Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, abril 06, 2006

Sob inspiração do Chacrinha

EDITORIAL DE O ESTADO DE S PAULO

Muito ao contrário do que disse o ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos para se esquivar de depor sobre o escândalo da Caixa, os fatos a respeito não estão nem um pouco "praticamente esclarecidos". Claro está que as informações já trazidas à luz sobre a operação da quebra e vazamento ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa justificam a decisão da Polícia Federal (PF) de indiciar o ex-ministro Antonio Palocci como mandante do crime - o que ele nega com a mesma ênfase com que negou ter estado alguma vez na casa onde Francenildo, um motorista e um corretor declararam tê-lo visto.

Claro também está que uma guerra surda lavra no sistema de poder petista. Envolve, pelo menos, além do ministro demitido, o ex-presidente da Caixa Econômica Jorge Mattoso, o titular da Justiça e o seu mais próximo colaborador, o secretário de Direito Econômico Daniel Goldberg. Mattoso disse à PF ter sido chamado por Palocci ao Palácio do Planalto na tarde de 16 de março. Saiu dali para administrar a invasão da conta de Francenildo. À noite, levou ao ministro, em sua casa, os extratos do caseiro.

Ali estavam Goldberg e o assessor de comunicação da Fazenda, Marcelo Netto, apontado como o autor do repasse à revista Época, no dia seguinte, dos documentos destinados a embasar a calúnia de que Francenildo foi subornado para contradizer Palocci, com o fito, segundo ele, de "sangrar o governo". Anteontem, naquela mesma casa funcional, o ex-ministro afirmou a um incrédulo delegado federal que Mattoso é que tomou a iniciativa de lhe entregar em domicílio os extratos que ele, Palocci, não sabia que haviam sido tirados, muito menos por quem - e que triturou no dia seguinte, sem mostrá-los a ninguém.

Claro não está o que exatamente Goldberg fazia aquela noite na residência do ministro; se testemunhou, ou deduziu do comportamento do anfitrião, o delito que ali se cometia; se fez ou se se recusou a fazer, na versão de Thomaz Bastos, o que Palocci lhe teria pedido e, principalmente, quando falou pela primeira vez sobre o caso com o seu superior, que viajara para Rondônia e estava - ou não - incomunicável. Daí a importância capital da solicitação do Ministério Público à Justiça para rastrear as ligações feitas de uma série de telefones funcionais e de celulares - da Fazenda, Justiça, Caixa e da residência de Palocci - nos fatídicos dias 16 e 17.

Nenhuma barreira deve se interpor entre os órgãos credenciados a apurar atos ilícitos de autoridades e servidores públicos e o esclarecimento cabal da enormidade de que foi vítima Francenildo. Essa não é uma advertência pró forma. Há razões para crer que o bate-rebate de acusações e versões sirva, afinal, para circunscrever o estrago político provocado pela baixaria. Assim se impediria - também desta vez - que ela alcance o presidente da República que demitiu o seu principal ministro e, no dia do adeus, o premiou com um atestado de inocência. Na terça-feira, Lula citou o "quem não se comunica se trumbica" do humorista Chacrinha. Teria sido mais apropriado se lembrasse o seu "vim para confundir, não para explicar".

Pois o equivalente a isso aconteceu três vezes nesse dia. Primeiro, no depoimento de baixos teores de credibilidade e alto teor de torpeza (a acusação a Mattoso) do ex-ministro da Fazenda. Segundo, na farsa montada por um de seus advogados, José Roberto Batochio. Para despistar os jornalistas enquanto o seu cliente depunha, ele mandou avisar que daria uma entrevista para divulgar uma "bomba". A fim de atiçar o interesse da mídia, os seus mensageiros davam a entender que ele falaria como ex-presidente da OAB. No fim, não havia bomba alguma - apenas um vexame e uma transgressão da ética do ofício.

A terceira deliberada tentativa de confundir foi do presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, o amigão de Lula. Na CPI dos Bingos, acareado com o ex-militante Paulo de Tarso Venceslau, o primeiro a expor as entranhas do jeito petista de governar, Okamotto, com cara de santo, se desdisse sobre o pagamento de uma dívida de Lula com o PT, entre outras. De tudo, fica uma certeza: como nas matrioshkas russas, abra-se uma mentira e se encontrará outra, e assim sucessivamente, de alto a baixo do petismo no poder.

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