O líder sindicalista só permitia o ingresso no clube dos amigos íntimos de quem usasse macacão de metalúrgico, mandava bala em qualquer terno que se movesse e jurava que 999 em cada mil políticos brasileiros eram fortíssimos candidatos a temporadas na cadeia (a solitária exceção deveria ser mantida sob estreita vigilância). O líder político aprendeu a combinar o paletó com a gravata, e abriu as portas do clube dos íntimos a quem topasse exorcizar a ascendência burguesa com uma estrelinha vermelha no peito. Só haveria esperança de salvação, advertia o inventor do PT, para os militantes da sigla contemplada ainda no berço com o monopólio da ética.
O deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 1986 com a maior votação da história, negava aos brasileiros que existiam além das fronteiras do partido o direito de sonhar com a viagem que levava ao céu companheiro. Quem não era petista era inimigo do povo, quem votava em candidatos adversários era comparsa de bandidos fantasiados de pais da pátria. Se o país fosse sério, rugia o Lula dos anos 80, estariam todos numa prisão de segurança máxima.
As celas hospedariam tanto os integrantes da bancada dos picaretas ("uns 300", recenseara pouco depois do desembarque no Congresso) quanto o presidente José Sarney. "Ademar de Barros e Paulo Maluf poderiam ser ladrão, mas eles eram trombadinhas perto do grande ladrão que é o governante da Nova República, perto dos assaltos que faz", garantiu em setembro de 1987, num improviso em Aracaju, o exterminador de inimigos e plurais.
O presidente Lula também trata o s a socos e pontapés, mas o extermínio de adversários foi interrompido pela vitória nas eleições de 2002. Não há inimigos tão inimigos que não possam tornar-se amigos, repetia Getúlio Vargas quando instado a explicar a consumação de alguma aliança implausível. Amigos de infância, sugere a multidão de sócios recentes do clube freqüentado pelos íntimos do presidente redesenhado pela metamorfose ambulante. O senador José Sarney sempre aparece por lá. É recebido com demonstrações de afeto que deixariam perplexo o alvo do improviso de Aracaju.
Em 1987, "o impostor que chegou à Presidência depois de assaltar o poder" foi acusado por Lula de ter inventado canteiros de obras para ampliar a fortuna da família. "A ferrovia Norte–Sul só serve para isso", exemplificou o Lula do século passado. Seria desmentido pelo Lula do terceiro milênio. "Este projeto é importantíssimo para o desenvolvimento regional", corrigiu o chefe de governo na discurseira que festejou a retomada das obras da ferrovia. Sarney sorriu.
O presidente Lula consolou o ex-presidente pela amargura causada pelas acusações do deputado Lula. "Sei que, no início das obras, você foi alvo de inúmeras críticas", lembrou o orador com a placidez de quem nem havia nascido nos anos 80. "Juscelino Kubitschek era chamado de ladrão todo dia", Lula afagou Sarney, instalado desde o começo do primeiro mandato no mais vistoso andar da procissão formada por grandes satãs dos velhos tempos. Foram transferidos do inferno dos inimigos de morte para o céu dos amigos da vida inteira.
O cortejo inclui figuras que custaram a Lula incontáveis madrugadas insones (como o ex-presidente Fernando Collor e o senador Renan Calheiros), remanescentes do bloco dos 300 picaretas (o ex-deputado Severino Cavalcanti, por exemplo), vilões de carteirinha (caso do senador Romero Jucá e do deputado Paulo Maluf). Há lugar para todos na procissão companheira. Menos para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, claro.
O tiro no coração mostrou que Getúlio errara ao apostar na inexistência de inimigos irredutíveis. O Brasil de Lula é menos primitivo, a luta política já não é uma guerra. E é mais cafajeste: honra é coisa do século passado. Num país que perdeu a vergonha, não existem afrontas imperdoáveis. Não há limites para nada.