Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, abril 06, 2006

DEMÉTRIO MAGNOLI Esquerda e direita

FOLHA

"Meu nacionalismo luta contra a globalização que neutraliza os interesses nacionais, e nele cabem forças de esquerda e de direita. Não estamos discriminando pela ideologia." Ollanta Humala, o candidato do Partido Nacionalista Peruano (PNP), que lidera as sondagens da eleição presidencial de domingo, recebeu os apoios explícitos de Hugo Chávez e Evo Morales e discretos acenos favoráveis de Lula. A mídia o trata como peça de uma "onda de esquerda" na América Latina. Humala, porém, é uma ave rara: aquilo que de mais próximo do fascismo existe nessa parte do mundo.
Filho de um advogado ex-comunista e visceralmente nacionalista, Humala seguiu carreira militar e, com seu irmão Antauro, liderou o Movimento Etnocacerista, composto por militares veteranos da repressão ao Sendero Luminoso e da guerra de fronteira contra o Equador, em 1995. O nome do movimento é uma dupla alusão: à "origem inca" da nação e a Andrés Avelino Cáceres, o presidente que liderou o país na Guerra do Pacífico (1879-1884), contra o Chile. Os etnocaceristas sonham com a restauração de um Peru imaginário, ancestral, de uma "raça andina" orgulhosa e hierática, liberta das influências cosmopolitas.
Humala combateu os senderistas, aterrorizou vilas camponesas e manteve estreitas relações com os órgãos de segurança fujimoristas, até romper com Alberto Fujimori, promovendo uma quartelada no outono do seu regime. Voltou-se para a política, criou o PNP e, como candidato, distanciou-se taticamente do etnocacerismo. Mas seu partido conserva lealdade à narrativa romântica que conecta o passado inca às figuras de Cáceres, do comunista indigenista José Carlos Mariátegui (1894-1930), do "fundador" do nacionalismo peruano Haya de La Torre (1895-1979) e do general Velasco Alvarado, chefe do regime autoritário entre 1968 e 1975.
A plataforma do PNP prega a criação de um Estado corporativo e descentralizado, baseado na "família peruana" e na "aliança do Estado com os trabalhadores e produtores". Humala incorporou ao seu discurso recente a bandeira bolivariana, mas esse é um elemento artificial numa visão de política externa na qual a "Pátria Grande" genuína é a "integração" entre o Peru e a Bolívia num Estado sucessor do império inca e a reconquista da saída oceânica perdida para o Chile.
Na Europa, a esquerda é internacionalista, e a direita, nacionalista. A distinção não se aplica à América Latina, onde a esquerda é antiimperialista e, portanto, nacionalista. Segundo Humala, a própria distinção perdeu o sentido: "o nacionalismo independe de categoria, é um novo cenário político". Mas isso não é exato. O nacionalismo da esquerda latino-americana tem por referência a economia, e mesmo o indigenismo de Morales é uma tradução do combate à desigualdade social, enquanto a referência do nacionalismo da direita, como ocorre na Europa, encontra-se no passado mítico: nas noções de cultura, etnia e raça.
O diabo é que essa distinção se torna, cada vez mais, um exercício intelectual abstrato, pois, na esfera política, os nacionalistas de esquerda confraternizam com o ultranacionalista de direita do Peru. O congraçamento, embalado no anti-americanismo e na resistência à globalização, representa um novo passo rumo à dissolução ideológica do pensamento de esquerda na América Latina.



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