
oposição. No auge da crise, há três meses, Lula manifestava forte
tendência a não se candidatar, mas mudou de posição em virtude de um
artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lhe dando conselhos
para abrir mão da reeleição.
Mesmo correndo o risco de fazer o jogo do inimigo, Lula está disposto
a ir em frente e disputar, se a oposição fizer pouco das suas chances
de vitória, pesando a mão no discurso de que ele não deve se
candidatar.
O presidente quer ter a prerrogativa de, se for o caso, desistir por
iniciativa própria e não fazê-lo como resultado de um imperativo posto
pelos adversários.
De um modo ou de outro, só dará sua palavra fina no prazo já anunciado
de abril de 2006.
Liberdade geral
Os partidos, em sua maioria interessados em ficar livres para fazer as
alianças eleitorais que bem entenderem no próximo ano, não desistiram
de derrubar a regra segundo a qual as coligações locais devem
acompanhar os acertos partidários feitos no âmbito nacional.
O fim da chamada verticalização está sendo articulado na Câmara para a
semana que vem, com feriado e tudo. A idéia é votar emenda
constitucional retirando o caráter nacional dos partidos - item da
Constituição que sustenta a norma da uniformidade das alianças - na
próxima sexta-feira.
O assunto é de interesse primordial dos políticos, mas, para dar uma
satisfação à opinião pública, os deputados querem votar antes uma
alteração no regimento interno da Câmara para restringir a prática do
troca-troca entre partidos.
Dois gumes
De um modo geral, governistas e oposicionistas concordam que, do ponto
de vista das investigações, a CPI dos Correios teria mesmo de ser
prorrogada, porque há ainda muito a ser apurado.
Sob o aspecto político, entretanto, há divergências principalmente
quanto aos prejuízos que a extensão dos trabalhos até abril podem
render ao governo.
À primeira vista a desvantagem parece estar do lado do Palácio do
Planalto. Mas há avaliações de que o PT, no fundo do poço, nada mais
teria a perder a não ser a consolidação de seu desgaste.
Já a oposição, notadamente o PSDB, correria o risco de assumir o posto
de bola da vez daqui em diante, em virtude do aprofundamento das
investigações sobre a amplitude do esquema Marcos Valério no tempo e
no espaço.
Portanto, no balanço de perdas e ganhos, por esse raciocínio o PSDB
poderia não vir a auferir só vantagens eleitorais da prorrogação.
Virada
Impressiona a desenvoltura com que governistas de primeiríssimo
escalão passaram nos últimos dias a abordar os constrangimentos
enfrentados pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci.
Deixou definitivamente de ser tabu considerar a possibilidade da saída
de Palocci do ministério por causa das denúncias de corrupção na
prefeitura de Ribeirão Preto.