Entrevista:O Estado inteligente

sábado, abril 01, 2006

O preço do conformismo Carlos Roberto Innig

JB

O preço do conformismo  
 
 
 

Carlos Roberto Innig

 Administrador financeiro

Enquanto Palocci vai descansar, o país desperta da hipnose dos juros mais altos do mundo. Logo o mercado literário será inundado por ensaios de brasilianistas tentando teorizar sobre os motivos que levaram o governo de uma nação em desenvolvimento e carente de recursos a queimar R$ 600 bilhões em cinco anos para aplacar o fogo da inflação e, ao final, mantê-la em patamar próximo do qual se encontrava em dezembro do ano 2000.

Infelizmente - e conquanto tenhamos uma legião de ótimos economistas - os ensaios teóricos mais uma vez virão de fora, inclusive porque no Brasil pouco cultuamos o hábito de duvidar cientificamente, portanto, sem paixão, de decisões tomadas por momentâneos detentores de poder oficial.

A dúvida, a discussão e o contraditório científico estão na raiz dos principais avanços da humanidade. Quando o tema é economia e finanças, nossas universidades pouco estimulam a apresentação e o debate de teses que questionem os caminhos propostos por governos para alcançar um objetivo. Perdemos todos, especialmente os governantes

Parecemos condenados mais uma vez a pagar o vexame de ver os professores estrangeiros dos nossos doutores domésticos ganharem dinheiro vendendo-nos livros explicando não ser plausível gastar, à custa de endividamento, a gigantesca soma de recursos como o estamos fazendo, para alcançar aquilo que é apenas um dos objetivos de uma política econômica equilibrada.

Não culpemos a ganância do mercado pelo estrago: nem em sonhos os credores imaginavam exigir os altos juros que a nação pagou para rolar sua dívida. Com o vulto alcançado pelo débito, o poder de negociação não está em suas mãos. Dados recentes informam que o crédito ao setor privado mal consegue bater os R$ 450 bilhões. Enquanto isto, a dívida pública federal, estadual e municipal está ao redor de 1,2 um trilhão. Ou seja, o setor público ''aluga'' 70% dos recursos financeiros existentes no mercado. Quem então tem o poder de fixar preço?

A luta por metas de inflação é essencial e é um objetivo indeclinável. Todos concordamos. E que esta guerra tem um custo, também nem se discute. O que não podemos é desconhecer outras armas e modos de combate e pagar o preço mais caro, sob pena de sermos reconhecidos futuramente como grandes bobos.

É um imenso equívoco aplicar continuamente solução clássica para país rico num país em desenvolvimento e extremamente endividado. Não podemos segurar a inflação pagando juros com o dinheiro que não temos. É simples. Ali adiante precisaremos de mais impostos inflacionários para resolver os problemas que nós mesmos criamos.

O que está em dúvida não é a necessidade de estabilidade monetária, mas as alternativas de preço para alcança-la e mantê-la. A dificuldade de Palocci não foi de diagnóstico e sim de prescrição de tratamento. A posologia dos juros preventivos mais altos do mundo está exaurindo as forças do paciente. Da mesma forma como seria totalmente inadequado mudar-lhe radicalmente o tratamento e permitir-lhe o prazer de reconfortantes excessos e compensações, no caso, uma farra de gastança orçamentária a altura de apetites eleitorais.

É urgente estimular-se o exercício da dúvida. A política monetária se sobrepõe à política macroeconômica? Dispomos de outros instrumentos que não os juros altos e onerosos ao tesouro para controlarmos a inflação? Existe modo de fazer melhor, mais barato e de forma socialmente mais justa? Qual a política econômica (e isto é mais do que monetária) que o país deveria ter para ajustar-se a uma determinada meta da inflação que permitisse um crescimento ao menos igual ao da média da América Latina e com menor comprometimento de superávit primário para pagamento de juros? Provavelmente um dia os nossos profetas do passado irão quantificar. Antes disto faremos fila nas sessões de autógrafos dos brasilianistas. Exceto se nossas entidades empresariais conseguirem estimular nossas universidades a duvidar, ainda que por mero exercício científico.  
 
 
 

[30/MAR/2006]

 


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