Entrevista:O Estado inteligente

sábado, junho 03, 2006

Caos no país que a ONU ajudou a criar

VEJA
Novo e já acabado

Laboratório da ONU na reconstrução de países
falidos, o Timor Leste é tomado pelo caos


Duda Teixeira


Adrees Latif/Reuters
Saqueadores no Timor: o governo perde o controle

O Timor Leste é o laboratório da ONU para uma nova ciência: a de reconstruir nações falidas por colapsos sociais ou guerras. Parte de uma pequena ilha do Oceano Índico, o país tornou-se independente da Indonésia em 1999 – um processo que levou à morte mais de 100.000 pessoas – e foi governado por funcionários das Nações Unidas até 2002, quando os timorenses elegeram seu primeiro presidente. No mês passado, o mandato da força de paz internacional no país teve de ser estendido porque o caos havia se instalado nas ruas de Díli, a capital. Um confronto envolvendo o Exército, a polícia e gangues armadas com facões, pedras e revólveres matou 27 pessoas e fez com que 90.000 moradores se refugiassem nas montanhas, fora da cidade. Aproveitando a desordem, jovens desempregados saquearam supermercados e repartições públicas e incendiaram casas. A confusão começou depois que o primeiro-ministro Mari Alkatiri demitiu quase metade do contingente do Exército para conter uma greve. Os soldados demitidos, que se dizem discriminados por ser de etnias do oeste do país, rebelaram-se. Em meio a esse cenário, a experiência da ONU no Timor Leste parece condenada ao fracasso. "É lamentável, depois de todo o esforço, ver que o país voltou à estaca zero", diz a juíza paulista Dora Martins, que está entre os três magistrados estrangeiros do tribunal de Díli.

Em seu esforço para construir um Estado no Timor Leste, a ONU tentou criar as instituições básicas de uma democracia, incluindo um poder executivo, tribunais, forças de segurança, sistema escolar e serviço de saúde. Há duas razões para o fracasso nessa missão. A primeira é que o Timor Leste não tem uma cultura de instituições. A dificuldade de criar um sistema judicial no país é prova disso. Não há advogados nem juristas timorenses suficientes para assumir as funções nos tribunais. Os trinta dialetos vigentes no país também atrapalham. É comum ter em uma audiência judicial testemunhas e juízes falando quatro ou mais línguas. A segunda razão para o fiasco do laboratório da ONU é que o Timor Leste é um país praticamente sem economia. A agricultura local foi destruída durante a retaliação das milícias pró-Indonésia à independência. Nos primeiros anos da intervenção internacional, a economia dependia do consumo e dos empregos gerados por funcionários e soldados estrangeiros. Essa demanda diminuiu nos últimos anos. Em Díli, 27% da população jovem está desempregada. Espera-se que a exploração de petróleo, iniciada em 2004, possa trazer novo fôlego ao Timor Leste. O país já acumulou 420 milhões de dólares com a renda petroleira, mais do que o PIB nacional, de 370 milhões de dólares. "O governo timorense, no entanto, não tem funcionários capacitados para criar uma política de fomento econômico com esses recursos", diz Antonio Barbedo de Magalhães, especialista em Ásia da Universidade do Porto, em Portugal.

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