Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, abril 06, 2005

Folha de S.Paulo - LUÍS NASSIFf: Visões do papado - 06/04/2005


Periodicamente , converso com um sábio recluso, conhecedor profundo da história e da economia. É dele a avaliação sobre o papado de João Paulo 2º, a propósito de minha coluna de ontem, como contraponto necessário às justas homenagens que o pontífice vem recebendo:
"Considero João Paulo 2º no grupo dos personagens equívocos da história contemporânea, porque não se depreende de sua biografia uma missão definitiva, um sentido finalístico projetando sua figura contra o pano de fundo dos acontecimentos".
"Nessa categoria estiveram outros grandes vultos, que não deixaram um legado filosófico, doutrinário ou missionário, como Napoleão 3º (Luis Bonaparte), o marechal Petain, o rei Vittorio Emmanuele 3º, da Itália mussoliniana, e naturalmente aquele que mais se aproximou do papa João Paulo 2º como parceiro na história dos anos 90, Mikhail Gorbatchov."
"A origem polonesa de João Paulo 2º tem muito a ver com sua trajetória. A Polônia foi sempre um país equívoco na história. Prensada há séculos entre três hegemonias européias, a alemã, a austríaca e a russa, muito antes do comunismo e do nazismo, nunca foi respeitada politicamente, por sua fragilidade estratégica."
"Fixou-se no "ethos" polonês a idéia de que os Estados Unidos foram o seu único país amigo na era moderna, não só pela recepção de tantos imigrantes deslocados mas também pelo papel decisivo do presidente Wilson na criação da Polônia moderna, após 130 anos de domínio russo, alemão e austro-húngaro."
"Do ponto de vista político, João Paulo 2º foi um fiel aliado dos Estados Unidos, de Israel e do processo de globalização, portanto um líder a favor do establishment que nem com muito boa vontade pode-se dizer que fez algo pelos 5 bilhões de excluídos do planeta."
"A beatificação de Madre Teresa de Calcutá foi um gesto simbólico de escasso valor prático, uma espécie de salvo-conduto para o continuo apoio às forças mais reacionárias dos anos neoliberais."
"Quanto ao seu papel real no fim da Guerra Fria, há nisso evidente exagero. O fim da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), previsto por George Kennan no seu famoso "longo telegrama" de 1947, foi resultante de forças históricas incontroláveis, e não da ação de pessoas individuais. (...)"
"(...) É, todavia, no lado pastoral que a figura do papa morto se enfraquece. Com seu pontificado, a igreja regrediu para antes do Concílio Vaticano 2º, o olhar para os excluídos se fechou, uma contra-reforma interna levou ao fim dos movimentos sociais nos países emergentes e, como conseqüência, à captura de largas faixas dos rebanhos católicos pelas igrejas pentecostais, criando situações até então impensáveis, como na Guatemala, onde mais da metade da população deixou de ser católica para ser evangélica."
"(...) Foi um pontificado que pouco agregou ao capital moral e pastoral da igreja, e caberá ao sucessor de João Paulo 2º tentar recuperar esses valores perdidos dentro de uma ação mais de aparência do que de substância."

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