| PRIMEIRA LEITURA |
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| Ando preocupado com Marilena Chaui, a notória professora de filosofia da USP. Acho que, como se diz por aí, ela anda batendo biela. E, antes que entre em pane, sugiro que seja tombada pelo Patrimônio Histórico. Vamos criar pra ela um pavilhão na USP — uma tenda já estaria de bom tamanho —, onde ficaria exposta à visitação pública como exemplo do stalinismo tardio. Depois de ela ter percorrido os relevos mais acidentados de Espinosa, dos frankfurtianos, dos biscoitos mais finos do que aquela gororoba ideológica que era tradicionalmente servida pelo comunismo, a filósofa decidiu ser, enfim, uma mulher simples, com pensamento simplório. Aliás, com pena própria, sem glosar ninguém, ela nunca passou disso. Um certo anarquismo larvar, que esteve subjacente a seu texto, era nada mais do que a contaminação de seus escritos pelo espírito do tempo. Os anos 1980, pós-ditadura, assistiram a um, como vou dizer?, arreganho de sensibilidades divergentes. Marilena as abraçava. Mas o seu projeto, bem entendido, era e sempre foi o stalinismo vulgar. Foi preciso que a democracia plena chegasse, contra a vontade e os esforços do PT, para que ele brotasse inteiro. Daí, então, a necessidade do tombamento. Essa mulher já é um documento histórico. Estou entre aqueles que defendem que a múmia de Lênin continue exposta como símbolo de um período e que o pensamento mumificado de Marilena ganhe a sua tenda. Não vamos cobrar ingresso. A dose de sacrifício será ouvi-la. "Tenda da Madame Chaui. Entrada Franca. Se você conseguir". Por que escrevo isso? Leio na Folha que a mulher concedeu uma palestra no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo — reparem que ela está começando a caminhar para os arrabaldes da militância — e voltou a denunciar a conspiração da imprensa, que comparou à Inquisição. Madame acha a Inquisição, que matou ao longo de alguns séculos, pouco mais de mil pessoas, uma coisa muito feia. Ela gosta do comunismo. Que precisou de apenas algumas décadas para matar uns 200 milhões. Afinal, ela é uma especialista em ética. Grande pensadora! Marilena citou um certo texto de uma jornalista que revelaria como essa trama contra o governo Lula estaria sendo urdida. Fiquei curioso. Tentei saber do que se tratava. Não tinha a menor idéia. Só leio a literatura de esquerda de Gramsci para trás porque preservo meu tempo das palavras de energúmenos — só não tiro o revólver quando falam em Chomsky porque sou contra armas. Liliana Pinheiro, a redatora-chefe do site, tirou a minha dúvida. Enviou-me um texto intitulado "Como se constroem as notícias", de autoria de Marina Amaral, que é editora-executiva da Caros Amigos, uma revista de esquerda. Ele está reproduzido também no site Observatório da Imprensa e foi comentado por Chaui, a tombada, no programa homônimo de TV, comandado por Alberto Dines, transmitido pela Cultura. É um texto que merece ser lido (clique aqui) por várias razões. Antes que o comente diretamente, algumas observações. Precisamos achar, nem que seja por autodefesa, que o mundo faz sentido. Independentemente de nossas crenças, de nossa fé. A religião responde, por exemplo, a uma necessidade e a um desejo de ordenamento do mundo. Os grandes sistemas têm de oferecer respostas críveis, verossímeis — olhem a palavra aqui de novo — para nos tirar no isolamento e da perplexidade. Por isso o fascismo seduziu tanta gente. Por isso o comunismo seduziu tanta gente. Ambos tomaram o lugar que estaria reservado à religião. Se Deus ou o mistério da criação já não podem responder às nossas angústias, algo há de fazê-lo. Avanço um pouco aqui. Pensemos na tal "dialética". Sugiro, um dia, que vocês peçam a um comunista desses de quatro costados, alfabetizados (cada vez mais raros, mas os há ainda), que tente lhes explicar o que é a dita-cuja. Ele não sabe. É o mistério. Ninguém entendeu até hoje. A "dialética" é a "eucaristia" de um comunista. Por meio dela, os fatos históricos, mesmos os mais inexplicados, acidentais, inscrevem-se numa trajetória de previsibilidade. A esquerda, afinal, precisa acreditar em alguma coisa. O fatalismo histórico é o seu mistério. E ele sempre se realiza, nem que seja pelo contrário: afinal, sabem?, trata-se dessa tal dialética... Leiam o texto de Marina. Segundo seu relato, ela chegou àquele que seria o "centro" da conspiração antilulista. E Marilena, claro, comprou a sua versão. Quase tenho preguiça de lembrar aqui que Umberto Eco já criticava a esquerda na década de 70 (!) porque ela supunha que o "Estado burguês" tinha um "centro". Marina conta o seu encontro com um sujeito — a fonte foi mantida prudentemente em off — que parece ser um misto de lobista e jornalista, cuja tarefa seria plantar informações/boatos contra o governo Lula. Sua rede de interlocutores seria, numa ponta, gente interessada em depor o presidente e, na outra, jornalistas mancomunados com esse intento, ainda que não quisessem. E isso explicaria, depreende-se, o atual estágio das coisas. No longo texto, que vocês podem ler, não há um fato em particular sendo relatado. Não se antecipa nenhuma denúncia que tenha vindo a público posteriormente. Como um bom "Garganta Profunda", este também tem de se manter na obscuridade. Como não há fatos a cotejar com a "reportagem" para conferirmos a seriedade da fonte, a gente é obrigado a acreditar na jornalista. Ok, vá lá, acredito. Bem entendido: dou de barato que alguém lhe contou aquelas coisas todas, que ela não as tenha inventado. A exemplo dos Protocolos, há um permanente clima de mistério, trama e personagens se movendo nas sombras. A exemplo dos Protocolos, quando sua "fonte" ataca mais duramente o PT, é justamente quando faz a sua defesa mais candente. Naquele texto anti-semita, um "judeu" revela mazelas da sociedade que, no fim das contas, são reais. Mas ele o faz não porque queira um mundo melhor, e sim porque quer dominá-lo. Marina deve ter-se encontrado com algum Napoleão de hospício. A outra hipótese é que seja algum agente do PT se passando por lobista para, ao falar mal do partido, cantar as suas glórias. Mas Por que alguém faria isso com Marina? Reparem no trecho que segue. Diz a personagem secreta para a nossa repórter investigativa: "Você pode não acreditar, mas, mesmo sendo de direita, defendo a necessidade de existir um partido de esquerda, um partido que esteja fora do esquema, como era o PT antes de assumir o governo. Claro, o PT roubou muito menos do que os outros governos. Em uma única jogada, o governo Fernando Henrique ganhou três vezes mais, comprando ações lá fora da Petrobras, por exemplo, dias antes de comunicar ao mercado a exploração de mais um campo de petróleo, vendendo os papéis logo depois de fazer o anúncio oficial da descoberta, o que triplicou o valor das ações. Cada notícia de que uma estatal seria privatizada era precedida da mesma operação: o Sérgio Motta anunciava que a empresa seria leiloada, as ações subiam vertiginosamente, e eles vendiam no primeiro dia da alta. Nada de tentar ganhar mais e se arriscar ao flagrante. Os caras sabiam o que faziam." Vê-se que Marina não entende nada do funcionamento de Bolsas ou teria desmoralizado a história de sua fonte. O conhecimento do Garganta Profunda do mercado de ações se equipara ao de um asno. Marina não tem culpa de seu lobista ser uma besta, é claro. Quem seria, por exemplo, o sujeito doverbo "comprando"? Quem comprava ações? O governo? O tucanato? Já que a fonte de Marina fala em off, por que não revela ao menos alguns nomes? Nada! Ninguém! O relato é de tal sorte boçal, que os ditos ladrões, para esconder sua roubalheira, compravam ações um pouco antes do anúncio dos "campos" (sic) de petróleo e as vendiam um pouco depois. Isso porque eles não queriam que ninguém soubesse de nada... Santo Deus! É de chorar! Não existe anúncio de "campo" de petróleo. O que existe é a confirmação de uma reserva. Um processo que costuma ser demorado, que jamais colhe o mercado de surpresa. O cretino não sabe o que fala. E Marina lhe dá voz, vê-se, sem ter a menor idéia do que está reproduzindo. Ou ela muda de fonte ou não vai aprender nada nem sobre as Bolsas. A história dos leilões anunciados por Sérgio Motta, então, são de rolar de rir. Imaginem se chegou a haver coisas como: "Bom, pessoal, amanhã a gente leiloa a Telebrás!" Foi, como sabem, uma batalha longa, cheia de dificuldades e entraves legais. Ademais, Marina, quantas foram as "empresas leiloadas" por Sérgio Motta? Acho impressionante que a editora executiva de uma publicação publique um troço desses sem nem sequer recorrer ao arquivo. Motta foi ministro das Comunicações de FHC e morreu antes da privatização da Telebrás. De todo modo, a editora-executiva da Caros Amigos julgou estar falando com um homem muito sábio e influente, num bairro "de elite", com "quadros verdadeiros" na parede. Curiosidade: viu o certificado? Eu não acreditaria nesse cara... E Madame Marilena achou o máximo. Não sei se o Observatório da Imprensa também gostou. O texto está lá reproduzido. Talvez só tenha querido abrir o debate... Mas vamos voltar ao lobista antigoverno. Num outro rasgo de "hostilidade" ao partido, ele diz, prestem atenção: "(...)o PT não sabe nem pode roubar. A esquerda tem de ser franciscana, não pode se corromper, tem que fazer como os partidos comunistas europeus, administrar as prefeituras e ser oposição em âmbito federal. Quem quer ser governo tem de conhecer o esquema, ter aliados reais, cúmplice de muitos negócios. O PT não sabe nem como operar: imagine esse Delúbio, que é um caipirão goiano, um sindicalista militante do PT, e esse outro Silvinho, que não consegue nem falar português decentemente, operando esquema! Isso aí é coisa pra quem sabe, pra Sarney, ACM, Sérgio Motta. Estava na cara que eles iam ser apanhados." Não é mesmo comovente? Pobre PT! Os rapazes tão despreparados para a lambança! Nem roubar eles sabem! O maior esquema de corrupção da história da República, que deve ter movimentado, por baixo, uns R$ 3 bilhões, como a gente vê, foi coisa feita por um "caipirão goiano" e pelo "Silvinho (Land Rover) que nem fala português direito". Em suma, são, em vez de protagonistas da maracutaia, como diria aquele, vitimas de gente má como este lobista com o qual Marina topou. Ele é de direita Marina, como a gente intui, não é, claro, de direita. Ou não seria a editora-executiva na principal publicação de esquerda do país. Cada esquerda tem a New Left Review que merece. A nossa merece a Caros Amigos. Não sei se Marina perguntou por que razão a sua fonte, "de direita", empenhada em "depor Lula", lhe contaria os bastidores de suas ações sórdidas. Afinal, quero crer, se alguém desse bola — Marina, eu e Marilena Chauí estamos fazendo a fama da "reportagem" — à denúncia, creio que o objetivo tanto ideológico como, vá lá, funcional de nosso "Garganta Profunda" estaria prejudicado. Por que ele se revelaria à repórter. Vaidade? Mas que vaidade é essa que faz questão de se manter nas sombras? Que "vaidade" é essa que prefere falar a uma publicação quase clandestina em vez de, sei lá, à revista Veja? Ah, sei, a Veja também está envolvida na conspiração... Também terei o meu "Garganta Profunda" na esquerda. Ele vai me contar tudo. Num outro trecho de sua matéria investigativa, Marina escreve: "Cito o nome de um repórter, apontado como "contratado" de um grande grupo privado para plantar matérias do interesse do cliente na revista em que trabalha, cujo dono também é acusado de vender matérias de capa a empresários em dificuldades. Acrescento que há conversas gravadas e e-mails por trás das denúncias publicadas por outra revista semanal, essa fora de seu círculo de relações. Ele afirma ser amigo de ambos os denunciados e acrescenta, irônico: "Foi nessa revista que saiu? Então não faz mal. Essa ninguém lê". Ele sentencia isso, embora a tiragem de ambas as revistas – denunciada e denunciante – seja praticamente a mesma." E, por falar em decência... De resto, se eu quisesse, seria fácil opor à conspiração denunciada por Marina a "contraconspiração", que seria conspiração também. A já aludida Carta Capital, por exemplo, está nas bancas com uma matéria de capa (clique aqui para ler um trecho) em que denuncia um esquema envolvendo Marcos Valério e o governo FHC. É coisa antiga, que está sob investigação na Justiça, à espera de provas. Por critérios editoriais que não debato — cada um tem o seu; a Carta é que, certa feita, resolveu questionar os de Primeira Leitura —, a revista achou isso mais importante do que, por exemplo, as evidências de que dinheiro do BB irrigou o valerioduto. Cada um na sua. Carta Capital, que eu saiba, chegou às bancas neste sábado, dia 5 de novembro — a matéria estava na Internet desde sexta à noite, 4. No mesmo dia, no site do Diário do Grande ABC (Clique aqui) , estava publicada denúncia idêntica. O Diário é o jornal de Ronan Maria Pinto, uma das personagens de destaque investigadas pelo Ministério Público sob acusação de participar de um propinoduto em Santo André. Segundo ainda o MP, o tal propinoduto está na origem da morte do prefeito Celso Daniel. Não é por causa disso que devo ler com suspeição a matéria de Carta Capital, certo, Marina? Ou será que devo? Não é por isso que vou sair por aí a sugerir que a Carta Capital e o jornal do Ronan decidiram publicar a mesma denúncia porque, mancomunados, estariam empenhados em defender o governo Lula, atacando, com denúncia requentada, o governo FHC. Não. Acho que ambos têm a seriedade jornalística que conseguem ter. Se alguém vier me contar que uma mesma fonte pautou os dois veículos, não atribuirei a tal informação a menor importância. Os lobistas tentam mesmo pautar a imprensa. Cabe a cada veículo filtrar o que presta e o que não presta. Já houve tentativas de fazer um jornalismo que só interessava ao "povo". Em Cuba, ainda existe tal modalidade. Chávez tenta implementá-lo na Venezuela. Na matéria de Marina, senti falta de uma avaliação sobre a qualidade das acusações contra o governo Lula. Afinal, elas estão ou não se provando? Afinal, havia ou não corrupção nas estatais? Havia ou não um esquema com Marcos Valério? Havia ou não pagamento irregular a Parlamentares? Lendo o texto, entendi que há muitos homens maus que agem contra o PT. Só não entendi se, segundo Marina, isso torna o partido uma coisa boa e pura por definição. Mas também não estou interessado em saber. Acho, reitero, que ela gastou papel dando asas a um Napoleão de hospício. De todo modo, já temos os "Protocolos dos Sábios Tucanões" com o roteiro para depor o governo popular. Marina o encontrou. E a gente tem de admitir uma coisa: se existem mesmo esses "conspiradores", seus maiores aliados são os petistas e suas lambanças, né, Marina. A coisa boa da democracia é que existem publicações como Caros Amigos, Carta Capital e o jornal do Ronan Maria Pinto que podem armar a resistência. Se o PT já tivesse conquistado tudo o que almeja, só seria permitido conspirar a favor. |
Entrevista:O Estado inteligente
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domingo, novembro 06, 2005
Da conspiração ou por que quero tombar Marilena Chaui Por Reinaldo Azevedo
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