O GLOBO
A filha de 8 anos do então prefeito Leoluca Orlando, de Palermo, na violenta Sicília italiana, perguntou: "Papai, por que a gente tem que respeitar a lei?". Hoje, recém-eleito para um mandato de deputado na coalizão de Romano Prodi, Orlando conta que aquela pergunta da filha foi seu "momento eureca". Ali percebeu que, se quisesse combater a criminalidade, teria que contar com mais armas que as da polícia. Era preciso promover uma mudança nos valores.
— Precisamos mais dos empresários, dos formadores de opinião, que da polícia.
Assim, o ex-prefeito de Palermo encerrou sua entrevista à coluna. Ele vai estar no Brasil na terça-feira para uma palestra na Bovespa sobre Democracia e Violência. A frase diz muito a respeito do que o deputado fez em sua região e do que ele pensa sobre o combate à criminalidade.
Ainda que, muitas vezes, vejamos como naturezas bastante diferentes, o terror por que passou a Itália por causa dos crimes da máfia tem muito a ver com o que vivemos atualmente. Lá, como aqui, o risco é a apropriação do espaço público pelo crime. Lá, pela máfia; aqui, por outra forma de organização. Porém, em ambos os países, a mesma banalização do crime que justifica a dúvida precisa de uma criança: para que respeitar a lei? Banalização que ocorre tanto na violência do Rio como na corrupção de políticos absolvidos pelos seus pares, através do covarde voto secreto.
Na Itália, um conjunto de ações acabou fazendo com que hoje o país tenha índices de criminalidade bem menores que nos anos 80. Além dos crimes violentos, enfrentava-se a contaminação da Cosa Nostra em todos os negócios públicos. Ou seja, era a soma da violência com a corrupção; os males que assombram o Brasil. Casos de êxito, como o contado pelo deputado italiano, ajudam a pensar em formas de reduzir o estado de zonas sitiadas a que o Rio sobrevive hoje.
A opção do método de combate à violência feita por Leoluca Orlando é um pouco diferente da também celebrada "Tolerância Zero", de Rudolph Giuliani, em Nova York. A distinção entre as duas está principalmente no que o italiano chama de combate ao crime "não normal". Segundo ele, combater o crime "normal" exige apenas uma polícia eficiente; repressão. Já combater crimes em que valores estão envolvidos — como era o caso da máfia siciliana — exige um trabalho muito mais profundo, de recuperação de valores.
Lembrando a cena da filha, Orlando, que também é professor de direito, conta que, naquele momento, ficou claro o quanto os valores legais estavam perdidos; já não tinham mais necessidade, nem utilidade. Ao ser informado pela coluna do documentário "Falcão", de MV Bill, em que um menino diz que quer ser bandido quando crescer, a resposta foi:
— É a mesma coisa! É a mesma coisa! Os bandidos normais podemos combater com a polícia apenas, mas quando o crime está arraigado, a população se identifica com ele, a polícia só não é suficiente, é preciso fazer muito mais para trazer outros valores de volta.
O muito mais em Palermo começou com a limpeza da polícia. Corrupta como poucas, era desacreditada pela população e sofreu um grande corte de pessoal. Os políticos, que usualmente colaboravam com esquemas de corrupção com a máfia, também passaram a ser vigiados e presos. Outro caminho foi atuar junto aos empresários para que fizessem sua parte, ou seja, não fossem tolerantes com a máfia ou, mesmo, participantes do esquema criminoso. Ter formadores de opinião da sociedade civil, como padres, professores, jornalistas, foi o ponto fundamental para esta mudança de mentalidade.
— Tivemos que mostrar que obedecer à lei era conveniente a todos, não apenas algo necessário. A população começou a perceber que ninguém agüentava mais tanta violência e que teria de fazer alguma coisa contra isso.
Leoluca Orlando já estudou também os casos de violência de algumas cidades na América Latina, mais próximas de nós, como Cáli ou a Cidade do México. Na visão dele, a educação continua sendo o melhor caminho para esta virada de rumo. Acredita que a idéia paulistana de abrir as escolas nos fins de semana é realmente um exemplo do que pode funcionar. É a escola que ajuda a evitar que um jovem vá para o crime, traz novos valores, propaga o conceito de cidadania.
— As pessoas dizem que a pobreza leva à criminalidade. De fato, se a pessoa é pobre, ela pode ser empregada pelos criminosos, mas, na verdade, a criminalidade, a corrupção, a violência é que produzem a pobreza — comenta.
Um projeto de recuperação de valores pode parecer uma idéia vaga para quem prefere respostas urgentes. Mas o fato é que ele deu certo em Palermo, uma cidade que estava partida e perdida. O resultado que veio desta experiência na Itália pode nos ser útil. Palermo recebia até pouco tempo visitas apenas de jornalistas interessados em cobrir os crimes praticados pela máfia. Porém, de alguns anos para cá, a cidade mudou sua imagem completamente, os homicídios relacionados à máfia saíram de 350 para zero e Palermo vem aumentando seu potencial turístico, com hotéis, vôos internacionais. Acabar com a violência trouxe também empregos; foi bom para a população, para a política, para a economia; para todo o país.
Entrevista:O Estado inteligente
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