Entrevista:O Estado inteligente

sábado, junho 03, 2006

Folha de S.Paulo - Gesner Oliveira: Crescimento outonal - 03/06/2006

O inverno está chegando para as economias do Sul, os tempos de
bonança externa terminaram

O INVERNO está chegando para as economias do Sul. Os tempos de
bonança externa terminaram. O mundo não vai necessariamente entrar em
recessão. Mas os limites ao forte crescimento no preço de commodities
e ao dinheiro barato deixarão de viabilizar qualquer política
econômica. Chegou a hora de saber quem é cigarra e quem é formiga. O
Chile é formiga. Sabe que os preços recordes do cobre não são
eternos. Portanto procura formar um fundo de estabilização que possa
compensar a redução de receitas quando houver uma reversão no
comportamento dos preços daquele produto. A Venezuela é cigarra. O
Estado venezuelano tem elevado sistematicamente os gastos correntes
com base em receitas fiscais recordes derivadas do aumento de preços
do petróleo. A reversão dos preços não ocorrerá no curto prazo, mas,
quando vier, será desastrosa para o povo venezuelano. A farra de
Chávez terá um preço alto. A Bolívia está tentando seguir o canto de
Chávez. Será um desastre já no curto prazo. O Peru decidirá seu papel
na fábula econômica da América Latina amanhã, quando ocorre o segundo
turno das eleições presidenciais. As duas opções -Ollanta Humalla e
Alan García- são péssimas. O mercado gosta de fazer o jogo do
contente e acha García um mal menor. E o Brasil? É formiga ou
cigarra? O Brasil é uma economia mais diversificada e complexa do que
as mencionadas antes. Certamente não é formiga. O setor público
continua desajustado. Promoveu-se aumento sem precedentes nos gastos
correntes e estreitou-se ainda mais a margem para aumento do
investimento público em infra-estrutura. As contas só fecham à custa
de uma carga tributária absurda, que sufoca a capacidade de
crescimento. A sinalização positiva para o setor privado buscar o
mercado internacional foi perdida. Com o advento do câmbio flutuante,
a partir de 1999, a estratégia de abertura contagiou grandes e mesmo
pequenas e médias empresas. Muitas indústrias se prepararam para
obter mais de 50% de sua receita com exportações. Isso foi perdido a
partir de 2003. O exagero no aumento de juros provocou apreciação
excessiva do real, comprometendo a competitividade da maioria dos
segmentos exportadores. Tal fenômeno não foi acompanhado pela
elevação da produtividade relativamente ao resto do mundo. Pelo
contrário, observou-se uma perda de competitividade sistêmica em
virtude de custos crescentes para a infra-estrutura, especialmente em
transportes. O desempenho do setor exportador se manteve em níveis
muito bons, dada a intensidade excepcional do boom externo. O aumento
da demanda externa e a conseqüente elevação de preços compensaram os
movimentos desfavoráveis na taxa de câmbio e na produtividade. Os
efeitos negativos desse processo já estão emitindo seus primeiros
sinais. Verificaram-se redução do número de empresas exportadoras (já
reduzido) e desaceleração da taxa de crescimento das exportações.
Mais preocupante, é nítida a reversão dos planos estratégicos de
aumento do grau de abertura no setor privado. É ilusório pensar que o
ligeiro aumento no investimento é sustentável. Perdeu-se, assim, a
mola propulsora tanto da recuperação da economia quanto do notável
ajuste externo verificado após a mudança de regime cambial a partir
de 1999. Tampouco o Brasil é a cigarra típica da fábula de La
Fontaine. Cantou mal e para poucos durante o verão. A oportunidade de
crescer mais rápido e com consistência foi em grande medida perdida.
A taxa de 3,4% de expansão no primeiro trimestre de 2006
relativamente a igual período do ano anterior, divulgada pelo IBGE na
quarta-feira, é a menor entre o conjunto de economias emergentes.
Acelerar o crescimento em uma conjuntura externa mais volátil como a
que se vislumbra será mais difícil. Em uma das versões de Monteiro
Lobato, a fábula tem um desfecho diferente. Quando chega o inverno, a
formiga se compadece da cigarra imprevidente e a ajuda como
reconhecimento das boas horas que o canto da cigarra propiciou.
Infelizmente, o mercado internacional de capitais não costuma ser
condescendente, especialmente quando a cigarra carece de talento.

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