Entrevista:O Estado inteligente

sábado, janeiro 06, 2007

MILLÔR

Mas não há de ser nada. No fim o bandido morre. E o mocinho também. Toda a platéia. Só a bilheteira está lá, vendendo entrada prum espetáculo que já terminou.

Neste início do mundo

Eaqui estamos naquilo que há poucos dias desejávamos a todos os nossos parentes próximos, remotos, amigos e afins:

Um feliz 2007!

Pois é, estamos nele.

Já entramos no "ano entrante". Cinco dias adentro. Talvez sejamos apressados, mas já podemos fazer um pequeno balanço. Pra você, que vê todos os dias os jornais da televisão, o ano vai mal: assaltos, assassinatos, morticínios, carnificina mesmo, ônibus queimados, enchentes, aumentos gigantes do salário mínimo, vulcões, revoluções. Parece até 2006.

Mas por que sofrer com a vida coletiva, deixar que o Iraque te afete, que a Faixa de Gaza te entristeça, que a menina caída num poço em Taiwan te perturbe, estrague teu dia? Já não estraga o deles, pô?

Não, não é preciso esquecer o mundo. Já já eles te chamam de alienado. Mas é melhor desligar a televisão, se afastar do Jornal Nacional.

Você e eu, como a maior parte da humanidade, temos uma vida particular e devemos zelar por ela. Acordamos e a cabeça não dói. O telefone toca e não é o anúncio de nenhuma catástrofe pessoal.

Bem, são seis horas da manhã, hora oficial, cinco das horas antigas, aquelas de Greenwich. Antes que o mundo aflito me aflija, abro a minha janela sobre o mar. O sol, no Arpoador, começa a tingir o céu de vermelho, enquanto as montanhas no outro extremo mal surgem da escuridão. Há ilhas renascendo, há transatlânticos de luxo passando em sua calma soberba e traineiras balançando na faina de pescadores.

Tenho que prestar atenção pra não aceitar como rotina esse extraordinário espetáculo de todos os dias.

Mas o espetáculo de hoje supera todos os outros. As gaivotas, que desde que o mundo é mundo voam por aqui, continuam voando, longe das notícias. Há quinhentos anos os portugueses já notavam a ação poética dessas aves, cagando seu cálcio branco sobre uma das ilhas, e, sem medo das palavras, chamaram-na de Cagadas (está nos mapas). Que, 100 anos depois, o medo das palavras transformou em Cagarras.

Mas hoje, pela primeira vez em muitos anos de minha visão desta paisagem, pra começar esplendidamente o meu 2007, as gaivotas não voam em fila, nem em V, como sempre. Cada uma faz seu vôo solo, individual. Vêm brotando – a princípio invisíveis – do escuro das montanhas e enchem literalmente o espaço, quase um tapete, cobrindo todo o céu à minha frente.

Demais!
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