Entrevista:O Estado inteligente

sábado, junho 03, 2006

VEJA Entrevista: Geraldo Alckmin


"Lula é cara-de-pau"

O candidato tucano ataca o presidente,
admite "falha parcial" na sua campanha
e diz que os petistas estão "de salto 15"


Thaís Oyama


Lailson Santos

"Sinto que o povo está indignado. É uma coisa ainda silenciosa, mas que vai explodir na campanha"

O candidato do PSDB à Presidência da República orgulha-se de ser um homem simples. Prefere um fim de semana em seu sítio em Pindamonhangaba (cidade no interior de São Paulo, onde nasceu) a uma temporada na Europa, carrega a própria maleta nas viagens e cultiva hábitos também simplíssimos de lazer: apreciador de best-sellers (o último livro que leu foi Quando Nietzsche Chorou), trocou recentemente as palavras cruzadas pelo sudoku, espécie de quebra-cabeça numérico com o qual se entretém, sistematicamente, todas as noites antes de dormir. Geraldo Alckmin, 53 anos, é também um otimista. Afirma que a campanha ainda não começou e que os petistas estão comemorando cedo demais os bons índices do presidente Lula nas pesquisas. Em entrevista a VEJA – dada a bordo do avião do presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati –, Alckmin disse que, em caso de vitória, será duro com os sem-terra, acabará com a "besteira" da diplomacia Sul-Sul e não participará de acordos visando a proteger de investigação aliados ou parentes: "Comigo, não tem acordo".

Veja – Desde o lançamento de sua pré-candidatura, a distância entre o senhor e o presidente Lula nas pesquisas aumentou de 16 para 21 pontos porcentuais. A que atribui isso?
Alckmin – As pessoas se impressionam muito com pesquisa. Pela série histórica, a situação não mudou. Estou tranqüilo: treino é treino, jogo é jogo. Jogo é 15 de agosto, que é quando começa o horário eleitoral.

Veja – Treinos também servem para identificar falhas. Quais o senhor detectou até agora na sua campanha?
Alckmin – A sintonia do time, eu diria que foi uma dificuldade. Mas é porque esta é uma fase de acomodação interna. Na hora em que começar a campanha, toda a energia da equipe vai se concentrar nela.

Veja – Essa teria sido a única falha?
Alckmin – Houve desafios. Mas falhas...

Veja – Posso lembrar algumas que vêm sendo comentadas?
Alckmin – Claro.

Veja A aposta inicial no Nordeste, onde Lula tem 60%, por exemplo. Um investimento no Sul e Sudeste, Minas Gerais em particular, não teria sido mais proveitoso?
Alckmin – Isso foi uma falha parcial. Esses números do Lula no Nordeste são extremamente frágeis. Durarão o tempo que a informação demorar para chegar. Mas eu entendo que distribuir melhor as viagens é correto. Foi uma falha parcial.

Veja – Outra falha apontada com freqüência: a opção por um discurso genérico em detrimento de outro, focado na crise moral e ética que o país viveu no último ano. Essa não deveria ter sido desde o início a tônica da sua campanha?
Alckmin – Isso vai acontecer. Mas eu sou cauteloso. Política é convencimento. É ganhar confiança. É muito pouco eu ser o anti-Lula. Quero apresentar um projeto para o país centrado no crescimento. Claro que ao longo da campanha vai haver reparos. Agora, eu nunca vi ninguém ganhar eleição falando mal do outro.

VejaNão me refiro a uma questão apenas estratégica, mas de princípios. O senhor acha possível postular o cargo de presidente da República sem abordar a crise ética do país?
Alckmin – Mas isso nós temos falado. Entendo que a população já está consciente. Eu ando nas ruas e sinto que o povo está indignado. Quando chegar a campanha eleitoral, isso vai explodir. Acho que nós vamos ter nessa campanha uma quantidade de trabalho voluntário impressionante. Eu sinto isso. É uma coisa ainda silenciosa, mas que vai explodir. A questão dos princípios e dos valores é essencial. Mesmo porque a lambança foi geral, não foi um caso isolado. Para onde você olha, há desvio de dinheiro público. Então, essa vai ser a campanha dos princípios e dos valores. É que ela ainda não começou.

VejaTambém se ouve dizer que sua campanha padece de amadorismo, que mais parece uma campanha para prefeito do que para presidente.
Alckmin – Quando concorri ao governo de São Paulo, foi a mesma coisa. Diziam que a campanha era pobre, que não tinha equipe, material. Esse é o meu jeito e eu não vou mudar. A minha campanha de deputado foi feita por mim e pela Lu (sua mulher, Lu Alckmin). Viajamos num Fiat 147 que ela dirigia porque eu não agüentava de cansaço. Os vícios de governo começam nas campanhas. Não é possível que não tenhamos aprendido nada com mensalão, valerioduto, caixa dois. Avião de carreira cansa um pouco mais, mas por que gastar sem necessidade?

VejaMas, depois do dia 5 de julho (início oficial da campanha), isso não vai mudar?
Alckmin – Vamos continuar com o mínimo necessário. Para ir a Brasília ou Rio de Janeiro, por exemplo, por que não usar avião de carreira? O pessoal fica estressado, ansioso. Eu dou risada. Outro dia, fui à Bahia. Estavam me esperando no aeroporto o ACM, o Paulo Souto, o Rodolpho Tourinho, o ACM Neto e o José Carlos Aleluia. O vôo atrasou e eu dei um chá-de-cadeira neles de duas horas! E não foi só isso. Quando me acompanharam no embarque de volta, o vôo estava novamente atrasado. Aí, eu apertei a mão do ACM e disse: "Bom, vamos nos despedir por aqui porque o embarque vai demorar". Ele: "Geraldo, candidato não fica sozinho em aeroporto". E ficaram todos lá, firmes, tomando mais chá-de-cadeira!

VejaO senhor tem sido visto freqüentemente sozinho em aeroportos.
Alckmin – Mas eu não ligo para isso. Quando você anda com um séquito, afasta as pessoas, fica isolado.

VejaO senhor não teme que esse tipo de economia prejudique sua campanha?
Alckmin – Bobagem. Outro dia, tinha de ir a Teresina. Saí de São Paulo às 10 da noite e cheguei a Salvador às 2 da manhã. A conexão para Fortaleza só iria sair em duas horas. O que eu fiz? Fiquei tomando café, dando autógrafos, tirando fotografia com as pessoas. Eu adoro isso. Cheguei a Fortaleza às 4h45 e o avião do Tasso já estava me esperando lá, piloto a postos, tudo certo. Antes das 6 da manhã, eu estava em Teresina.

VejaDemorou oito horas, portanto.
Alckmin – É. Mais ou menos isso.

VejaO presidente Lula tem sido, até agora, um adversário honesto?
Alckmin – O governo Lula e o PT são abusados. Toda essa publicidade, AeroLula para cá e para lá... O abuso é flagrante. Mas eu acredito que nós vamos ter uma participação muito firme do Poder Judiciário nessas eleições para coibir isso. E, depois, quando começar a campanha, fica proibida a publicidade. O tempo tem de ser igual e, aí, você sai do monólogo para o debate.

VejaNo mês passado, a Bolívia tomou a Petrobras e invadiu as instalações da empresa com seu Exército. Como o senhor teria reagido ao episódio se fosse presidente?
Alckmin – Eu teria, de cara, feito uma reprovação duríssima à atitude da Bolívia. O governo Lula foi submisso e dúbio. Colocou interesses ideológicos à frente do interesse nacional. Reprovação imediata. Não aceito rompimento de contrato. Isso é ruim para as pessoas, porque quem vai acabar pagando a conta será o povo, já que o que eles querem é aumentar o preço do gás. É ruim para a América Latina, porque cria uma insegurança jurídica que espanta novos investimentos.

VejaEm 2005, descobriu-se que a empresa do filho do presidente Lula, Lulinha, recebeu um investimento de 5,2 milhões de reais da Telemar, que tem dinheiro público em seu capital. O que o senhor teria feito no lugar do presidente?
Alckmin – Numa república, todos estão sujeitos à lei. Outro dia, eu ouvi de alguém: "Olha, não se fala da esposa do fulano". Para mim, não. Comigo, não tem acordo. Tem de investigar, investigar todo mundo.

VejaNo caso de Lulinha, não se trata propriamente de uma ilegalidade, mas de um problema ético.
Alckmin – Da mesma forma que o governo do PT não faz uma separação nítida entre partido e governo – aparelharam o Estado, criaram doze ministérios para acomodar petistas derrotados em eleições passadas –, ele também não separa o público do privado. Eu não posso dizer o que faria nessa situação, porque acho que essa situação não chegaria a ter acontecido comigo.

VejaSua mulher, Lu Alckmin, aceitou vestidos doados por um estilista. O que o senhor achou disso?
Alckmin – A Maria Lúcia é a melhor parte da minha família. Eu fui um pai mais ausente do que presente. Então, ela foi pai e mãe dos nossos filhos. Depois, trabalha comigo desde que nós nos casamos, há 27 anos. Faz agenda, a parte burocrática. No governo do estado, sempre trabalhou voluntariamente. Nunca foi nomeada para nada e nunca recebeu um centavo. Nesse caso dos vestidos, ela ganhou, sim. Usou e doou a entidades – o que ajudou muita gente. Mas, mesmo tendo ajudado entidades e mesmo não tendo causado ônus para o estado, considero que houve um erro. Como, para mim, vida pública tem de ser absolutamente transparente, acho que nós não temos de reclamar da cobrança. Essa é a lógica do espírito republicano, tem de ser assim.

VejaO que o senhor disse a ela quando surgiu a notícia?
Alckmin – Quando fui prefeito, tinha um jornal que vez ou outra me hostilizava. Meu pai um dia me viu um pouco chateado e falou: "Lembre-se do que dizia Santo Agostinho: prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me adulam, porque me corrompem". Então, se a crítica é correta, corrija. Foi isso o que eu disse a ela.

VejaO MST promoveu, no primeiro trimestre deste ano, o maior número de invasões dos últimos seis anos. Como o senhor lidaria com o movimento, na Presidência?
Alckmin – Esse é um caso típico de leniência do presidente Lula. A reforma agrária não anda e, ao mesmo tempo, você tem invasão de propriedades com setores do governo justificando a invasão. Outro dia, o presidente Lula foi inaugurar as Casas Bahia, em São Bernardo do Campo. Eu achei até engraçado. Porque aquele terreno onde estão as Casas Bahia foi invadido pelo MST em 2003. O advogado dos invasores era o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, e o PT inteiro foi lá apoiar a invasão, que resultou, inclusive, na morte de um fotógrafo. Mais tarde, nós reintegramos o terreno, sem nenhum incidente, e fez-se um investimento no local que gerou 1 100 empregos. Em abril, o Lula foi lá inaugurar! Se dependesse do PT, aquilo seria um acampamento até hoje. Quer dizer, é uma enorme de uma, me perdoe a deselegância, cara-de-pau da parte dele.

VejaComo o senhor lidaria com as invasões?
Alckmin – Não existe solução mágica. O país tem de crescer, tem de fazer reformas, tem de gerar empregos...

VejaMas, enquanto o país não cresce, o que o senhor faria com os sem-terra?
Alckmin – Nós vamos trabalhar primeiro para fazer a reforma agrária. Agora, invasão, não.

VejaPara quem invadir, o que acontece?
Alckmin – Invadiu, vai desinvadir. A lei é para todos, e invadir propriedade alheia é crime.

VejaO PT tem priorizado, na política externa, o que chama de relação Sul-Sul, o comércio com países pobres. O que o senhor acha dessa opção?
Alckmin – Eu acho uma besteira. É uma visão ideológica totalmente ultrapassada. Não há razão para você diminuir o mundo para as nossas empresas. Cada milhão de dólares que você exporta gera 60.000, 70.000 empregos no Brasil. Nós precisamos ter uma política externa muito mais ambiciosa, precisamos conquistar mercado e acelerar os acordos comerciais bilaterais. Num cenário internacional tão bom, é inconcebível que o governo aja de maneira quase covarde.

VejaUm assessor seu contou que, diariamente, o senhor extrai de um livrinho frases para nortear seu dia.
Alckmin – Eu vario muito de livro. Andava com um que se chamava 30 Dias com Mahatma Gandhi. Tinha uma folha para cada dia do mês, cada uma com duas reflexões: uma para ler de manhã e outra para encerrar o dia. Minha irmã, todos os anos, me manda a Folhinha Salesiana, do Sagrado Coração de Maria. Você pendura na parede, destaca todo dia uma página e põe no bolso. Tem sempre uma frase bíblica e outra humanista para provocar a reflexão.

VejaHaviam dito que o livro que o senhor usava era Caminho (de Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei).
Alckmin – Esse eu tenho também, ganhei do meu pai. Mas ultimamente não tenho lido, não.

VejaPor que o senhor acredita que irá para o segundo turno com Lula?
Alckmin – O presidente Lula esteve em todas as eleições para presidente nos últimos vinte anos – vai disputar agora sua quinta eleição. Ele tem um enorme recall (fixação do nome na memória dos entrevistados devido à intensa exposição anterior). Só que é recall, não é intenção de voto. Tem petistas por aí de salto 15, criando uma expectativa grande. Psicologicamente, Lula irá para o segundo turno derrotado. Podem ter certeza. O embate começará no dia 5 de julho. E eu começarei esse dia às 5 da manhã.

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