sexta-feira, janeiro 12, 2007

Quem se responsabiliza? Barbara Gancia



Artigo -
Folha de S. Paulo
12/1/2007

Se as obras do Pan custassem o dobro, já seria um disparate. Mas que custem dez vezes mais chega a ser pornografia

ERA PREVISÍVEL que fosse acontecer. Na última sexta, o governo federal liberou R$ 467 milhões (foi isso mesmo que você leu, não está faltando nenhuma vírgula) de verba extra para os Jogos Pan-Americanos do Rio.
Há atrasos nos cronogramas da maioria das obras. Para concluir a reforma do complexo do Maracanã, por exemplo, ainda estão faltando R$ 84 milhões. Só agora as fundações do estádio João Havelange começam a ser erguidas, e as obras na Marina da Glória também estão em ritmo Dorival Caymmi, ou seja, devagar, quase parando. Eu sempre disse aqui neste espaço que país de dólares na cueca, de sanguessugas e que usa seu superávit para pagar juros não pode vislumbrar ser sede de Olimpíada, Pan ou Copa. Mas vá tentar conter o entusiasmo dos que têm a ganhar com "obra$" do vulto das que estão sendo realizadas no Rio, não é mesmo?
Para se ter uma idéia do tamanho da encrenca, basta dizer que, até agora, o governo federal já repassou mais de R$ 1,284 bilhão ao Pan. Isso significa que já se gastou quase dez vezes mais do que o valor orçado no projeto inicial, de R$ 135 milhões. É de se perguntar quem foi o autor do projeto e quem é que vai se responsabilizar. Que as obras tivessem custado o dobro do que foi calculado inicialmente, já seria um disparate.
Mas que custem DEZ vezes mais do que isso chega a ser pornografia. Pois eu pergunto: quem se responsabiliza? Quem errou o cálculo? O governo do Rio? A prefeitura carioca? O senhor Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, o Comitê Olímpico Brasileiro? Alguém tem de ser demitido de forma sumária.
O nobre leitor por acaso se lembra da pantomima ocorrida quando da última tentativa frustrada de apresentar ao COI (Comitê Olímpico Internacional) o projeto de uma Olimpíada no Rio? A apresentação foi tão malfeita que lá na Europa o pessoal está rindo até hoje. Pois é, se a piada não tivesse custado dinheiro do nosso bolso, sem que ninguém fosse chamado a prestar contas, nós também estaríamos gargalhando. Lembro, anos atrás, quando escrevi que a tentativa de inventar que o Brasil tinha condições de sediar uma Olimpíada não passava de golpe. À época, a mulher do ministro das Relações Exteriores escreveu uma carta ao Painel do Leitor acusando-me de falta de patriotismo.
E agora, cá estamos, a seis meses do início dos jogos, com o cronograma atrasado, com verbas extras para a segurança do evento sendo inventadas de última hora (ué, por acaso não se sabia que a segurança no Rio seria uma questão-chave e para lá de complexa?) e com dinheiro da Petrobrás, da Caixa Econômica e dos Correios tendo de ser injetado às pressas no evento.
Vale lembrar que estamos no país em que uma única passagem subterrânea de pouco mais de 3 km, na região central de São Paulo, acabou custando mais do que o túnel que atravessa o canal da Mancha. Ninguém tem nada contra eventos que dêem destaque à nossa terra. Mas R$ 1,284 bilhão (por enquanto) é dinheiro que não acaba mais. Para um país quebrado como o nosso, é tutu que faz uma falta danada em obras de infra-estrutura ou emergenciais, na saúde, na educação e na segurança.

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