Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, abril 21, 2006

A DEFESA DO GOVERNO

EDITORIAL DA FOLHA
 Saiu como entrou o ministro da Justiça da argüição na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Nas atuais circunstâncias -em que o governo Luiz Inácio Lula da Silva registra uma série impressionante de baixas e seu passivo ético só tem feito acumular-, o fato de o depoimento de Márcio Thomaz Bastos não ter produzido arranhão adicional deve ter sido objeto de comemoração no front situacionista.
Na narrativa razoavelmente detalhada que fez a respeito da atuação de seu ministério no escândalo da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, a participação de seu assessor Daniel Goldberg segue sendo o ponto mais inverossímil. O secretário de Direito Econômico esteve na casa do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, na noite em que Jorge Mattoso, que presidia a Caixa, entregou o extrato da conta de Costa a seu superior.
Bastos sustenta que, apesar de presente na cena do crime, seu auxiliar não soube que ali se cometia um ilícito -Palocci e Mattoso teriam tido conversa em privado sobre o tema. A participação de Goldberg se teria resumido a receber do titular da Fazenda pedido para que a Polícia Federal investigasse o caseiro, solicitação que, diz Bastos, foi negada. Se falta verossimilhança à explicação, não surgiu nenhum fato, até a inquirição de ontem, que a possa abalar.
Conclusão semelhante se pode fazer acerca da indicação, feita por Bastos, de um advogado criminalista para Palocci já perto do desfecho do episódio. Apesar de o contexto ser congruente com um extravasamento dos limites da atuação de um ministro da Justiça -alguém que tem de investigar delitos, e não delinear estratégias de defesa de um colega-, nenhum elemento por ora confirma que o deslize de fato tenha ocorrido.
É do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) a melhor síntese política da atuação de Bastos ontem. Como experiente advogado de defesa, o ministro tratou de circunscrever, exaustivamente, o desmando da quebra do sigilo à corrente que vai de funcionários da Caixa e cessa em Palocci. Pretendeu, assim, defender não apenas a si mesmo mas fundamentalmente o presidente da República de uma ação por crime de responsabilidade.

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