Entrevista:O Estado inteligente

sábado, novembro 12, 2005

CLÓVIS ROSSI As roupas e o gogó do rei

FSP
SÃO PAULO - Era uma vez um rei que saiu nu às ruas, mas que contava aos cidadãos que estava vestido de ouro (superávit primário, juros altos) e prata (combate à inflação). Longa vida tiveram as vestes do rei. Tanto que foi morto, por desgaste do material, e foi substituído por um inimigo, que criticava suas vestes, mas, mal assumiu, vestiu-as com pompa. E passou a gabar-se delas, a ponto de dezenas, centenas de vezes, ter gritado que não cometeria a aventura de trocar de roupa.
E o reino foi vivendo sua mofina vida, aqui e ali abalada por tsunamis de lama, que Deus o poupara dos tsunamis de verdade. Com a cultura predominante no reino, eram dispensáveis. Bastavam os de lama para afundá-lo e desmoralizá-lo.
Um dia, uma amiga do rei gritou, para horror dos que preferem não ver: o rei está nu.
Grande novidade, pensou a meia dúzia de três ou quatro que sempre apontara a nudez do rei, apenas para serem chamados de jurássicos e neobobos, desde o reinado do rei anterior, que, aliás, vive feliz da vida porque suas roupas, tão criticadas pelo novo rei quando não era rei, passaram a ser de rigor e deixaram de ser neoliberais para serem progressistas e até "people-friendly", como manda a novilíngua do reino.
O que faz o rei quando sua amiga diz que ele está nu? Nada. Apenas chama o alfaiate da roupa de sempre e a amiga que não a vê e manda que parem de brigar em público.
Ou, bem de acordo com os costumes ancestrais do reino, faz caixa dois: numa caixa, a roupa que não é roupa, mas é a única que o rei sabe vestir e a única que o alfaiate de plantão sabe fazer; na outra caixa, a convicção de que, se o rei está nu, sua turma é incapaz de costurar uma nova roupa que sirva aos diferentes interesses dos súditos. Quer dizer, dos súditos que pesam na vida do reino, porque, para a patuléia, a roupa sempre foi o "sopão dos pobres", claro que com nomes mais finos. No gogó, os reis, o velho e o novo, são imbatíveis.

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