Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, novembro 04, 2005

EDITORIAL DA FOLHA DE S PAULO GRAMPO NO CONGRESSO

 Parlamentares têm imunidade para dizer o que bem entenderem sem correr o risco de ter de responder em juízo por delito de opinião. Isso, no entanto, não significa que os legisladores devam abandonar a compostura e a boa educação, qualidades que faltaram aos senadores Arthur Virgílio (PSDB-AM) e Heloisa Helena (PSOL-AL) e ao deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), que ameaçaram "dar uma surra" no presidente da República. O Congresso Nacional não pode se confundir com um antro de ferrabrases em surto de incontinência verbal.
Posto isso, a suspeita de que agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) ou da Polícia Federal estariam por trás de escutas ilegais instaladas contra adversários políticos do Planalto é gravíssima e precisa ser apurada. Infelizmente, a própria natureza do delito praticado dificulta a obtenção de esclarecimentos e a reunião de provas -tendendo o assunto a ficar na esfera das suspeitas.
Não seria, porém, a primeira vez que governantes de turno se valem de estruturas e prerrogativas do Estado em favor de seus interesses. Aliás, muito da presente crise política tem origem na promiscuidade entre o público e o privado, que, sob o PT, atingiu patamares impensáveis.
Na realidade, os chamados grampos parecem ter-se tornado uma instituição nacional. Gravações telefônicas e filmagens, legais, ilegais ou "semilegais" (quando autorizadas por um juiz, mas para fim diverso do alegado pela polícia), estão na raiz de praticamente toda denúncia que vem a público. Lembre-se que, dois anos atrás, até mesmo um senador viu-se às voltas com a acusação de ter grampeado em larga escala aliados e desafetos em seu Estado. Tratava-se de Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), avô do deputado que agora ameaça surrar o presidente.
Essa intensa atividade de espionagem é, ao menos em parte, uma seqüela da ditadura militar, quando o Serviço Nacional de Informações (SNI) se tornou um ameaçador "aparelho" a fuçar a vida de todos, no pior estilo dos regimes totalitários.
A substituição do antigo órgão pela Abin foi um passo, mas o fato é que o fantasma da "comunidade de informações" ainda ronda o país -e se materializa em episódios sombrios como o que agora presenciamos.

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