Para alguma coisa serviu a constatação, confirmada pelas últimas pesquisas, de que os índices de popularidade do presidente-candidato Lula não despencaram com os escândalos de corrupção que destroçaram a equipe dos companheiros petistas da primeira hora e, em milagre que desafia interpretações, sustenta o seu favoritismo para a sonhada reeleição.
A julgar pelas aparências, ninguém mais surpreendido que o próprio beneficiado, que descobriu, em iluminação instantânea, a vereda da saída e o governo que exerce com as singularidades do seu estilo originalíssimo.
Pois, Lula está impossível. Passa mais tempo no Palácio do Planalto, participa e preside reuniões em seu gabinete para ouvir pouco e falar muito, fiel ao seu lema de que governar é fazer discurso.
E nada mais significativo da sua conversão ao ritual clássico do que o alvissareiro pronunciamento no programa semanal de rádio que complementa a maratona das viagens do candidato, ponteada de improvisos: "O governo tomou a decisão de mandar a medida provisória (a MP que libera R$ 24 bilhões para as estatais) porque o Congresso não consegue votar o Orçamento". E vai fundo no embalo da imaginação: "O governo não pode ficar parado, tem que administrar o país. Afinal de contas, tem muita coisa em andamento no Brasil e precisamos de dinheiro para poder tocar as obras".
A salada mistura equívocos, desinformações e a coragem de dizer qualquer coisa na caça ao voto. Ressalve-se que está coberto de razão na crítica ao Congresso que não conseguiu votar o Orçamento deste ano – estamos na segunda quinzena de abril – deixando o governo com as mãos atadas.
Mas, na martelada no nervo exposto do pior Congresso de todos os tempos, esquece que o governo verga ao peso das suas culpas e omissões. A maioria governista está perdida no pantanal das denúncias do escândalo de corrupção, que corroeu como cupim em pau podre a autoridade oficial. E não chegou a ser acionada para valer, com o empenho e a participação presidencial para fechar o acordo possível com a oposição desvairada.
Como o pássaro que emudece na muda, o governo atravessa a fase negra da desorganização interna. A demissão do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, todo-poderoso no comando da economia, e sua substituição pelo ex-ministro do Planejamento, Guido Mantega, transferido para a Fazenda, reclama prazo para a acomodação.
A vassourada do relatório da CPI dos Correios, com o repique da arrasadora denúncia do procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, encaminhada ao Supremo Tribunal Federal, expõe o governo e o Congresso na nudez do vexame indefensável. E é difícil mudar de assunto, assobiando para distrair a platéia. Inaceitável a desculpa andrajosa de que Lula nada soube, nada viu do que as CPIs, a Promotoria Pública, a Polícia Federal, a imprensa investigaram, apuraram e denunciam em milhares de páginas.
Pois, denúncias pipocam de todos os lados e atingem o governo e o PT, um partido que perdeu quadros históricos e sofre o bombardeio da confirmação pela Justiça do caixa dois e do mensalão, qualificado pelo procurador-geral da República como operação de uma "quadrilha, organização criminosa", acusada de "desvio de recursos públicos, concessão de benefícios indevidos a particulares em troca de dinheiro e compra de apoio político". E o presidente-candidato aposta na sorte e confia que chegará às urnas intocado e nas alturas do favoritismo.
A campanha só começou para o presidente-candidato, privilegiado pela indecorosa vantagem de permanecer no cargo, no uso e gozo da máquina estatal, atrás do biombo da mistificação oficial de que não pede votos, mas inspeciona obras, comparece a solenidades e fala para auditórios selecionados. A reeleição confeccionada sob medida para garantir o bis de FHC foi herdada por Lula e usada sem o menor constrangimento.
Como se tivesse tempo para desperdiçar e votos de sobra, a oposição empacou na escolha do vice pefelista, enquanto o candidato Geraldo Alckmin ensaia os primeiros contactos com o esquivo eleitorado nordestino, núcleo lulista.
A campanha ainda não mostrou fôlego para o debate das reformas realmente prioritárias para enfrentar a crise moral que respinga na toga e enlameia o Legislativo e o Executivo.
Com mais algumas absolvições dos últimos denunciados nas trapaças do mensalão e do caixa dois, a Câmara pode encomendar a mortalha da desonra com a reação indignada do eleitorado, que ronda e não tarda a acampar na Praça dos Três Poderes.
E acertará as contas no voto em branco e, em protesto justo e profilático, na renovação em massa do alto, médio e baixo clero.