Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 16, 2006

Reeleição ou impeachment? Marcos Sá Corrêa



  No Mínimo

16.04.2006 | O procurador Antônio Fernando de Souza botou o país de pernas para baixo e cabeça para cima. Dito assim, soa estranho. Mas é que não estamos mais acostumados a ver o Brasil como um lugar onde as coisas possam acontecer normalmente. E com a denúncia que ele mandou ao Supremo Tribunal Federal as coisas ficaram mais claras. Tão mais claras que nem o presidente Lula, que até a semana passada pisava nos rastros distraído, pode continuar a fazer de conta que não sabe o que aconteceu.

Caixa dois de campanha uma ova. Tecnicamente, o que seu governo fez foi organizar uma quadrilha. Ela roubou e corrompeu para financiar "um projeto de poder". O chefe da quadrilha era o ex-ministro José Dirceu, que até cair de podre no ano passado comandou o bando de um gabinete instalado no palácio do Planalto, a caverna de Lula. E o chefe do chefe era Lula, o "nosso guia"dos 40 ladrões, como entendeu, em cima do laço, o humorista Chico Caruso.

Ao resumir em 122 páginas a crise do mensalão, a denúncia do procurador geral da República tornou claro o que, antes, quem não queria entender achava confuso. Dividiu o problema ao meio. Entregou a parte complicada aos ministros do Supremo Tribunal Federal, que só começarão a resolvê-la lá pelo ano que vem. Em outras palavras, pelo governo que vem.

E depositou a parte simples nas mãos dos brasileiros, que daqui a seis meses terão que escolher o próximo presidente da República numa campanha em que Lula é, ao mesmo tempo, um candidato viável à reeleição e um candidato sério ao impeachment. Nesta ordem. E isso, como o próprio Lula gosta de dizer, nunca aconteceu na história deste país. Aliás, dificilmente terá acontecido na história dos outros países.

Graças a essa inegável singularidade do governo Lula, pelo mais enviesado dos caminhos, o Brasil voltou de repente a ser o país do futuro. Um lugar onde a experiência não conta, porque o passado não tem nada para ensinar ao presente, obrigando os eleitores a extrair das urnas a solução de um problema que elas não foram feitas para resolver. Ou seja, um processo de impeachment agendado neste mandato para o seguinte.

Não faz tanto tempo assim, quando os políticos não dependiam de marqueteiros ou institutos de opinião pública para adivinhar os humores do eleitorado, dizia-se que brasileiro não votava em político bichado. Perdoava os piores pecados na vida pública. Mas era incapaz de gastar voto num candidato que, na vida propriamente dita, não tivesse com cara de chegar ao fim do mandato.

Doença coronariana, por exemplo, os políticos preferiam esconder a tratar, para não correr o risco de que o prontuário médico o denunciasse como voto posto fora. Lenda ou superstição, essa crença matou muita gente boa. O senador Petrônio Portela morreu assim, deixando o coração estourar em segredo para não perder a pose de sucessor civil do presidente Ernesto Geisel, mesmo se, no caso, o eleitorado assistisse à sucessão de longe.

O presidente eleito Tancredo Neves morreu sem tomar posse, mas não deixou o país perceber a tempo os sintomas de infecção intestinal que o mataram. Ele, como Petrônio, não dependia do voto popular. Mas, como Petrônio, pelo sim, pelo não, achou melhor não brincar com coisa séria. E, para ambos, nada podia ser tão sério quando uma disputa presidencial.

Mas para que cutucar os fantasmas se a eleição de 2006 não tem precedente? Graças à revolução política da era Lula, pela primeira vez na história deste país os brasileiros têm a chance de decidir nas urnas se vale a pena votar num presidente que já tem um encontro marcado com o processo de impeachment no mandato que vem. É uma escolha difícil. Mas pelo menos o procurador Antônio Fernando de Souza tornou-a explícita. E o Brasil ficará lhe devendo para sempre este grande favor.


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