O GLOBO
A área destruída da floresta amazônica é igual a quatro vezes o estado de São Paulo. Quem diz é o coordenador de pesquisa do Imazon, Beto Veríssimo. O desmatamento vai provocar mudança de clima não apenas na Amazônia, mas no Brasil todo, que depende da formação de vapor d'água da floresta. Quem diz é Enéas Salati, diretor técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável.
As notícias sobre a Amazônia normalmente surpreendem. Beto Veríssimo acha que é porque o Brasil está ainda na adolescência do entendimento do que é esse vasto mistério, que temos destruído sem conhecer, apesar de guardarmos uma sensação de que é um bem tão valioso que querem nos roubar.
Esta semana na Globonews eu conversei sobre o assunto com os dois especialistas. O Imazon é uma ONG que produz informação científica para projetos de desenvolvimento sustentável na região, e a Fundação foi criada na Rio 92 e tem o apoio de 23 grandes empresas nacionais e estrangeiras para apoio a projetos de sustentabilidade.
Um dos temas do "Espaço Aberto" com Beto e Salati foi a seca, uma dessas surpresas que espanta o Brasil há semanas. Quem pensou que fosse ver rios da Amazônia secando assim de forma tão nordestina? Os cientistas não dizem que é provocado pela intervenção humana, eles têm pudores de fazer afirmações taxativas sobre fenômenos tão complexos, mas Salati, que estuda, escreve e pensa a região há mais de 30 anos, alerta que mudanças climáticas determinadas pela natureza ocorrem em câmara lenta, enquanto as produzidas pelo ser humano são aceleradas.
— A seca está sendo um alerta do que o homem pode fazer com a natureza. A tendência é que fenômenos como esses aumentem de freqüência. As mudanças naturais de clima ocorrem, mas levam séculos, milênios para se materializar, mas a mudança provocada pelo homem ocorre em décadas — diz Salati.
Tudo é vasto na Amazônia: a ignorância do Brasil a respeito da região, as ameaças que pesam sobre o país se ela continuar sendo destruída, os erros que o Brasil cometeu até o momento. É difícil saber o caminho certo. Nesse momento o PL das Florestas está na Câmara correndo risco de colapso. Para Beto Veríssimo ele é a melhor idéia que o governo já teve — e veio do governo anterior, sendo aprimorado no atual — para lidar com a questão. Salati admite que sua visão é "um bocadinho negativa".
Beto acha que é preciso uma visão realista.
— Não é politicamente viável acabar com a pecuária na região ou manter a floresta intacta. Proibir tem um limite. O modelo de desenvolvimento da Amazônia tem que seguir o modelo 4-2-4. A parte que já está desmatada (20%) deve servir para projetos como a agropecuária. É uma área do tamanho de quatro estados de São Paulo, uma área imensa; outros 40% seriam dedicados à exploração de forma sustentada de madeira e recursos florestais em regime como o previsto na Lei de Florestas (de concessão); outros 40% deveriam ser preservados mesmo, seria a Amazônia da biodiversidade, que preservaríamos até entendermos melhor toda a sua potencialidade.
Salati vê o projeto com desconfiança, menos por opinião do que por experiência, segundo contou.
— Eu vi o começo da ocupação de Rondônia. Naquela época, no regime militar, quem recebia os cem hectares para explorar assumia o compromisso de preservar 50%. E hoje a gente vai lá e vê que em uma grande parte foram desmatados 100%. Acho que tem de fazer uma coisa muito severa sobre o que não foi ainda desmatado. Precisamos fazer as leis serem respeitadas no Brasil. No espaço já desmatado, que está tudo limpo, totalmente cortado, pode-se fazer coisas como a produção de biodiesel. Nessa área tão imensa, de 600 mil km², podemos plantar para exportar e alimentar o Brasil. Não é necessário projeto algum nas partes florestadas.
O projeto vem passando por uma via-crúcis no Congresso. Na semana passada, caiu a urgência do PL no Senado, o que aumenta o risco de não tê-lo votado este ano. Na Câmara passou por 12 audiências, o relator, deputado Beto Albuquerque, incluiu 140 emendas e foi aprovado por unanimidade na Comissão Especial. O Ministério do Meio Ambiente diz que é a única forma de dar racionalidade à exploração da Amazônia. Há quem tema o início de uma lei de concessões na floresta sem que no país haja condição de se fazer cumprir as leis e os limites impostos aos projetos para a região. De qualquer maneira, o PL tem tramitado de forma sofrida no Congresso, ao sabor da crise política que domina há meses a cena política brasileira.
Há aflições menos conjunturais em relação à Amazônia. Uma é a constatação feita pelos dois entrevistados de que o Brasil não conhece a Amazônia e a está destruindo antes ainda de conhecê-la; a falta de um projeto que faça sentido para a região, o que permite o aparecimento de idéias extravagantes, como a do senador José Sarney, de sair aspergindo sobre a região novas zonas francas.
Beto Veríssimo diz que a região se ressente da falta de investimento em pesquisa, da falta de um pólo de biotecnologia que se dedique ao estudo da diversidade amazônica, e diz que nesse momento a região está chocada.
— A seca deixou a Amazônia perplexa — diz Beto.
Salati, especialista em clima, teme os efeitos do que está acontecendo lá em todo o Brasil e até na Argentina.
— O clima de todas as regiões brasileiras depende do vapor de água produzido pela floresta. O pantanal será afetado, as outras regiões serão afetadas. Há 30 anos eu achava que mudança climática seria um problema para os meus bisnetos, hoje eu estou vendo a mudança climática. Não é que o clima do planeta vai mudar, ele está mudando. Uma das razões é a destruição da Amazônia.
Entrevista:O Estado inteligente
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