quarta-feira, agosto 16, 2006

Baleia encalhada? Merval Pereira O Globo

No jargão econômico, “baleias” são os países emergentes com economia de largo porte, com maior potencial de crescimento em um futuro de médio e longo prazos. Desses, os mais conhecidos formam a sigla BRIC, criada pela consultoria Goldman Sachs em 2003 para Brasil, Rússia, Índia e China. Segundo o estudo, em menos de 40 anos, os BRICs juntos poderão ser maiores que os países que formam hoje o G-6 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Inglaterra e Itália). Desses, apenas Estados Unidos e Japão estarão no G-6 em 2050, e os quatro BRICs poderão estar lá. Se tudo corresse como prevêem os analistas da Goldman Sachs, o Brasil seria a quinta economia do mundo, medida pelo Produto Interno Bruto.

O economista Cláudio Porto, diretor da empresa de consultoria Macroplan, especializada em estudos prospectivos, acompanha a evolução da economia brasileira e tem um diagnóstico realista: caso não supere os gargalos estruturais, o Brasil dificilmente consolidará sua posição junto a China, Índia e Rússia, nem tampouco se firmará entre as maiores economias do mundo.

“Brasil, baleia encalhada?” é o título sugestivo do mais recente estudo da Macroplan.

Os gargalos estruturais que tolhem nosso crescimento são conhecidos: impostos altos; juros elevados; infra-estrutura ruim; excesso de burocracia e de informalidade; legislação trabalhista obsoleta e gestão pública e fiscal de má qualidade. Segundo o estudo da Macroplan, o Brasil, que já foi a 8amaior economia mundial, vem perdendo espaço no ranking econômico ao longo dos últimos anos.

Hoje o país ocupa a 10aposição do ranking global do PIB, após passar os últimos dois anos na 12ae na 15acolocações, respectivamente.

Embora o estudo da Macroplan destaque que a economia mundial atravessa um período de prosperidade sem precedentes, com a taxa de expansão mundial em 2004, de 5,1%, tendo sido a mais alta em décadas, Cláudio Porto diz que, “para nós brasileiros, essa fase de forte crescimento global deixa a incômoda sensação de que não estamos participando como deveríamos deste ciclo expansivo”.

O estudo da Macroplan constata que o Brasil e o mundo seguem em ritmos diferentes: há exatos dez anos o país vem crescendo menos que a média mundial. Desde o Plano Real, mostra o estudo, a economia brasileira acumulou crescimento de 25%, ante uma expansão global de 46%, quase o dobro do resultado nacional. A desvantagem fica mais evidente ao se confrontar o desempenho brasileiro com países em estágio de desenvolvimento semelhante, as chamadas economias emergentes.

Durante a maior parte da década de 70, na qual o país conheceu o “milagre econômico” e teve uma expansão média de 8,8%, a economia brasileira cresceu em ritmo superior ao dobro do da economia mundial (3,8%) e foi a que experimentou o maior crescimento dentre as economias emergentes, deixando pra trás China (7,5%), Índia (3,3%) e Chile (2,4%).

A Macroplan atribui à crise do endividamento dos anos 80 a responsabilidade pela desaceleração da economia nacional, e o país atravessou a década com uma taxa de crescimento médio de 1,7%, quase a metade do crescimento mundial (3,3%). Paralelamente, China, Chile e Índia conquistam nesses mesmos anos 80 o ponto de inflexão, para melhor, nos seus respectivos processos de desenvolvimento, ressalta o estudo.

E no período 2006-2030, como se dará a evolução da economia brasileira no contexto mundial? Para este horizonte a Macroplan assume duas premissas básicas: (i) as principais economias globais terão um crescimento do PIB semelhante ao que tiveram entre 1991 e 2005 (ii) nas chamadas “baleias” — China, Índia e Rússia — a evolução do PIB assumirá a taxa projetada pela Goldman Sachs (2003): até 2010, crescimento de 8% da China; 5,3% da Índia e 5,9% da Rússia. A China vai ter o crescimento reduzido para 5% em 2020. Os cenários montados pela Macroplan dependem de diferentes graus de efetivo enfrentamento e resolução dos “sete gargalos” que tolhem nosso crescimento.

Mantidos os mesmos gargalos e o mau desempenho na educação, no horizonte 20062030 a economia brasileira acumulará crescimento médio semelhante ao das últimas décadas, de apenas 2,5% anuais, e o país seguirá perdendo espaço e competitividade frente a outras economias emergentes.

Esse seria o cenário denominado pela Macroplan “Brasil encalhado”, no qual o país alcança em 2030 um PIB da ordem de US$ 1,5 trilhão, o que fará a economia brasileira despencar no ranking global do PIB para a 15aposição, sendo ultrapassado por Índia, Rússia, Austrália e México.

Já o cenário “Brasil potencial” pressupõe que os entraves ao desenvolvimento nacional “finalmente começam a ser alvo de soluções efetivas, em um gradual processo de reformas que já permitem ao país colher bons frutos no final do período”. Nesse cenário, a economia brasileira se expande em média 4% anuais, e o PIB alcança em 2030 um valor de cerca de US$ 2,2 trilhões. Com isso, o país volta a ganhar espaço no ranking global e se consolida na 9acolocação.

No “Brasil sem gargalos”, ao longo dos dez primeiros anos do período, os sete principais inibidores do desenvolvimento econômico no país são alvo de um enfrentamento de choque por parte do Estado, da sociedade e do setor privado, como um sólido valor social, tal como vem acontecendo com a estabilidade monetária e a responsabilidade fiscal desde o fim do período de hiperinflação, analisa o estudo na Macroplan.

Nesse cenário, o país cresce em média 5% anuais e em 2030 o PIB brasileiro atinge a marca de US$ 2,8 trilhões, o que permite ao país ingressar no chamado G7, grupo que reúne as sete maiores economias mundiais, deixando para trás países como França, Itália e Canadá. O PIB per capita do “Brasil sem gargalos” alcançará um valor em torno de US$ 12 mil em 2030, frente aos US$ 4,3 mil atuais, semelhante ao atual PIB per capita da Coréia do Sul.

E-mail para esta coluna: merval@oglobo.com.br

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