SONIA RACY
Apontado como um dos economistas que estariam ajudando Geraldo Alckmin, o ex-BC Armínio Fraga pode voltar para o governo um dia. Mas não acha que agora seria o melhor momento. Entrevistado deste domingo, Fraga teme mais pelas contas públicas no longo prazo do que neste ano especificamente. Acredita que a política monetária está no rumo correto: "É possível discordar pontualmente do BC, mas o fato é que os resultados estão aí." E não estranha que o BC, diferentemente da sua gestão, se preocupe muito com a política monetária e pouco com a política econômica. "Em épocas de crise, todo mundo tem que trabalhar junto, de maneira mais coordenada. Com o tempo, acho natural uma certa especialização, cada um no seu canto, num desenho bem padrão hoje no mundo." Aqui vão trechos da sua entrevista:
O senhor voltaria em um eventual governo Alckmin? Gostaria de poder ajudar o País e tenho esse vírus bom da coisa pública dentro de mim. Mas, ao mesmo tempo, estou muito ocupado e satisfeito com o que estou fazendo agora. Sou sócio-fundador de um negócio novo, que está crescendo, e em que assumi muitos compromissos. Por isso, no momento, não penso em voltar, embora não descarte que isso ocorra no futuro. Já tive o privilégio de conversar com Geraldo Alckmin no fim do ano passado, uma longa conversa, e fiquei bem impressionado com o trabalho que ele fez no governo de São Paulo e também com a vontade que ele tem de melhorar o funcionamento do governo e resolver questões que representam um empecilho ao crescimento do País.
Se fosse preciso citar três coisas a fazer logo no início do próximo governo, o que o senhor escolheria? Primeiro, tomar providências, de maneira convincente, em relação ao crescimento do gasto público, o que exigiria reformas e também mudança de atitude. Daria a isso um tratamento emergencial e acredito que isso deslancharia um ciclo virtuoso extraordinário. Gostaria de ver um orçamento menos vinculado e sem contingen ciamento. É muito difícil para um gestor receber um orçamento e depois chegar ao meio do ano e dizerem que só pode gastar 70% do que foi prometido. Em seguida, há uma série de questões microeconômicas, das condições de se fazer negócios. Outra área que precisa de atenção é a questão da oferta. É possível criar condições para reduzir os juros, mas, se o lado da oferta não responder, o crescimento não vem. Há também os temas regulatórios: se bem administrados, seria possível iniciar a trajetória de crescimento. Falta um tratamento mais eficiente, que não custa tanto dinheiro.
Como o senhor está vendo a administração do ajuste fiscal das contas públicas? Há brecha para o descontrole? Brecha sempre existe e algumas decisões, como o reajuste do salário mínimo e o aumento para aposentados, fazem coro com essa preocupação. As medidas tomadas acendem uma luz amarela que vale a pena acompanhar. Minha preocupação maior, porém, é com a tendência: há gasto público crescendo a taxas reais de quase 10% há uma década. Isso necessariamente vai acabar mal.
Como o atual gerenciamento das contas públicas impacta no crescimento do País? Para mim essa pergunta é chave. Tem conseqüências negativas, não importa o ângulo de observação que se escolha. De um lado, uma pressão em cima da taxa de juros promove o que os economistas chamam crawling out: expulsão do investimento privado do mercado. Do outro, a necessidade de aumentar a carga tributária com um tremendo impacto nocivo sobre eficiência e informalidade. É importante para o crescimento do País ter taxas de juros mais baixas e, também, reduzir e melhorar a qualidade da carga tributária. É bom lembrar que há distorções também do lado da receita.
Quais seriam elas? Muitas. Essa reforma do ICMS, por exemplo, é da maior importância. Existem negócios que acabam ficando inviáveis no Brasil. Outra é o custo de capital. O que vai acontecer daqui para a frente com os fundos de pensão que pagam impostos e precisam ter um retorno de 6% ao ano? Há problema também na enorme variação das alíquotas de vários impostos, como o Imposto de Importação. Por que a variante é tão grande historicamente é difícil explicar. Não há uma lógica microeconômica por trás disso. Provavelmente houve um setor que fez mais lobby que outro. Com isso, recursos que deveriam estar indo para lugares mais produtivos migram para onde se paga menos impostos.
Em suas conversas com investidores internacionais, o senhor sente temor pelo efeito Garotinho? Hoje se considera pouco provável a possibilidade de eleição do ex-governador ou de outros com propostas um tanto exóticas para o País. Tudo muda se essa alternativa começar a aparecer como mais provável.
Lula, vencendo as eleições, muda alguma coisa no cenário de hoje? Depois de um primeiro ano bom, o atual governo vem patinando bastante, surfando uma onda extraordinariamente favorável da economia global. Um segundo mandato sempre tende a ser mais difícil que o primeiro...
Posted by ARTIGOS to INDICE DE ARQUIVO DE ARTIGOS ETC at 4/16/2006 09:11:37 AM