Entrevista:O Estado inteligente

domingo, novembro 06, 2005

CLÓVIS ROSSI O cru e o morno

FSP
MAR DEL PLATA - Crua descrição do presidente argentino Néstor Kirchner para sua conversa de sexta-feira com George Walker Bush: "Tivemos uma reunião muito clara, sincera, crua", na qual cada um disse suas "verdades relativas".
Deve ter sido tão malpassada que, no discurso de abertura da 4ª Cúpula das Américas, horas depois, Kirchner fez as mais duras críticas de um governante latino-americano aos Estados Unidos, na presença de um presidente norte-americano, na memória recente da região.
Teve o topete de lembrar que os Estados Unidos apoiaram políticas que "causaram miséria, pobreza e instabilidade democrática". Nesse ponto, a verdade não é "relativa", mas absoluta. A Argentina é um bom exemplo: os Estados Unidos apoiaram uma ditadura genocida (1976/1983), que saqueou o país, matou, torturou, exilou e fez desaparecer pessoas.
Depois, voltaram a apoiar uma política econômica ensandecida, a do câmbio fixo, que completou a ruína.
Kirchner não poupou os organismos financeiros internacionais, a ponto de ter cobrado um Gabriel García Márquez e seu "realismo mágico" para explicar como o FMI sustentou a política que arruinou a Argentina e agora nega-se a refinanciar as dívidas do país, impondo, ao contrário, "as mesmas condições que levaram ao default" (calote).
Para surpresa dos que acham que diplomacia é usar veludo nas frases para não ferir ouvidos suscetíveis, Bush não esbofeteou Kirchner nem mandou os "marines" desembarcarem em Mar del Plata. Ao contrário: declarou-se "assombrado" com o fato de o país ter conseguido renegociar a sua dívida depois do calote, coisa que ele, Bush, não esperava, conforme confessou.
Muito bem. Hoje, é a vez de Bush ouvir de Luiz Inácio Lula da Silva as suas "verdades relativas". Lula conseguirá ser tão "cru" como Kirchner? Ou será que o presidente brasileiro ficou tão morno que perdeu até suas "verdades relativas"?

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