Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, abril 03, 2006

SERGIO COSTA O poder do palavrão

FOLHA
 RIO DE JANEIRO - Na antológica entrevista ao "Pasquim", em novembro de 1969, Leila Diniz fez uma defesa sincera e libertária do palavrão. Questionada por Jaguar se foi a psicanálise que tornou sua boca "suja"", explicou: "...o palavrão virou verdade em mim e, quando as coisas são verdade, as pessoas aceitam".
Palavrões, entre outras coisas, eram censurados durante a ditadura. No "Pasquim", as respostas de Leila foram editadas repletas de asteriscos no lugar das expressões que pontuavam suas histórias.
Ao contrário de Leila, homens públicos não falam palavrões em público. Procuram palavras bonitas que, traduzidas ao pé da letra, talvez fossem mais úteis se publicadas em forma de asteriscos. Antonio Palocci é um desses. Tinha a fala mansa e doce que tranqüilizava o mercado e hoje, revelada a farsa do caseiro, a gente fica pensando no lobo atrás do discurso de cordeiro.
O minucioso relato de Kennedy Alencar, ontem na Folha, sobre como foi urdida a violação do sigilo bancário de Francenildo Costa, é impressionante e seria capaz de fazer corar a doce e liberada Leila Diniz. E olhe que Alencar não reproduziu um só palavrão das conversas de bastidores que apurou.
Na segunda-feira, 27, Jorge Mattoso, então presidente da Caixa, respondeu com um (*) à solicitação imoral que Palocci lhe fizera para arcar sozinho com a quebra de sigilo do caseiro. O ministro da Fazenda foi então para cima do colega Márcio Thomaz Bastos, a quem cobrou mais ação da Polícia Federal na investigação sobre Francenildo. O sempre elegante ministro da Justiça o rechaçou com um (*).
Abandonado na sua luta desesperada para se manter no poder, Palocci colecionou palavrões como respostas às suas propostas indecentes até ser demitido. Se fosse para seguir o tom das últimas conversas do ministro no Planalto, dava até para usar um palavrão aqui, daqueles bem espontâneos como faria Leila Diniz. Mas deixemos os asteriscos da indignação à imaginação do leitor.

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