| O Globo |
| 20/4/2006 |
A reunião da Academia da Latinidade que começou ontem aqui na capital do Azerbaijão teve, como era previsível, a situação do vizinho Irã como o ponto principal das discussões iniciais. Com uma maioria xiita amortecida pela separação do Estado da religião após tantos anos de regime comunista, o Azerbaijão se orgulha da convivência livre das três religiões existentes no país — o catolicismo, o judaísmo e o islamismo. Mas o vizinho Irã, com o predomínio politico dos xiitas, é uma permanente preocupação, ainda mais atualmente, com o recrudescimento do radicalismo religioso no governo. Não foi à toa, portanto, que o presidente do Clube de Roma — organização internacional cuja missão é analisar os problemas chave diante da humanidade e propor soluções — príncipe El Hassan bin Talal, da Jordânia, anunciou ontem, na abertura da conferência da Academia da Latinidade "Cultura da diferença na Eurásia", que na próxima semana a Comissão Trilateral apresentará, em sua reunião em Tóquio, uma proposta de negociação para a superação da crise nuclear do Irã. A idéia central é formar um Conselho Nuclear do Oriente Médio, que já está sendo chamado de N 5 + 5, que reuniria os países com assento permanente e poder de veto no Conselho de Segurança da ONU — Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, China e Rússia — e países que já detém ou estão em vias de deter o poder nuclear — Irã, Índia, Paquistão, Israel e Japão — todos com laços econômicos e políticos com o Irã, para tentar alcançar um grande acordo com o objetivo central de congelar no nível atual sua capacidade de produzir a bomba atômica. A análise geopolítica da situação, que indica ser mais eficiente uma solução negociada politicamente, mostra que todas as partes envolvidas estão confrontadas com situações de alto risco, e com um complexo ambiente com circunstâncias imprevisíveis. O Irã hoje seria o centro de um mundo interdependente. Um Irã nuclear teria uma influência no equilíbrio de poder na região, e uma corrida armamentista poderia ocorrer, com , por exemplo, o Egito e a Arábia Saudita apelando para seus aliados. França e Inglaterra venderam equipamentos militares a países como Qatar, Emirados Árabes Unidos ou Omã, e nessas vendas estão previstas garantias de segurança que poderiam ser cobradas. Tanto Índia quanto China têm laços econômicos fortes com o Irã e, mais que isso, os dois países almejam um papel politico mais relevante no mundo. Segundo o plano a ser proposto pela Comissão Trilateral, todos os países envolvidos no acordo concordariam em adotar amplas medidas para prevenir a proliferação dos materiais relevantes para a produção de bombas, e também pôr em prática uma série de medidas que previnam riscos de conflitos nucleares na região do Oriente Médio. Israel receberia amplas garantias num "pacote de segurança", com o apoio dos Estados Unidos e da Otan. Os Estados Unidos, por sua vez, ofereceriam garantias de segurança ao Irã, e um acordo de cooperação nuclear à Russia. Um suprimento de combustível nuclear para uso pacífico seria oferecido ao Irã e a outros países, como a Turquia e Arábia Saudita, mas eles se submeteriam a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica. O documento, que será discutido na Comissão Trilateral — composta por representantes das três maiores regiões democráticas industrializadas do mundo (União Européia, América do Norte, incluindo além dos Estados Unidos o Canadá e o México; e Ásia do Pacífico, que engloba o Japão, a Coréia, Austrália e Nova Zelândia) — chega a essa alternativa diplomática depois de analisar dois cenários: É plausível imaginar uma mudança de regime no Irã? Ataques preventivos seriam uma opção viável? A posição européia a essas perguntas é de que dificilmente ações desse tipo, tendência defendida pelos Estados Unidos e por Israel, seriam uma solução para a paz no Oriente Médio. A chegada do presidente Mahmud Ahmadinejad ao poder é vista hoje como uma resposta de figuras importantes do regime iraniano à presença mais forte dos Estados Unidos no Oriente Médio. O prefeito de Teerã, uma figura desconhecida tanto interna quanto externamente, só teria chegado ao poder central, derrotando um líder poderoso quanto Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, devido a uma planejada organização para transformar o governo do Irã em mais islâmico, mais militar e mais nacionalista, uma volta ao passado, uma ressurreição revolucionária "khomeinista" contra um governo que era considerado muito pró-ocidental. Os analistas não têm dúvida de que o estilo populista de Ahmadinejad aplaca a raiva da população contra a corrupção, prometendo, sem base em uma realidade imediata, distribuir a riqueza do petróleo e empregos para a juventude, casa e comida para os excluídos, tudo isso sob a proteção religiosa. Não há, portanto, perspectiva de uma mudança de regime insuflada pelos Estados Unidos. O risco de um ataque preventivo contra as instalações nucleares do Irã, por sua vez, é grande tanto para os Estados Unidos quanto para Israel, pois é considerado certo que o Irã atacaria imediatamente as instalações petrolíferas no Golfo, interrompendo a distribuição de petróleo para o Ocidente e para a Ásia, bloquearia o Estreito de Hormuz, e deflagraria uma explosão de ódio xiita através do Iraque. A Guarda Revolucionária tem alistados cerca de 800 mil soldados que seriam mobilizados para atacar o Iraque, em muito maior número que os soldados americanos que lá estão. Por todas essas razões, a Comissão Trilateral insistirá em uma movimento diplomático que permita uma saída negociada para a crise. Não é provável que essa solução seja aceita pelos Estados Unidos, mas pelo menos é uma tentativa de uma saída negociada para a crise. |
Entrevista:O Estado inteligente
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