Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, novembro 10, 2005

Luiz Fernando Verissimo ‘Bagarre’




   
O GLOBO



PARIS


Eu estava em Bucareste no fim da semana passada, ouvindo as notícias dos distúrbios em Paris. Em outros tempos isso seria improvável. Notícias de revoltas populares em qualquer lugar eram proibidas nos países comunistas do leste europeu, para não darem mau exemplo. Mesmo revoltas contra o capitalismo como a de 1968 na França. Depois, o mais provável seria estar em Paris ouvindo notícias de distúrbios contra o comunismo no leste, como os que culminaram com a deposição do Ceaucescu na Romênia. Mas o tempo passa, o mundo gira e lá estava eu na Romênia neocapitalista sabendo da revolta em Paris contra — o que mesmo?


A lista de queixas e reivindicações dos atuais revoltados na França já era grande e só aumentou com o governo de direita nos últimos anos. Os muçulmanos são dez por cento da população francesa e quase cinqüenta por cento dos desempregados. São discriminados no trabalho e na sociedade e o sentimento de rejeição só aumentou com a política de tolerância zero — na prática, a idéia de que qualquer um com cara de árabe ou magrebino é um suspeito nato para a polícia — imposta pelo ministro do Interior Sarkozy, que busca um nicho político entre o conservadorismo natural dos franceses e o fascismo explícito do Le Pen.

O que se vê aqui é uma sublevação social, uma guerra de revanche contra a perseguição policial e uma represa de ressentimento racial transbordando. Sem falar nas suas implicações mais sutis, como a guerra surda entre a linha Sarkozy e a direita mais moderada no governo. Mas há quem encontre um lado bom na "bagarre". Embora novembro de 2005 pouco tenha a ver com maio de 1968, os jovens muçulmanos estão se comportando, ou se malcomportando, mais ou menos como os jovens estudantes de então. São franceses reclamando do descaso da sociedade em que vivem, que não lhes dá atenção ou oportunidade — não são insurgentes numa guerra global. Coquetel molotov não é homem-bomba. O parco consolo é que se trata de uma questão intermuros, não o capítulo francês do tal choque de civilizações. Por enquanto.

Toda a questão é a da integração dos imigrantes e de seus descendentes numa Europa que não os acomodaria mesmo se não estivesse em crise econômica. O que começou na França — afinal, a mãe dos valores republicanos e dos direitos do Homem — pode se repetir com mais violência em outros países com outras tradições e os mesmos descontentes. Nestes, como nos países comunistas do leste, em outros tempos, nenhuma notícia de revolta é boa notícia.



PARIS


Eu estava em Bucareste no fim da semana passada, ouvindo as notícias dos distúrbios em Paris. Em outros tempos isso seria improvável. Notícias de revoltas populares em qualquer lugar eram proibidas nos países comunistas do leste europeu, para não darem mau exemplo. Mesmo revoltas contra o capitalismo como a de 1968 na França. Depois, o mais provável seria estar em Paris ouvindo notícias de distúrbios contra o comunismo no leste, como os que culminaram com a deposição do Ceaucescu na Romênia. Mas o tempo passa, o mundo gira e lá estava eu na Romênia neocapitalista sabendo da revolta em Paris contra — o que mesmo?


A lista de queixas e reivindicações dos atuais revoltados na França já era grande e só aumentou com o governo de direita nos últimos anos. Os muçulmanos são dez por cento da população francesa e quase cinqüenta por cento dos desempregados. São discriminados no trabalho e na sociedade e o sentimento de rejeição só aumentou com a política de tolerância zero — na prática, a idéia de que qualquer um com cara de árabe ou magrebino é um suspeito nato para a polícia — imposta pelo ministro do Interior Sarkozy, que busca um nicho político entre o conservadorismo natural dos franceses e o fascismo explícito do Le Pen.

O que se vê aqui é uma sublevação social, uma guerra de revanche contra a perseguição policial e uma represa de ressentimento racial transbordando. Sem falar nas suas implicações mais sutis, como a guerra surda entre a linha Sarkozy e a direita mais moderada no governo. Mas há quem encontre um lado bom na "bagarre". Embora novembro de 2005 pouco tenha a ver com maio de 1968, os jovens muçulmanos estão se comportando, ou se malcomportando, mais ou menos como os jovens estudantes de então. São franceses reclamando do descaso da sociedade em que vivem, que não lhes dá atenção ou oportunidade — não são insurgentes numa guerra global. Coquetel molotov não é homem-bomba. O parco consolo é que se trata de uma questão intermuros, não o capítulo francês do tal choque de civilizações. Por enquanto.

Toda a questão é a da integração dos imigrantes e de seus descendentes numa Europa que não os acomodaria mesmo se não estivesse em crise econômica. O que começou na França — afinal, a mãe dos valores republicanos e dos direitos do Homem — pode se repetir com mais violência em outros países com outras tradições e os mesmos descontentes. Nestes, como nos países comunistas do leste, em outros tempos, nenhuma notícia de revolta é boa notícia.


Arquivo do blog