A entrevista do presidente Lula ao programa Roda Viva,da TV Cultura, foi, como se sabe, gravada no Palácio do Planalto. Não menos gravado parece ter sido o seu pronunciamento, pouco depois, em um evento em Assis, no interior paulista. Foi como se ele compactasse o que há de ter considerado a essência de sua mensagem, na sabatina a que relutantemente aceitara se submeter, para marcar a milésima emissão do consagrado programa, e em Assis tivesse apenas o trabalho de apertar a tecla play do gravador - uma rotina que se repete discurso após discurso. Não que as suas respostas aos entrevistadores já não fossem, elas mesmas, em boa medida, um replay dos bordões onipresentes em seus incessantes improvisos destinados a fazer praça de sua imaginária condição de mais operoso, compassivo e bem-sucedido governante brasileiro desde o tempo das capitanias hereditárias. E não fossem os bordões um misto de auto-endeusamento e de risonha e franca malversação dos fatos mais notórios. A começar da inverdade de negar que seja 'da turma do eu me amo', como declarou na TV, para provável espanto dos jornalistas. Afirmações espantosas não faltaram nas respostas do presidente às cerca de 50 indagações e réplicas que ouviu nos 100 minutos do programa (descontados os intervalos), cujo apresentador e pelo menos dois dos outros participantes fustigaram-no com questões contundentes sobre as denúncias de corrupção que envolvem o PT e o governo. Espantoso, por exemplo, foi Lula dizer que, sim, é responsável 'pelos fatos que escandalizam a Nação', nas palavras do entrevistador, resumindo-se essa responsabilidade, porém, a 'mandar apurar' as acusações. De espantar ainda mais foi o seu argumento para desmentir que evita a imprensa. Disse que fala diariamente - 'tem dia que eu me canso de mim mesmo' - e que as falas devem ser notícia! Peculiar, no mínimo, essa concepção segundo a qual a boa interlocução do governante com os governados, pela mídia, consiste em monologar, sem possibilidade de ser contraditado. E que dizer da mutante filosofia de Lula sobre o caixa 2? Há três meses, era apenas um pecadilho cometido 'sistematicamente no Brasil'. Agora, é 'intolerável'. Infelizmente, os entrevistadores deixaram passar o duplipensar presidencial. Nessa matéria, aliás, o presidente tomou enorme distância da realidade tida, sabida e admitida pelos dirigentes petistas caídos em desgraça Delúbio Soares e Sílvio Pereira. Disse que lhe 'cheira a fantasia' que tenha havido caixa 2 na sua campanha (só nas eleições municipais de 2004), que não pode responder pelo que Duda Mendonça admitiu à CPI dos Correios (mas justificou a decisão de rescindir os contratos da administração direta com o 'suspeito') e confundiu deliberadamente dinheiro real do PT para o PL com dinheiro fictício do PL para o PT. A tal ponto chegou a enrolação que um dos entrevistadores não se conteve e afirmou: 'A discussão não é se houve ou não caixa 2. É quanto foi.' Lula não se deu por achado, como não se daria, em outro bloco, quando um jornalista desmentiu, com fatos, a sua risível versão de que o governo jamais tentou impedir a criação da CPI dos Correios. Uma escapatória que o presidente buscou a todo momento foi a de declarar, magisterial, que não se pode condenar quem quer que seja sem provas - como se já não houvesse uma pilha de provas - inclusive flagrantes - contra os seus companheiros e como se o mesmo princípio não devesse impedi-lo de absolver de antemão os acusados, tudo reduzindo a 'denuncismo vazio'. Mensalão é 'folclore' desdenhou Lula. Fez pouco-caso da inteligência dos entrevistadores também quando falou que ainda não resolveu se concorrerá à reeleição, como se ignorassem que o substrato de todas as suas iniciativas políticas é precisamente o de mantê-lo no Planalto até 2010. Recorrendo a um velho truque de palanque, exaltou-se e qualificou com palavras duras a acusação - que jamais alguém lhe fez - de que comprara o 'Aerolula' como um bem particular. Significativamente, talvez, a esperteza o abandonou em um momento crítico. Perguntado, já no final, sobre a denúncia dos dólares de Cuba para a sua campanha, não lhe ocorreu mostrar-se indignado com a mera idéia de que o PT e o seu amigo Fidel possam ter sido cúmplices numa ilegalidade capaz de levar à cassação do partido. Disse que não podia acreditar na história apenas e tão-somente porque conhece o 'miserê' em que vive Cuba.
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Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, novembro 09, 2005
EDITORIAL DE O ESTADO DE S PAULO Um espanto de entrevista
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