Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, abril 06, 2006

DORA KRAMER Espetáculo mambembe

O ESTADO DE S PAULO

Chamar de palhaçada a arapuca montada pelo advogado de Palocci é ofender o circo

DORA KRAMER

O estado de saúde do cidadão Antonio Palocci não explica, muito menos justifica, o elogio ao engodo perpetrado anteontem pela Polícia Federal, o advogado José Roberto Batochio e o ex-ministro da Fazenda, sob o auspício do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, na condição de superior hierárquico da PF.

Palhaçada seria o termo mais próximo do adequado para definir a armação engendrada para proteger Palocci da imprensa e driblar o direito do público à informação, não representasse um insulto ao palhaço Carequinha falecido ontem, encerrando sua participação numa vida inteira dedicada à graça, à delícia, ao bem-estar, aos bons valores que um dia já preponderaram como objeto de admiração neste país.

Carequinha, as crianças de ontem lembram bem, ensinava que "o bom menino não faz pipi na cama". Politicamente incorreto, mas um lema inofensivo diante da ausência de princípios e falta de pudor às faces apresentadas aos jovens de hoje como exemplo vindo de cima. Mais exatamente dos governantes, gente com responsabilidade não só sobre os rumos da administração, mas da formação (ou deformação) da mentalidade social.

As coisas andam de um jeito que, quando a gente pensa que já se chegou ao fundo do poço em matéria de vilanias, algo pior acontece para confirmar que de uns tempos para cá passamos a viver sob império da mais absoluta desfaçatez.

O espetáculo mambembe encenado durante cinco horas em um hotel de Brasília para manter a imprensa ocupada na expectativa de uma "bomba" que seria revelada pelo advogado Batochio, enquanto Antonio Palocci falava ao delegado da PF em sua casa (funcional, ainda não devolvida), não destoou, diga-se, do festival de mentiras em cartaz no Brasil.

Compôs à perfeição o cenário de degradação moral onde já atuaram um subchefe da Casa Civil em flagrante de extorsão, partidos trocando apoio político por recursos (ilegais) para financiar campanhas, autoridades, dirigentes partidários, parlamentares e profissionais de renome mentindo descaradamente em comissões de inquérito, presidente da República assinando cheque em branco para réus confessos, partidos de oposição fazendo acordos para absolvição de infratores do decoro parlamentar, o chefe da Nação avalizando a prática do caixa 2 (e, portanto, a sonegação), deputada emprestando o rebolado à festa da impunidade no plenário da Câmara e, no que se imaginava ser o limite, o Estado sendo usado para quebrar ilegalmente o sigilo bancário de um cidadão.

A lista é longa, não obstante incompleta.

Acrescente-se a ela o delito de corrupção cometido por um presidente da Câmara, as cenas de fisiologismo explícito para eleger seu sucessor, as relações incestuosas entre membros dos Poderes Executivo e Legislativo e integrantes do Poder Judiciário, os esforços de um partido que se propõe a derrotar o PT para salvar um correligionário senador do rol de acusados pelo crime eleitoral de uso de caixa 2. Ainda assim não temos o quadro completo, dada a insuficiência da memória frente à abundância de ocorrências - no sentido policial mesmo.

O despiste de terça-feira não ficou nada a dever ao conjunto da obra. Palocci não queria ir à sede da PF para não ser fotografado à saída. Não queria também jornalistas rondando a porta de sua (nossa) casa oficial no Lago Sul de Brasília e, para evitar isso, escolheu fazer a imprensa - e por conseqüência a outra ponta do canal de comunicação, a sociedade - de tola.

Ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, o advogado Roberto Batochio - que se notabilizou por discursos grosseiros na presença de presidentes da República em solenidades no Supremo Tribunal Federal - não hesitou em recorrer à assessoria de imprensa da OAB, cujos profissionais emprestaram (voluntária ou involuntariamente) seus nomes a zelar para a montagem do picadeiro.

Os jornalistas foram convocados para ouvir do advogado a revelação de uma "bomba". Eram 17 horas quando correram todos atrás da notícia no lugar marcado.

Melhor seria dizer na arapuca onde cinco horas depois apareceu o advogado pleno de rispidez e irritação, a informar sobre o já ocorrido depoimento de Palocci.

Ou seja, a "bomba" era apenas uma armadilha para desviar a atenção. Correm versões de que era mais que manobra diversionista: teria também o condão de passar a quem de direito o "recado" de que outros depoentes deveriam tomar tenência, pensar duas vezes antes de complicar a vida de Palocci caso não quisessem ver algum artefato (no sentido figurado) explodir de fato.

No reino do vale-tudo, esse episódio pode até parecer um pormenor e impor reparos a ele soar como reação corporativista. Não é, os elementos que o compõem são os mesmos de sempre: privilégio (Francenildo Costa não contou com a prerrogativa da proteção), grosseria, desrespeito, abuso da boa-fé alheia, monumental vocação para a fraude e um firme compromisso com a mentira.

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