CLÓVIS ROSSI
Gente rica é outra coisa
BERLIM - Na primeira vez que desci na estação Friedrichstrasse do S-
Bahn (trem de subúrbio alemão), parecia a rodoviária de Foz do
Iguaçu. Era o comecinho de 1990, o Muro já havia caído, mas as
Alemanhas ainda eram duas. Eu e meu filho erramos de plataforma e, ao
tentar descer para acertar o caminho, trombamos com uma barreira
compacta intransponível de "sacoleiros" alemães orientais que
voltavam carregados dos produtos "capitalistas" a que não podiam
aceder até pouco antes. Depois, voltei a Berlim um punhado de vezes,
fiquei sempre do lado oriental e pude, mais ou menos, acompanhar a
transformação. Mas ontem, pela primeira vez, tive a microperspectiva
vista da mesma estação Friedrichstrasse, a antiga porta de entrada
para Berlim Oriental (e para o comunismo). Não sobrou traço do antigo
ambiente, sombrio, decadente, que mais parecia "set" de filmagem para
películas de espionagem ambientadas nos anos 50, no imediato "pós-
guerra quente" e, portanto, início da Guerra Fria. O capitalismo deu
um baita banho de loja na estação (e no resto, claro). Com uma ponta
de crueldade, instalou, já faz tempo, uma loja de carros Bentley,
coisa para lorde inglês, justamente na histórica esquina da
Friedrichstrasse com a Unter den Linden, a passos da maciça embaixada
soviética (hoje russa) na Alemanha (então Oriental), como se quisesse
dizer: "Ganhamos, vão ter que nos engolir". Faz só 16 anos, um nada
em termos históricos, mas a diferença é abissal. É possível
transformar um país quase da noite para o dia, com o inevitável choro
e ranger de dentes e alguma (ou muita, sei lá) nostalgia do tempo em
que o Estado velava por todos, do berço ao túmulo. Só precisa de um
detalhe: dinheiro (e grandeza nos homens públicos). Tudo o que falta
ao Brasil.
crossi@uol.com.br