"É a microeconomia", idiota
Folha de S. Paulo (11/11/05)
Tomo emprestado de um consultor político do ex-presidente Bill Clinton o título da coluna de hoje. Apenas troquei a palavra "economia" por "microeconomia". Também é diferente o público que pretendo atingir: em 1992 o alvo dessa pequena maldade era o então presidente George Bush, pai do atual primeiro mandatário norte-americano; hoje me dirijo aos membros da equipe econômica do governo Lula.
O maior desafio no entendimento das economias de mercado nestes últimos anos tem sido a adaptação dos ensinamentos dos livros-texto à nova realidade do mundo global de hoje. Ainda não existe um trabalho abrangente sobre a microeconomia do século 21. Por isso, a existência de vários "conundra", para usar uma expressão recente de Allan Greenspan.
Se essa dificuldade existe nas economias maduras, quando se trata de países emergentes as armadilhas são maiores ainda. É o caso do Brasil. Vivendo uma fase de transição, com a abertura comercial e financeira atingindo uma intensidade desconhecida por nós, brasileiros, os "conundra" estão por toda parte. Os principais estão concentrados no que os economistas chamam de microeconomia, ou seja, na forma como os mercados funcionam nesse novo ambiente. Desses, o sistema financeiro é o campo mais fértil para aqueles que procuram entender e acompanhar esses desafios.
Tomemos como exemplo a dinâmica de hoje do mercado de câmbio no Brasil. O real está submetido a mais uma onda especulativa, rompendo a incrível marca de R$ 2,20 por US$ 1 e caminhando para R$ 2,00. Isso apesar de o Banco Central estar comprando todo o excesso de dólares gerados no mercado de câmbio pelos saldos nas transações comerciais e financeiras com o resto do mundo.
Aqui, a primeira observação para o leitor: a especulação vem sendo feita no mercado de derivativos, ou seja, do dólar virtual. Ora, o Banco Central e a equipe econômica impuseram-se uma disciplina franciscana de não operar com derivativos, como o "swap" entre correção cambial e CDI. Seguem assim os ensinamentos dos livros-texto do século passado. Mas, com isso, deixam livre o caminho para os especuladores.
A política atual vai mais longe na criação de um ambiente ideal para a especulação com o real: além de reduzir os riscos na troca de dólares imaginários por reais virtuais ao não operar com derivativos, o Banco Central viabiliza essa operação tomando recursos no mercado a juros reais de mais de 12% ao ano.
Mas há outro fator, mais difícil de ser entendido, e que tem alimentado o apetite de investidores internacionais. Com a redução do risco Brasil, o que se pode ganhar nessa brincadeira fica a cada dia mais seguro. Ou seja, o juro real percebido no Brasil aumenta pelo simples fato de que os riscos associados à continuidade da bonança cambial, estimulada por dólares de verdade, estão diminuindo. Com a melhora continuada de nossa condição externa e a diminuição do risco associado à nossa economia, o número de especuladores aumenta dia a dia.
Pior ainda. Com o Banco Central comprando dólares no mercado "spot", nossas reservas aumentam e levam a uma nova rodada de redução do risco Brasil, fazendo crescer ainda mais o apetite do especulador.
Já vivemos na década passada os problemas gerados pela taxa de câmbio fixa. Hoje estamos vivenciando os riscos de uma taxa de juros em desalinho com a do mercado internacional e percebida como fixa pelos mercados. Os juros de um ano no Brasil, operados no mercado de "swap", estão hoje em 17,2%. Descontada a inflação prevista pelo mercado para um ano à frente, chegamos à incrível taxa anual de 12% para 2006 todo.
Essa sensação é reforçada quando o governo e os economistas de corte ortodoxo que o apóiam dizem que o limite do juro real no Brasil é de 10% ao ano. A cada rodada de aumento na confiança, mais apetitosa fica essa operação chamada pelo mercado de "carry trade". Uma verdadeira rosca sem fim, com um final que todos conhecem.