Entrevista:O Estado inteligente

domingo, novembro 13, 2005

EDITORIAIS DA FOLHA DE S PAULO

REBELIÃO FRANCESA
 
A revolta de jovens suburbanos na França vai dando sinais de arrefecimento. Permanece em aberto se o declínio do movimento foi provocado por causa das duras medidas adotadas pelo governo, por natural fadiga dos manifestantes, que já transmitiram sua "mensagem", ou por uma combinação desses fatores. De toda maneira, um eventual fim próximo dos distúrbios está longe de significar que os problemas tenham sido resolvidos.
Embora todo francês soubesse que os imigrantes do norte e do oeste da África e seus descendentes vivem segregados em guetos étnicos nas periferias das grandes cidades, a rebelião parece ter sido necessária para que a França "oficial" finalmente se desse conta do potencial explosivo dessa situação. Nas últimas duas semanas, muita tinta se verteu e muitas teorias surgiram para tentar explicar as causas do fenômeno.
Evidentemente não há consenso. As interpretações vão desde a tese de que tudo não passa de delinqüência comum até análises que enfatizam questões relativas ao "choque de civilizações" e vêem no vandalismo um arremedo de terrorismo islâmico.
Muitos analistas parecem concordar que os jovens não estão queimando carros apenas porque vivem mal, mas principalmente porque não podem nutrir a esperança de um futuro melhor. Com efeito, a economia francesa vem crescendo a taxas pífias -média de 1,5% ao longo dos últimos cinco anos. O desemprego, que está na casa dos 10%, fica de duas a quatro vezes maior entre os imigrantes e seus descendentes.
Para agravar um pouco mais o quadro, a França tradicional dá repetidas mostras de que não gosta dos "árabes", no que muitas vezes é correspondida pelas comunidades de imigrantes. A insulação em guetos é não apenas física mas também moral.
O quadro piorou após o 11 de Setembro. Embora a França tenha se posicionado contra a Guerra do Iraque, é certo que aumentou a desconfiança em relação aos árabes, não apenas a do francês "comum" mas também a da polícia, que, aliás, já dispensava tratamento "especial" a esses jovens. Se havia um vetor racista em cena, ele se acentuou.
Não é um acaso que a revolta tenha sido deflagrada pela morte acidental de dois rapazes de origem magrebina que procuravam fugir de policiais.
É uma associação de falta de perspectivas e sentimento de exclusão que parece se constituir no principal motor da revolta. Embora, obviamente, também existam franceses pobres e com poucas chances de subir na escala social, há no caso da juventude das periferias um histórico étnico e cultural comum que os diferencia e congrega -eles que, mesmo gozando da cidadania francesa, não a experimentam plenamente. À diferença de alguns países, como o Brasil, na Europa a integração das comunidades de imigrantes é, de um modo geral, mais conflituosa e lenta.
É difícil não ouvir nessas manifestações o grito de quem se sente condenado a viver para sempre nas franjas da República. Encontrar formas de oferecer trabalho e perspectivas de ascensão social a esses setores da população é fundamental. Mas apenas isso não basta. Um longo caminho terá de ser percorrido até que os dois "lados" se reconheçam como parte de uma mesma nação.

RISCOS NO CÂMBIO

A despeito dos leilões promovidos pelo Banco Central para a compra de dólares no mercado de câmbio, a cotação da moeda norte-americana continua em queda. A valorização do real, que já ultrapassa os 18% no ano, está associada a fatores como o elevado superávit comercial, que amplia a oferta de moeda estrangeira, os movimentos de investidores atraídos pelos elevados juros pagos pelo país e as captações realizadas no exterior, como fez recentemente o Tesouro Nacional, aproveitando-se da onda de otimismo em torno dos títulos da dívida brasileira. São situações que limitam os efeitos das aquisições de dólares pelo BC.
Nesse quadro, delineiam-se problemas para a economia brasileira que se podem agravar caso a taxa de câmbio permaneça por tempo mais longo nos atuais patamares. Há indicações, por exemplo, de que as importações já começam a competir com a produção doméstica.
Com efeito, no terceiro trimestre deste ano, a produção brasileira de insumos recuou 0,7%, enquanto o volume de bens intermediários importados aumentou 1,9%. No setor de bens de capital, as importações subiram 2,8%, contra um aumento de 0,5% da produção interna. No que tange às exportações, embora a forte expansão do comércio internacional e a elevação de alguns preços internacionais venham assegurando resultados bastante positivos, a perda de rentabilidade e competitividade de alguns setores é preocupante.
Embora as autoridades econômicas transmitam a idéia de que não há nada a fazer além de esperar a correção das distorções por obra da "mão invisível" do mercado, a realidade é que alguns instrumentos poderiam ser acionados com vistas a conter a expressiva valorização do real.
Além da redução mais acelerada da taxa básica de juros, não se pode descartar uma medida clássica, adotada por diversos países, que é a aplicação de um imposto sobre operações financeiras externas. Esse recurso, utilizado no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, é uma maneira de regular o fluxo de capitais de curto prazo. Outra possibilidade é aumentar as margens exigidas para as operações com derivativos na Bolsa de Mercadorias & Futuros a fim de controlar transações de caráter mais especulativo.
Infelizmente, a incondicional adesão do Ministério da Fazenda a dogmas ultraliberais vem se traduzindo, na prática, na abdicação do exercício da política econômica, que hoje se resume quase que exclusivamente a mudanças na taxa básica de juros e a cortes de investimentos públicos para assegurar os objetivos fiscais do setor público. Em parte, essa realidade é fruto do que se poderia chamar de custo PT, ou seja, da necessidade de o governo Luiz Inácio Lula da Silva pagar mais caro pela confiança dos mercados depois de anos de bravatas e ameaças de ruptura.



Arquivo do blog