Na semana que, felizmente, termina hoje, um acidente aéreo voltou a preencher páginas e horas infinitas do noticiário. Para quem perdeu alguém assim, como é o meu caso, cansa, exaure, deprime. Para os que perderam neste vôo, desespera. O debate estéril entre os “a favor” e os “contra” o governo enerva. Muitos cobram do governo uma atitude, apontando falhas no estranho sistema múltiplo de gestão. Acusá-los de uma ação orquestrada para desabonar o governo é, no mínimo, um sinal de mediocridade e desrespeito à memória das vítimas.
Quanto aos gestos, nem se fala.
Há momentos, como agora, em que a única solução é achar solução.
Tinham se passado nove meses e dezoito dias quando, novamente, recebi um e-mail que tratava de um acidente de avião. Achei que não teria que me deparar com isso, pelo menos nos próximos dez anos. De preferência, pela vida toda. Mas não foi possível.
Até hoje tenho guardado o primeiro e-mail que recebi com a notícia do desaparecimento do avião da Gol, quando não tinha certeza sequer de que meu pai estava nele.
No dia 29 de setembro, liguei correndo para a minha mãe. Não sabía mos o vôo em que ele vinha de Manaus.
Começou aí. Ligações, esperança, desespero. Fomos para o aeroporto, onde aguardamos a lista por algumas horas. Sou capaz de sentir com clareza a angústia daqueles momentos, de tão forte que foi. São horas em que torcemos para o inusitado, até a lista alcançar o nome.
No dia seguinte, tornamo-nos vítimas da múltipla desorganização do sistema em meio a uma multidão de notícias truncadas, quando Anac, Infraero, Ministério da Defesa e Aeronáutica não conseguiam concordar com absolutamente nenhuma informação relativa a sobreviventes ou localização da aeronave. Quase dez meses depois, a vida segue, é verdade, mas com tons acinzentados. Assim será também para tantas famílias vítimas de semelhante tragédia pessoal.
Um acidente é um acidente. Mas certas tragédias parecem ser anunciadas ou, ao menos, indicadas muito antes. E que atire a primeira pedra quem é capaz de dizer que vinha voando “relaxado” nos últimos dez meses. Posso estar enganada, mas não acredito em simples acidentes quando se trata de um intervalo de 10 meses entre um evento e outro. Se considerarmos este ano e apenas o acidente da Gol, são 371 mortos por tragédias aéreas; isso é a soma dos acidentes de 2000 a 2005 concentrada em 10 meses. É muita coisa. E a morte por atacado desespera. Mesmo que, no fim das contas, ambos os casos se tratem de problemas mecânicos, que aumente a fiscalização sobre as aeronaves.
Problema mecânico conhecido não é acidente.
É comum culpar a imprensa pelas cenas, pela dor coletiva que se instaura.
Confesso: em muitos momentos a detestei, assim como o jornalismo — ofício por que sou apaixonada desde a infância —, mas, em boa parte dos casos, ela estava fazendo o seu papel de informar, de pressionar as autoridades em defesa dos direitos de todos.
O debate, ou pelo menos parte dele, está indo por um caminho muito perigoso e pequeno, que ofende a todos nós, os que sobrevivemos. O risco é ficar a discussão pela discussão, com quem é contra o governo misturando Renan Calheiros a problema de gestão e quem é a favor dizendo que o que há agora é uma exploração da mídia quanto ao sofrimento alheio para atingir o governo. Se o nível continuar esse, dificilmente o debate será concluído a tempo de evitar novos problemas, sejam eles da magnitude que forem. Há momentos — e a dor da perda ensina muito isso — em que é preciso olhar para frente e tomar atitudes para que o mal não se repita.
Por uma questão de sobrevivência.
Quando ocorreu o acidente da Gol, prontamente se procuraram culpados.
Nada melhor que dois americanos, os pilotos do Legacy. Agora, temos a pista e o reverso. Meu avô, piloto de outrora, ensinou-me que acidentes aéreos não acontecem por apenas um motivo. É sempre por um conjunto. Acredito nele.
Neste caso, não pela idade, mas pela experiência.
Nos últimos tempos, viramos todos especialistas em acidentes aéreos.
Não o somos. Acidentes graves, com conseqüências gravíssimas, pedem especialistas de verdade, análise profunda, investigação. Não apenas para indicar os culpados, mas para, a partir disso, encontrar soluções, evitar novos erros e novas dores.
A crise aérea que se instaurou desde aquilo que muitos vêem como o “acidente da Gol” — e eu vejo como a morte de parte da minha alegria — pode ter a causa que for; pode mesmo ter aparecido porque a economia do país vai bem e mais gente agora pode voar, mas ela precisa de soluções. Quando pequena, meu pai, toda vez que nos dava uma notícia ruim , dizia: “A única coisa para que não há solução é a morte.
Com o resto, a gente lida.”
Entrevista:O Estado inteligente
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