Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, novembro 08, 2005

Celso Ming - Hora da verdade




O Estado de S. Paulo
8/11/2005

Em outubro, o Banco Central comprou US$ 3,6 bilhões no câmbio interno e, apenas nos quatro primeiros dias úteis de novembro (ontem inclusive), comprou mais de US$ 1 bilhão.

Apesar dessa atuação agressiva, as cotações do dólar não param de cair. Ontem, o Banco Central comprou a R$ 2,1995 e as cotações do fechamento ficaram em R$ 2,2030 por dólar, queda de 2,17% em relação às do final de outubro e 18,9% mais baixas do que em meados de março, o pico deste ano.

As receitas com exportações continuam fortes. Ontem, o Ministério do Desenvolvimento divulgou os resultados da primeira semana de novembro, que teve dois dias úteis a menos (começou na terça-feira e teve um feriado). Mesmo assim, as exportações ultrapassaram os US$ 2 bilhões e produziram saldo positivo de US$ 889 milhões. Isso indica que o despejo de dólares no câmbio interno pelos exportadores deve continuar forte, concorrendo assim para a derrubada.

Ninguém no Banco Central admite que os dólares são comprados para impedir a excessiva valorização do real (queda das cotações do dólar). Ao contrário, as autoridades insistem em que estão só recompondo reservas.

Ocorre que vão diminuindo as justificativas técnicas para seguir nessa escalada e as autoridades do Banco Central vão passando a impressão de que não dizem a verdade, o que é grave numa instituição em que a credibilidade é absolutamente vital.

As reservas externas líquidas já estão se aproximando dos US$ 50 bilhões. Nesse ritmo de aquisição de dólares, em fevereiro já estarão nos US$ 60 bilhões, o correspondente a dez meses de importação, o que, no regime de câmbio flutuante, parece mais do que suficiente.

Como já foi dito nesta coluna no dia 26 de outubro, essas compras exigem duas contrapartidas fiscais. Primeiramente, exigem que o Banco Central emita títulos para retirar do mercado os reais que dá em pagamento por esses dólares, de maneira a que não produzam excessiva liquidez. Em segundo lugar, impõe perdas com juros: se o Banco Central retém mais dólares, receberá pela aplicação desses dólares três vezes menos juros do que os que paga nos títulos que emite para financiar a operação de compra de dólares. Nas posições de hoje, o Banco Central deve estar perdendo mais do que US$ 6 bilhões por ano.

Se as razões para seguir aumentando as reservas de maneira a garantir segurança externa já não existem mais, é preciso perguntar qual será a política daqui para frente, uma vez admitido que, do ponto de vista meramente fiscal, não convém seguir acumulando reservas.

Se insistir nas compras, o Banco Central estará mostrando que seu verdadeiro objetivo não é engrossar as reservas, mas impedir a derrocada do dólar no câmbio interno. Nesse caso, estará acenando com uma meta de preço, algo até agora peremptoriamente negado.

O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola diz que, se for para impedir a queda maior do dólar, é recomendável que o Banco Central tome outras providências: recompre dívida externa (em dólares) ou derrube mais rapidamente os juros, para reduzir a movimentação de arbitragem do mercado financeiro com juros. Essa operação consiste em assumir uma dívida em moeda estrangeira para com o dinheiro assim obtido aumentar as posições em títulos de dívida brasileira. A vantagem consiste em aproveitar a diferença com os juros reais, que hoje são de cerca de 8% ao ano.

Com a queda dos juros, a partir de setembro seria de esperar que essas operações de arbitragem estivessem diminuindo e, nessas condições, tivessem ajudado a conter a baixa do dólar. Não é o que está acontecendo.

De todo modo, para o Banco Central parece próxima a hora da verdade cambial.

ming@estado.com.br

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