Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, maio 07, 2008

Personalismos


EDITORIAL
O Globo
7/5/2008

Nações politicamente maduras são as que dispõem de um arcabouço institucional consistente, e que não ficam presas, no seu dia-a-dia, ao jogo das personalidades carismáticas.

Em tempos modernos, o melhor exemplo disso é o dos Estados Unidos, cuja Constituição, inalterada, presta bons serviços desde a Declaração da Independência de 1776.

Graças a esta solidez institucional, o país pode atravessar períodos melhores ou piores, mas há sempre a certeza de que, de quatro em quatro anos, o eleitorado será chamado a opinar sobre os seus dirigentes. E desde os tempos heróicos de Franklyn D. Roosevelt, a possibilidade de reeleição foi limitada a uma única vez. É a melhor garantia de que o poder não demorará demais nas mãos de alguém.

A história da América Latina, por razões as mais diversas, não mostra a mesma regularidade. Pelo contrário: exibe uma incômoda preferência pelas situações excepcionais, pelos terremotos políticos.

Isso é compreensível, em parte, tratando-se de nações que não alcançaram ainda um desenvolvimento satisfatório, e que padecem de enormes desequilíbrios sociais.

Mas como explicar, por exemplo, o caso da Argentina, que, mal começado o século XX, já podia se considerar um país rico, com todas as chances de firmar o seu processo de crescimento econômico, social e político?

Entrou, neste cenário, o vício do personalismo, talvez resultante das nossas tradições ibéricas. O ciclo de governos iniciado por Juan Domingo Perón jogou o país no culto da personalidade, que é o contrário do avanço institucional. Tudo passa a depender de uma pessoa, das inspirações do líder, da sua comunicação direta com as massas.

Por esse vício, a Argentina paga ainda hoje um preço exorbitante. Depois de tirar o país da terrível crise política de 2001, a família Kirchner mostra-se, agora, incapaz de sair do clima emocional das lideranças individualistas. A mágica do carisma funciona por algum tempo; depois, a cobrança da realidade chega com muita força.

O presidente Lula, no auge da popularidade, não deveria perder de vista essas lições que atravessam toda a história humana. Como disse Winston Churchill, derrotado nas urnas logo depois de ganhar a II Guerra Mundial, "feliz é a nação que pode mandar, quando quiser, os seus líderes para casa". No presidencialismo, a garantia de que isso é possível é a limitação de mandatos.

Arquivo do blog