Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, novembro 14, 2005

Wall Street, Serra, Alckmin, Lula e Santo Agostinho Por Reinaldo Azevedo

PRIMEIRA LEITURA

A Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos promoveu na semana passada um seminário em Wall Street sobre a disputa eleitoral no Brasil em 2006. As conclusões não são muito diferentes do que já é mais ou menos consensual por aqui. A principal é que não se repetirá o ciclo de desconfianças de 2002 porque os postulantes — o PT (Lula) e o PSDB-PFL (José Serra ou Geraldo Alckmin) — estão comprometidos com a estabilidade e as regras de mercado. Também se ouviu uma análise sobre a tríade Serra-Alckmin-investidores. De fato, foi essa a questão mais importante lá abordada. Falo disso mais adiante. Antes, algumas outras considerações.

Seminários costumam ser um show de obviedade. É o parque de diversões dos homens de negócios. Os participantes só aceitam a reiteração do que já sabem. Quem leva filho a um parquinho já percebeu. Ele pode querer andar naqueles carrinhos que dão trombada umas 800 vezes. Vai achar sempre divertido. Seminários são um ritual de infantilização da inteligência. Os lobinhos ficam ali ouvindo as instruções dos escoteiros. É insuportável. Mas há quem goste.

Em 2002, o mercado ainda levava o PT a sério sem saber que o partido não se levava a sério. Tivesse analistas mais capazes, saberia — e, imodestamente, este site o escreveu com todas as letras — que Lula era a melhor garantia de que nada mudaria na política macroeconômica, com a boa possibilidade de aumentar o rigor dos rituais ortodoxos. Até me corrijo: na verdade, todo mundo sabia. Tanto sabia que o setor financeiro fez a sua escolha: Lula. Para colher os resultados que aí estão: lucros históricos, inéditos. Houve especulação porque, bem..., ninguém é de ferro. O discurso petista tornava obrigatório chacoalhar a macieira para colher frutos. Mesmo o mais desumano dos especuladores precisa de uma desculpa verossímil. Em 2002, havia; em 2006, tudo o mais constante, especular para quê? A não ser que Lula decida pôr um porra-louca no lugar de Antonio Palocci, que já é carne queimada. Duvido.

Nota antes que prossiga: mercados, quando fazem esses seminários, pensam apenas no retorno do investimento — produtivo ou especulativo. Não dão a menor pelota, por exemplo, para a questão da democracia. Não estou fazendo uma censura moral. Prefiro que homens que ganham dinheiro se ocupem de ganhar dinheiro. A política não é mesmo para eles. Cuidar da democracia é tarefa de outros agentes. Não fosse assim, o capitalismo daria um pé no traseiro da China. Mas o que se quer por lá é lucro. Se os chineses suportam a tirania, problema deles. Há mais indecência ideológica no pragmatismo pós-Guerra Fria. A esquerda contemporânea prefere empresários que resolvam lucrar com os comunistas àqueles que financiavam as tentativas de derrubá-los. Como levar um esquerdista a sério? Assim, o corolário desta primeira parte do meu texto é o seguinte: os mercados estão dizendo: PT ou PSDB, no fim das contas, tanto faz. Tanto faz para eles, cara pálida! Não para a democracia. O PT encarna um projeto totalitário, ainda que nos marcos de mercado.

Acho razoável que Paulo Leme, por exemplo, que estava presente, diretor de pesquisa e estratégia para mercados emergentes do banco Goldman Sachs, não esteja preocupado com o assunto de que trato. Ele está acostumado a cumprir a sua função, e espero que continue a fazê-lo. Sua tarefa, como especifica seu cargo, é fazer "pesquisa" e traçar "estratégias" para seu banco ganhar mais dinheiro. Tomara que continue a cumprir direitinho o seu papel. Se eu tivesse uns trocos, ligaria para ele para ouvir seus conselhos, como faz o Goldman Sachs, que lhe paga para isso. Como não tenho, não telefono. Para entender a realidade política, aí já acho Paulo Leme amplamente insuficiente.

De todo modo, no tal seminário, ele fez uma análise que me parece correta. Previu uma disputa acirrada entre PT e PSDB-PFL, com uma possibilidade, segundo diz, de 2/3 contra 1/3 de vitória da oposição. O que, desta feita, à diferença de 2002, não trará pânico aos mercados. De novo, me corrijo: o que, desta feita, não oferecerá motivos verossímeis para que o mercado finja pânico e saia especulando. Ou alguém imagina Serra ou Alckmin dando calote na dúvida pública e baixando os juros na base da porrada? Atribuir a Lula, na eleição passada, tal suposto intento era fácil. Ele havia passado 22 anos falando bobagem.

Leme ainda fez uma ressalva, que me pareceu, segundo as notícias que me chegaram, bastante tímida — e a ressalva, quero crer, é mais importante do que sua tese. Se Lula se reeleger, haveria o "conforto" (para quem?) da continuidade da política econômica, porém ele ofereceria um upside (potencial de alta) mais limitado. Parece-me pouco para o tamanho do risco por dois bons motivos: 1) até o FMI aponta hoje os juros reais brasileiros como um impedimento para o crescimento econômico, o que compromete os investimentos no país, que estão baixos; 2) com que base congressual Lula governaria? O caos administrativo se extremaria. Logo, "conforto" não haverá. O que Paulo Leme quis dizer é que Lula continuará a honrar os compromissos assumidos e que ninguém precisa tirar o seu rico dinheirinho do Brasil porque os juros continuarão a ser pagos. Ok, ainda bem. Há pouca chance de o país ser entregue a um caloteiro. Mas sua avaliação do risco Lula me parece muito modesta caso se considere um público um pouco mais amplo do que os "investidores".

Standard & Poor's
Interessante mesmo foi a análise de Lisa Schineller, diretora da área de risco soberano para a América Latina da agência de rating Standard & Poor's (S&P). Ela se encarregou de desfazer um mito que o PT estava gostando de ver prosperar: o de que existiria um certo "risco Serra", no país, de sorte que o tucano seria, vamos dizer, um Lula que se levasse a sério — o que é piada por dois motivos: 1) se Lula, não há como ser sério; 2) políticos têm carreira, têm trajetória, têm história. Ela lembrou, com propriedade, que a gestão do atual prefeito de São Paulo e sua passagem por ministérios do governo FHC não autorizam qualquer desconfiança. Tanto melhor que o tenha feito.

Ainda assim, um trechinho de sua fala me deixou algo perturbado. Segundo disse, suas conversas com investidores indicam uma preferência por Alckmin. Num dado momento, afirmou: "Compreendo as dúvidas do mercado quanto ao Serra,  que é mais favorável ao setor industrial". Em seguida, veio a observação que já relatei. Segundo ela, tais dúvidas seriam injustificadas.

Bem, concordo com a conclusão, mas a pulga me ficou atrás da orelha (de mãos dadas com o clichê): por que um político que seja "mais favorável ao setor industrial" deva gerar "dúvidas no mercado"? Lisa diz entender. Eu, confesso, não entendo. Faz supor a existência de uma economia que pudesse, no limite da generalização, prescindir do setor industrial. Existe? Afinal, qual é o tema em debate e qual, então, a natureza da reação que se estava armando ao nome de Serra?

Ademais, há ainda o risco de os "investidores" passarem a ser uma companhia incômoda para a Alckmin, como se procurassem comprometê-lo com uma agenda antiindustrial, de pura continuidade não exatamente da política econômica, mas das escolhas que estão em curso. Será que é mesmo o caso de não mudar nada? Li a entrevista de Tasso Jereissati, futuro presidente do PSDB, à sempre excelente Thaís Oyama, na revista Veja, e me pareceu que, para ele, a manutenção do paloccismo, com mais ética, é uma boa saída para o Brasil. Com efeito, não acho. Até a banda heavy metal da PUC do Rio reconhece que o BC exagerou nos juros reais e tardou a iniciar o ciclo de cortes da Selic. O que Tasso quer tanto manter? O crescimento de 3%, quando os emergentes crescem o dobro? O senador perdeu uma boa chance de lembrar que o Brasil cresceu mais do que a América Latina sob o governo FHC e menos do que o subcontinente sob o governo Lula. Afinal, o mundo é outro.

Assim, aquele "conforto" de Paulo Leme me parece bem desconfortável. Espero que o governador Geraldo Alckmin não se deixe seduzir pelo elogio fácil e siga o conselho de Shakespeare, para quem a censura de alguns era mais útil do que o elogio de outros. Como eu, parece que o governador gosta de Santo Agostinho: "Duo sunt genere enim eorum, persequentium et adulantium, sed plus persequitur lingua adulatoris, quam manus persecutoris". Há dois tipos de inimigos: os que perseguem e os que adulam. É preciso temer mais a língua dos aduladores do que a mão dos perseguidores. Estou com Agostinho, como sempre. Ou os "investidores" dizem que diabo de agenda é esta que seria mais compatível com Alckmin do que com Serra ou terei de concluir que se trata de inimigos do governador tentando adulá-lo na esperança de eleger um Bel'Antonio. Espero que Alckmin não caia nessa esparrela.

Eu concordo com Lisa Schineller. Também acho que não há motivos para temer Serra ou Alckmin. Eu continuo sem entender é por que alguém que fosse mais "favorável ao setor industrial" deveria ser visto com reservas adicionais. Ou será que se está, no fim das contas, falando de outro assunto? Ou será que, ao se apontar este, como chamarei?, "virtuoso defeito", se está pretendendo assegurar uma outra agenda que não ousa dizer seu nome, com a qual, quero crer, Alckmin também não concorda?

Seja como for, Wall Street avaliou que teremos uma eleição sem o risco de 2002. É a prova inconteste de que o PT foi derrotado. Assim, o debate fica melhor e mais claro. Acrescento à minha frase polêmica um complemento. Escrevi certa feita: "Tudo o que é ruim para o PT é bom para o Brasil". Mas nem tudo o que não é PT é necessariamente bom para o Brasil.

[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 13 de novembro de 2005.

Arquivo do blog