| EDITORIAL |
| O Globo |
| 6/4/2006 |
O ex-ministro Antonio Palocci tem, em certos aspectos, uma trajetória semelhante à do PT. Como a legenda, conseguiu conquistar apoios, mas falhou no plano da ética. Apenas, no caso do ex-prefeito de Ribeirão Preto, a revelação dos fatos que trincaram de forma irreversível a sua imagem se sucedeu numa velocidade vertiginosa, enquanto a hemorragia ética do PT se alonga há mais tempo. Além dos casos notórios de práticas deploráveis em algumas prefeituras —- inclusive em Ribeirão Preto na gestão de Palocci, embora o ainda ministro fosse convincente em desmenti-las —, o partido sofreu graves danos ao ser atingido pelas denúncias sobre o mensalão, desfechadas há quase um ano por Roberto Jefferson, um dos beneficiários do esquema. Desde então, petistas tentam sem êxito construir uma versão cor-de-rosa para os negócios heterodoxos fechados na montagem da bancada do governo na Câmara dos Deputados. À primeira estocada de denúncias contra Palocci feitas por Rogério Buratti, seu secretário na prefeitura de Ribeirão, o ministro respondeu de forma direta, sem dar margem a dúvidas. Acusado de participar de um esquema de arrecadação de dinheiro sujo para o caixa petista de Delúbio, um protótipo de mensalão, Palocci foi objetivo: "Não digo apenas que não sabia; digo que não houve." De um lado estava um lobista interiorano, recém-desembarcado nos esquemas de Brasília, na carona da vitória petista de 2002; de outro, um político hábil, de grande capacidade de convencimento, responsável direto pela execução da única estratégia indicada para fazer o ajuste na economia exigido pelos desequilíbrios provocados pelo risco Lula na campanha de 2002. Não era difícil aceitar as explicações do ministro. Palocci, com a estatura pública que atingiu, chegou a ser o único ponto de apoio do próprio governo quando o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, perdeu todas as condições de se manter no Palácio do Planalto, com as evidências do seu envolvimento com o mensalão. O surgimento do caseiro Francenildo Costa como testemunha das visitas negadas por Palocci à casa do lobby no Lago Sul, em Brasília, jogaria o ministro não apenas no Inferno de Dante como também para fora do governo. E menos pelo teor do depoimento do caseiro, mas principalmente por causa dos desdobramentos da história, com a grave quebra ilegal do sigilo bancário de Francenildo, em que Palocci, tudo indica, teve participação direta. Por ironia, o ministro, que tanta distância manteve do PT, o grande adversário da política econômica conduzida por ele, terminou aderindo à cultura do aparelhismo petista ao acionar um braço do Estado em proveito próprio. Pelo menos em um ponto Palocci e petistas em geral continuarão distintos: o ex-ministro se revelou competente na administração técnica do Ministério da Fazenda, ao contrário da grande maioria dos militantes do partido no primeiro e segundo escalões do governo. Mas isso não deve servir de consolo para quem precisa prestar esclarecimentos à Justiça. |
Entrevista:O Estado inteligente
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quinta-feira, abril 06, 2006
Palocci e a ética
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