| Tereza Cruvinel - Crise e economia |
| Panorama Político |
| O Globo |
| 8/11/2005 |
Proseando com Bush no domingo, o presidente Lula disse-lhe, entre uma picanha e uma costela, que a crise doméstica não está afetando a economia brasileira. É fato. Embutido nesta afirmação está o cálculo de que pode se reeleger neutralizando o ácido da denúncias e o sentimento de traição de boa parte dos eleitores com os bons resultados econômicos, embora tenha dito ontem, na entrevista ao programa "Roda Viva", que ainda não decidiu se concorrerá ou não. O destaque da entrevista foi o reconhecimento de que o PT errou, a condenação ao caixa dois e o fato de ter respondido sem evasivas a todas as perguntas. Mas o ritmo circular desta crise, que sempre ganha combustível novo quando começa a arrefecer, recomenda cautela mesmo, ainda que no íntimo Lula pareça mais do que decidido. Da mesma forma, é cedo ainda para saber se os resultados da economia, ainda que estejamos entrando numa fase espetacular, serão suficientes para convencer o eleitorado de que vale a pena dar novo mandato a Lula apesar das denúncias de corrupção, do mensalão e dos parcos resultados em áreas como a infra-estrutura (ditada pela baixa execução orçamentária criticada por aliados, como mostrou este Panorama ontem). Mas os governistas acreditam que a economia está decolando, com o início da queda mais acentuada na taxa de juros, um crescimento mais significativo no ano que vem, a manutenção dos saldos na balança comercial e uma melhora mais significativa na oferta de emprego daqui até outubro de 2006. Os efeitos de programas sociais, como o Bolsa Família, também ajudariam a compensar a perda de popularidade e apoio eleitoral que Lula enfrenta desde agosto. Num estudo sobre a contraposição entre o escândalo e o êxito econômico, "A economia e o destino de Lula", o cientista político Walder de Góes aponta a força mas também os limites do argumento econômico. A melhora, diz ele, teria que ser muito significativa e seu impacto teria que começar a ser logo percebido. E mesmo que a crise vá se diluindo com o tempo, o noticiário já produzido voltará com força total na campanha eleitoral dos adversários. Tudo, inclusive episódios grotescos como o dos dólares na cueca e as cifras milionárias do valerioduto, será repisado com força. Se Serra já está batendo com tanta força, imagine-se quando for candidato. Revisitando as últimas eleições presidenciais, Góes afirma que a variável econômica não teve a mesma função em todas elas. Em 1994, o lançamento do Real transformou Fernando Henrique num candidato imbatível, que em poucas semanas deixaria para trás o antes favorito Lula, ganhando no primeiro turno. Já em 1998, a economia não ia nada bem, a crise internacional que vinha de 1997 afetava fortemente o Brasil, o crescimento era baixo e o desemprego crescente. "Mas a relação entre indicadores e intenção de voto, na verdade, foi inversa. Quanto mais a situação econômica piorava, mais a população temia perder o que lhe restara — a estabilidade — e decidia-se por Cardoso como uma espécie de seguro", diz o estudo. Em 1998, diz ainda, o PSDB e FH tinham o monopólio da defesa da política econômica, contra um PT que despertava grandes desconfianças. Isso não existirá em 2006, depois da política de Palocci. Já em 2002, FH estava altamente desgastado, desvalorizara o Real e enfrentara o apagão energético, não tendo nada a transferir a seu candidato Serra. E a vitória correu para Lula. De modo que talvez o eleitorado desiludido não veja motivos para, apesar dos pecados do PT, manter Lula no governo para preservar a virtude econômica. Se o reeleger, pode também não ser por razões meramente econômicas. O resto, só com bola de cristal. A propósito da coluna de domingo, sobre a visível transformação das agências de publicidade em operadoras de desvio de recursos públicos para campanhas eleitorais, o deputado Moreira Franco nos envia sua proposta de emenda constitucional que busca exatamente dar um basta na gastança, não apenas federal, com publicidade oficial. Lembra ele que, além do desvio, há o absurdo de um país com tantas carências gastar tanto em publicidade. Lembra ainda que já ao votar a Lei das Licitações, em 1993, o legislador tentou tapar este ralo ao proibir a dispensa de licitação na contratação de agências. Mas pelo que temos visto, o jeitinho deu seu jeito. A emenda de Moreira proíbe qualquer publicidade oficial, "ressalvada a publicação de ato administrativo em órgão oficial de imprensa para produção de efeitos legais, informativos vinculados à saúde pública e a propaganda de produtos e serviços de empresas públicas e sociedades de economia mista". É hora mesmo de se discutir isso. A mesma coluna fez referência à reportagem da revista "Carta Capital" sobre um duto no governo baiano envolvendo uma agência de publicidade. O governo do estado nega que tenha havido desvio e que a Bahiatursa tenha numa conta recursos não-contabilizados. Eles não aparecem nas contas da administração direta por tratar-se de uma empresa pública. A TALIDOMIDA fez milhares de vítimas de má formação congênita nos anos 50 e 60. Com o recrudescimento da hanseníase no Brasil, a Anvisa está fazendo uma consulta pública para flexibilizar seu uso, denuncia Claudia Maximino, presidente da Associação de Parentes e Vítimas da Talidomida, que acaba de localizar em Rondônia uma criança com os quatro membros atrofiados. O pai fez tratamento de hanseníase com o remédio, apesar de proibido, e não foi informado pelos ricos. Amanhã a entidade estará no Congresso e no Ministério da Saúde denunciando esta intenção temerária. O PFL esquenta os tamborins desancando o PT hoje em seu programa televisivo. |
Entrevista:O Estado inteligente
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Tereza Cruvinel - Crise e economia
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