As metas inflacionárias têm levado a disfuncionalidades cada vez
maiores na economia internacional
HÁ ALGO de profundamente errado na aplicação das "metas
inflacionárias". Tem sido tratada como o estado da arte em matéria de
política monetária. Mas tem levado a disfuncionalidades cada vez
maiores na economia internacional. É a parábola planilheira do Belo
Antonio.
Vamos a uma explicação didática sobre o que está ocorrendo no mundo
no momento:
1) A economia norte-americana padece de dois déficits crescentes, o
fiscal e o externo. A saída para os EUA estaria em uma atuação
orquestrada de seu BC com os de outros países, para permitir uma
desvalorização controlada do dólar.
2) Além de não haver essa ação articulada, a política monetária
americana está sujeita ao sistema de metas inflacionárias, focado na
inflação interna e no crescimento. A um soluço da inflação, o Fed
aumenta os juros, atrai mais dólares para os títulos americanos, com
um efeito de apreciação no dólar que reduz ainda mais a
competitividade de seus produtos.
3) Para impedir que os EUA suguem os fluxos financeiros
internacionais, outros bancos centrais aumentam suas respectivas
taxas de juros. O resultado é um freio na valorização do dólar, mas
desaquecimento da economia global, com implicações sobre o
crescimento global em proporção muito maior do que a necessária.
4) O Brasil não tem controle sobre sua política monetária. Ela
depende, fundamentalmente, dos fluxos cambiais e das taxas de juros
de captação -porque não se tem controle sobre o capital especulativo.
Quando se aumentam os juros internamente, há um maior fluxo de
dólares entrando, ocorre uma apreciação do real que leva à
convergência das expectativas para as tais metas inflacionárias.
5) Qualquer evento internacional negativo provoca fuga de recursos do
país, especialmente devido ao fato de se ter um papel muito líquido,
pró-cíclico (tende a melhorar na frente dos demais emergentes e a
piorar também), levando a uma desvalorização do real. Para impedir
que a inflação saia da meta, mais juros, mais dívida interna, menos
expectativa de crescimento.
6) Paga-se um preço exorbitante para conseguir um controle da
inflação em cima de uma situação de não-equilíbrio do câmbio -a não
ser que se aceite como de equilíbrio um câmbio que está levando à
desindustrialização da economia.
7) Hoje em dia, o Brasil paga 7,3% nas captações externas. Só a
volatilidade cambial responde por dois pontos percentuais desse
total, 20% acima do Embi (Emerging Markets Bond Index).
Há quem diga que o livre fluxo de dólares atua a favor da redução dos
juros. O fenômeno não teria ocorrido pelo fato de o BC estar sendo
conduzido por cabeças duras. Mas, na hipótese da eclosão de uma crise
internacional, que leve a outras rodadas de elevação nos juros, a uma
fuga de recursos do país, basta que o risco Brasil suba para 10,5%
para tornar novamente instável a dinâmica da dívida interna.
Em suma, "metas inflacionárias" podem ser o estado da arte. Mas que o
sistema monetário internacional está cada vez mais disfuncional não
se tenha dúvida.