Entrevista:O Estado inteligente

domingo, novembro 13, 2005

ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES O eterno jogo de empurra

FSP

 Há muito tempo não encontrava o Matias, fazendeiro aplicado, que trabalha de sol a sol em sua propriedade no interior de São Paulo. Amigo de velhos tempos. Gosto de conversar com ele sobre agricultura e o futuro promissor deste país.
Logo após a visita do presidente George W. Bush a Brasília, ele me telefonou para dizer o seguinte: "Antonio, nunca vi tanta hipocrisia cercada de tanta diplomacia". Essa foi a classificação que deu à conversa do presidente norte-americano com o presidente brasileiro.
Lula, com toda razão, argumentou que uma cooperação leal e democrática entre Brasil e Estados Unidos depende não apenas de retórica mas de atos concretos, sendo que o principal deles seria a eliminação dos subsídios à agricultura americana, que somam mais de US$ 200 bilhões por ano.
Balançando a cabeça e concordando com o argumento enquanto o presidente Lula falava, o presidente Bush saiu com a mesma história de sempre: "O Brasil tem toda a razão, e os Estados Unidos estão dispostos a reduzir drasticamente os subsídios agrícolas no momento em que a União Européia assim o fizer".
Apesar de conhecer a resposta, o Matias não se conformou, pois está cansado de saber que as resistências da União Européia, em especial da França, são monumentais. Elas constituem uma verdadeira âncora para Bush dizer o que disse.
Só me restou concordar com o Matias. Trata-se de um jogo de empurra-empurra. A União Européia gasta quase US$ 150 bilhões de dólares por ano com subsídios à agricultura, o que, junto com os Estados Unidos, chega a US$ 350 bilhões anuais, ou seja, quase US$ 1 bilhão por dia.
Há questão de dois anos, comentei nesta coluna uma bela fotomontagem do jornal "European Global Business" (9/7/2003) que mostrou um grupo de vacas pastando no rico gramado da Torre Eiffel com os seguintes dizeres: "Na França, a vaca é sagrada".
De fato, muitos produtores franceses têm subsídios para não produzir -um absurdo em um mundo onde há tanta fome e onde há um país como o Brasil, que é reconhecido mundialmente como capaz de produzir com alta produtividade e baixos preços. Basta ver a bela reportagem do "The Economist" desta semana sobre o sucesso da agricultura brasileira.
O presidente Bush sabe que a União Européia não vai ceder tão cedo. "Parece que está tudo orquestrado", afirmou Matias. Ele tem razão. Quando se apertam os europeus com o argumento de Bush, eles logo pedem que a conta seja repartida com os grandes produtores do mundo agrícola, em especial o Brasil. Isso irrita o Matias e todos os brasileiros. Afinal, o que nós temos a ver com a ineficiência dos produtores europeus? Esse é o liberalismo econômico que os países desenvolvidos querem?
Parece que a Organização Mundial do Comércio terá de entrar com força nesse impasse. Pascal Lamy, em nome do respeito aos integrantes do órgão que preside, terá de considerar que, além de francês, exerce um cargo de responsabilidade mundial. Chegou a hora de dizer: basta de manobras!

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