"Lula prova, mais uma vez, seu autismo em relação à crise", diz presidente da OAB
Roberto Busato explica por que o Conselho da Ordem não aceitou o pedido de impeachment do presidente Lula
GRAZIELA SALOMÃO PEIXE
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| O presidente Roberto Busato |
O Conselho da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) rejeitou nesta última segunda-feira, 07 de novembro, a proposta de pedir imediatamente o impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A autora do pedido, Elenice Carille, conselheira pelo Mato Grosso do Sul, reforça que a negativa de Lula perante os escândalos de corrupção em seu governo é uma postura grave que já poderia levar este pedido adiante.
Entretanto, a maioria das delegações dos 22 Estados brasileiros que participam do Conselho achou que o momento ainda não seria o adequado para tramitar um processo de impeachment de Lula. O presidente da OAB nacional, Roberto Busato, acredita que seja necessária a confirmação dos fatos, antes de se transcorrer com o impeachment.
Busato salientou, ainda, a forte popularidade de Lula perante a população por causa de seu passado político e da falta de força da oposição. Em entrevista a ÉPOCA Online, Roberto Busato explicou a postura da instituição perante a crise política, comentou a popularidade de Lula e ressaltou as medidas que a OAB tomará caso os esquemas de corrupção sejam confirmados.
ÉPOCA Online - A conselheira pelo Mato Grosso do Sul, Elenice Carille, levantou a proposta de pedir o impeachment do presidente Lula, avaliando que é grave a postura do presidente em negar as 'evidentes práticas de esquemas de propinas'. Na opinião do senhor, esse já seria um argumento forte para o pedido de impeachment do presidente?
Roberto Busato - Eu acho que é suficientemente forte para você se debruçar sobre o assunto impeachment porque evidentemente estamos, dentro da Ordem, falando em tese. Agora, se os fatos que vieram à tona nos últimos dias forem confirmados, principalmente no aspecto da denúncia da CPI em relação à verba publicitária que teve desvio de finalidade e chegou até o Partido dos Trabalhadores, acredito que o processo de impeachment seja definitivo.
ÉPOCA Online - Em entrevista concedida esta semana a jornalistas de diversos veículos da imprensa, Lula continuou afirmando não acreditar na existência do mensalão. Como o senhor avalia essa afirmativa?
Busato - Essa afirmação do presidente da República é lamentável. Dizer que não existe mensalão é a mesma coisa que dizer que não existiram as denúncias do deputado Roberto Jefferson ou então que Delúbio Soares não praticou nenhuma irregularidade. Essa posição do presidente se configura como um agravante à crise. Ele, mais uma vez, prova um autismo em relação à grave situação em que foi colocado seu governo com práticas desairosas à ética republicana.
ÉPOCA Online - O Conselho da OAB deve rever o pedido de impeachment de Lula?
Busato - A crise política do país vem à baila em toda sessão do Conselho da Ordem desde junho, mas só agora tivemos uma posição mais concreta. Sem dúvida, no mês que vem, ela voltará à pauta de discussões.
ÉPOCA Online - Mesmo com a crise política que seu governo atravessa, o presidente Lula ainda mantém um bom índice de popularidade junto ao povo brasileiro. A que o senhor deve essa aprovação?
Busato - O presidente Lula tem um passado muito diferente do que tinha o presidente Fernando Collor na ocasião do impeachment. Lula tem uma história de pelo menos 25 anos de militância partidária, fundou o Partido dos Trabalhadores. Seus trabalhos e suas posturas até a chegada a Presidência da República criaram uma mística irrepreensível à sua figura, como uma pessoa ligada à ética, à moral e ao bem-estar do povo brasileiro. Isso lhe deu estrutura para enfrentar as denúncias de corrupção. Por outro lado, ele não encontrou na oposição a eficácia e a eficiência que o Partido dos Trabalhadores sempre teve quando exerceu esse papel. Tenho certeza de que, se a oposição tivesse a eficácia que o PT tinha enquanto oposição, o presidente Lula já teria caído.
ÉPOCA Online - O senhor acha que a crise política do governo Lula é tão ou mais grave da que aconteceu no governo do presidente Collor?
Busato - Eu acho mais grave. Aquele caso do Collor era de um grupo pequeno que assaltou o país. Aqui é uma crise institucional, sistêmica, que se erradicou em todo o governo e abalou dois poderes da República: o Executivo e o Legislativo.
![]() | ''Tenho certeza de que, se a oposição tivesse a eficácia que o PT tinha enquanto oposição, o presidente Lula já teria caído'' |
ÉPOCA Online - O senhor acha que o apoio da população seria fundamental para que um pedido de impeachment contra o presidente da República fosse levado adiante?
Busato - O apoio da população neste tipo de medida é bastante importante na medida que interfere na vontade política do próprio Congresso, que é onde acontece o julgamento.
ÉPOCA Online - Qual o objetivo da comissão criada pela OAB para acompanhar as investigações das CPIs que tramitam no Congresso?
Busato - A comissão foi criada para auxiliar o relator do processo que trata sobre a crise institucional brasileira dentro da Ordem. A missão dela é colher informações, provas, indícios que existam dentro das CPIs, ou mesmo fora delas, trazendo para a instituição os indícios que levem a entidade a tomar uma posição de forma mais segura.
ÉPOCA Online - Que conseqüências um processo de impeachment traria para o país?
Busato - O impeachment é a última alternativa. Acho que o país está maduro para interpretar positivamente essa situação que, se acontecer, será tomada porque não há moralidade e ética dentro da parte pública do país.
ÉPOCA Online - Caso o esquema de mensalão e o repasse de dinheiro do Banco do Brasil ao Partido dos Trabalhadores sejam realmente comprovados, como a OAB pretende se posicionar perante a estes fatos? Quais medidas a organização pretende adotar em relação ao presidente da República e aos deputados envolvidos no caso?
Busato - A Ordem vai manter seu papel histórico. Vamos fazer tudo aquilo que for necessário. Se houver implicação que envolva o presidente da República pode-se chegar ao ponto máximo do impeachment. A Ordem virá mostrar aquilo que sempre exigiu do presidente. Esse absoluto autismo que Lula adotou perante a crise pode ser o que nos legitime a tomar essa atitude.

