A Pareceu-lhe justíssimo libertar imediatamente aquele septuagenário de olhar abobalhado, barba por fazer, saúde frágil e murmurando maluquices numa cadeira de rodas. "Ele parece muito doente", apiedou-se Velloso. "Eu imagino o sofrimento de um pai preso na mesma cela com o filho". Referia-se a Flávio, primogênito de Paulo, companheiros de cárcere e quadrilha.
O coração do ministro Velloso já batera em descompasso antes mesmo do julgamento, ao reencontrar o advogado dos Maluf. Era o velho amigo José Roberto Batocchio, ex-presidente da OAB e ex-deputado federal. Quem cultiva algum apreço pela liturgia do cargo achou excessiva a troca de cumprimentos entre a toga e a beca. E deduziu que o destino dos Maluf fora selado naquele momento. O ministro certamente não iria decepcionar o advogado. Amigos estão aí para isso, sopraram artérias e ventrículos. No dia 20 de outubro, por decisão de Velloso, Maluf saiu da cadeia.
O filho saiu junto. Velloso decerto se comoveu com a contemplação da dupla libertada. Maluf deixou a carceragem da Polícia Federal mancando, apoiado no braço de Flávio. Mantinha a barba de dois dias, o olhar apalermado e os cabelos sem tintura. Não tirara a fantasia.
Derrapou no script só uma vez, ao decolar todo faceiro no carro que o levaria ao hospital. Mas pousou já na cadeira de rodas. Ao ouvir a pergunta de um repórter, agarrou a mão da mulher, Sílvia, como criança assustada. Parecia recém-chegado ao orfanato. Grande doutor Paulo.
Dez dias longe de cela e comida da cadeia ("Eu não daria uma coisa dessas nem para o meu cachorro", queixara-se) bastaram para a restauração da figura que o Brasil conhece. Em 31 de outubro, o Maluf velho de guerra reapareceu num shopping de Campos do Jordão, a 200 quilômetros de São Paulo. Escoltado por agentes de segurança, falava em voz alta, gesticulava bastante, sorria muito, distribuía tapinhas nas costas ou apertos de mão entre a freguesia.
"Ele parece bem disposto, foi muito simpático", comentou uma cliente. Maluf está muito bem. Bebeu chope e comeu pastéis com amigos. Num quiosque, comprou chocolate com conhaque, com licor de menta, com trufas e branco puro. Na fila do caixa, puxou conversa com uma mulher e ofereceu-se para pagar-lhe a conta. Ela aceitou. Maluf presenteou- a com R$ 30, equivalentes a US$ 12. Poderá descontá-los dos US$ 160 milhões que comprovadamente desviou para o exterior.
O ministro Carlos Velloso merece sentir-se feliz: descobriu que emite sentenças capazes de produzir milagres. Com uma canetada, por exemplo, conseguiu curar Maluf de todos os males e tristezas. Como o homem lhe deve essa, Velloso poderia agora pedir- lhe que devolva o dinheiro tungado dos brasileiros. Os dois ficariam melhor no retrato.
Parabéns, conselheiros. Parabéns, Goiás
O deputado Sandro Mabel, do PFL goiano, foi o primeiro a escapar da guilhotina sem usar o truque da renúncia. Sentou-se no banco dos réus quando Roberto Jefferson o acusou de ter tentado subornar a deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO). Se mudasse de partido, ela receberia o mensalão e R$ 1 milhão de adiantamento.
A história fora relatada ao governador Marcone Perillo por Raquel, que a repetiu no depoimento ao Conselho de Ética e na acareação com Mabel. O acusado negou tudo. Chorou mais ainda. Por que Raquel haveria de inventar aquilo, isso não soube explicar. Acabou absolvido "por falta de provas". Por unanimidade.
Quer dizer que Raquel será processada por conduta indecorosa? Nada disso, informam os conselheiros. Foi impossível provar que não mentiu. Mas não é possível provar que mentiu. Mabel declarou- se feliz com o resgate da honra. Parabéns, deputado. Mas perdeu a chance de candidatar-se a governador. Parabéns, Goiás.
Embora ache o título pouco inventivo, o Cabôco impressionou-se ao saber que Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, é chamada de "Dama de Ferro" pelos vizinhos do Planalto. Já que a ministra está bem no retrato, quer saber o que houve com o "choque de gestão" anunciado em junho. Dos mais de 20 mil companheiros em cargos de confiança, algum já perdeu o emprego?
O advogado de luxo
O doutor Eros Roberto Grau, ministro do Supremo Tribunal Federal, deveria já no começo da história ter-se declarado sob suspeição e passado adiante o caso do deputado José Dirceu. Indicado pelo presidente Lula, só chegou ao STF por ser amigo de Dirceu. O ainda chefe da Casa Civil ornamentou a posse de Eros em 30 de junho de 2004.
Era um motivo e tanto para afastar-se da história. Mas o ministro preferiu agarrar-se à papelada, trocou a toga pela beca e virou advogado de luxo do réu. Tornou-se um exemplo de gratidão. E também um julgador suspeitíssimo.
Primeiro, juntou-se ao trio liderado por Nelson Jobim que tentou arquivar o processo. Alegação: deputado que peca fora da Câmara não pode ser cassado. Depois, Eros invalidou o parecer do deputado Júlio Delgado. Alegação: o relatório (aprovado por 13 a 1) incluíra provas colhidas pela CPI.
Delgado refez o parecer, Eros repetiu o veto. Alegação: queria tudo reescrito. A amputação das provas proibidas não bastara. O professor Eros agora decidirá se o aluno passou de ano. Aos 65 anos, merecia ser interditado. Motivo: molecagem.
Leitor indica o novo campeão
O leitor Edgar Carvalho propôs que o troféu da semana contemplasse o filósofo italiano Antonio Negri, pela seguinte frase:
"O PT pode ser corrupto, mas é aberto aos movimentos sociais".
O júri do Yolhesman aprovou a indicação por unanimidade. E sugere a Negri uns dias de repouso.
Duda atirou no pé
Preso numa rinha de galo de briga, o cidadão José Eduardo Mendonça incorporou o superpublicitário Duda Mendonça e peitou a Polícia Federal. Passou a noite na cadeia, mas logo veio a vingança.
Os responsáveis pela afronta ao Amigo do Homem foram removidos para longe do Rio. Bastara uma conversa com o ministro Márcio Thomaz Bastos. Agora sob o cerco das investigações sobre crimes federais, José Eduardo anda pensando muito em Márcio. Mas o superpublicitário está em recesso.
Em 11 de agosto, numa espetaculosa aparição na CPI dos Correios, Duda revelou que fora obrigado a abrir uma conta bancária nas Bahamas para receber mais de US$ 10 milhões que o PT lhe devia. Envolveu a campanha de Lula numa nuvem perigosamente escura.
Foi um tiro no pé. Perdeu o posto de marqueteiro oficial (e o acesso ao poder). Pior: nas CPIs, a dinheirama em dólares de Duda é a bola da vez. Duda busca na Bolívia as contas aqui perdidas. Por falta de serviço, começou a demitir funcionários.
América em transe
Desinformado profissional, o presidente George W. Bush viajou na hora errada para o lugar errado. A América do Sul será sempre inverossímil. Mas nenhum profeta surrealista poderia supor que, no começo do Terceiro Milênio, boa parte do subcontinente estaria festejando a grande virada para o século 19.
Esses surtos são perigosamente divertidos. O orfanato esquerdista é agora orientado por uma suposta reencarnação de Simón Bolivar. Chama-se Hugo Chávez, tem muitos petrodólares nas mãos e, na cabeça, idéias de jerico.
Há pouco, propôs um acordo nuclear entre a Venezuela, a Argentina e o Brasil. Uma bomba atômica produzida pela trinca seria tão devastadora quanto um busca-pé de São João, mas Chávez já começou a falar grosso. Na Argentina se uniu à multidão para provocar Bush aos gritos de "Alcarajo".
Foi apoiado por Diego Maradona, que prometeu a Fidel Castro, e cumpriu, liderar protestos de rua contra Bush. O dono de Cuba retribuiu o presente: quer construir em Havana um monumento a Maradona.
Gabriel García Márquez comparecerá à inauguração.